Hoje acordei assim, com vontade de passear por Paris. Não por Belo Horizonte, não pela padaria da esquina, não pelo sacolão onde a batata está custando quase uma passagem aérea. Queria Paris.
Acordei com aquela alma meio francesa, meio mineira, olhando para o teto como quem contempla a cúpula do Panthéon, embora o teto aqui estivesse pedindo uma pintura desde 2019. Levantei devagar, com a dignidade de um personagem de filme europeu, tropecei no chinelo e murmurei:
— Mon Dieu, la gravité est une inimie personnelle.
Meu Deus, a gravidade é uma inimiga pessoal.
Fui até a cozinha decidido a tomar um café como se estivesse num bistrô em Saint-Germain-des-Prés. Mas, no lugar de croissant amanteigado, havia pão dormido. No lugar de geleia artesanal de frutas vermelhas, manteiga meio dura. No lugar de uma garçonete parisiense perguntando “Monsieur, vous désirez?”, havia uma geladeira fazendo um barulho de caminhão velho subindo a Raja Gabaglia.
Ainda assim, mantive a pose. Porque o segredo de Paris não está só em Paris. Está na arrogância delicada com que se olha para o próprio café.
Preparei a xícara, sentei-me à mesa e disse, solenemente:
— Le café est froid, mais l’âme est chaude.
O café está frio, mas a alma está quente.
Foi quando percebi que não estava em Paris. Um detalhe pequeno, quase burocrático, mas incontornável. A Torre Eiffel não aparecia na janela. Em seu lugar, um prédio com uma caixa d’água azul e uma antena parabólica torta. Não havia o Sena, mas havia um vazamento discreto na área de serviço. Não havia acordeonista na calçada, mas o vizinho de cima arrastava móveis às oito da manhã, talvez reorganizando Versalhes.

Mesmo assim, decidi que eu caminharia por Paris. Nem que Paris tivesse que vir até mim.
Vesti uma camisa clara, coloquei um lenço no pescoço, porque ninguém é francês impunemente sem algum risco de parecer garçom de casamento, e saí pela rua com ar contemplativo. A primeira pessoa que encontrei foi o porteiro, que me olhou como quem vê um homem a dois passos de pedir ajuda médica.
— Vai viajar, seu Paulo?
Respondi com elegância:
— Je vais flâner.
Ele piscou.
— Vai o quê?
— Flanar. Passear sem destino. Como fazem os parisienses.
Ele me encarou por dois segundos e concluiu:
— Ah. Então tá à toa.
A tradução foi cruel, mas precisa.
Continuei minha caminhada tentando imaginar que a calçada quebrada era uma ruazinha charmosa do Marais. O buraco no meio do passeio ganhou status de ruína romana. O cachorro latindo no portão virou um filósofo existencialista. O caminhão de gás passou buzinando, e eu tentei ouvir aquilo como se fosse música francesa.
— C’est la vie, pensei.
Mas logo acrescentei:
— C’est la vie avec boleto.
É a vida, mas com boleto.
Entrei numa padaria disposto a pedir algo francês. Olhei para a vitrine. Havia pão de queijo, empada, sonho, rosca e um bolo de fubá com cara de avó mineira. Nenhum éclair. Nenhum macaron. Nenhuma madeleine capaz de despertar memórias proustianas. Mas havia pão de queijo quentinho, e nesse ponto até Proust largaria a literatura.
A balconista perguntou:
— O senhor vai querer o quê?
Endireitei o lenço e disse:
— Um café e dois pães de queijo, s’il vous plaît.
Ela respondeu:
— No copo americano?
Aquilo me desmontou. Paris tinha perdido de goleada para Minas Gerais. O copo americano venceu o cálice francês. A realidade, essa senhora sem maquiagem, colocou os pés na mesa.
Sentei-me, mordi o pão de queijo e tive uma revelação: talvez Paris seja bonita, mas não inventou o queijo derretido dentro de uma massa quente. A França tem o Louvre, mas Minas tem tabuleiro de quitanda. A França tem Notre-Dame, mas nós temos padaria aberta domingo. Eles têm o Sena. Nós temos café coado.
— Paris est magnifique, mais le pão de queijo est une institution démocratique.
Paris é magnífica, mas o pão de queijo é uma instituição democrática.
Saí da padaria mais reconciliado com o mundo. Continuei minha falsa caminhada parisiense. Passei por uma banca de jornal e imaginei que fosse uma livraria da margem esquerda. Passei por uma farmácia e pensei: “ali poderia ser uma perfumaria”. Passei por uma obra parada e pensei: “isso não precisa de tradução; é universal”.
A certa altura, um sujeito buzinou porque o trânsito travou. Outro respondeu com uma frase que não se aprende na Aliança Francesa. Um motociclista costurou os carros com a precisão de um esgrimista. Uma senhora atravessou fora da faixa com a serenidade de quem já venceu batalhas maiores.
E eu, no meio daquilo tudo, compreendi que Paris é uma cidade, mas também é uma desculpa. Uma desculpa para andar devagar. Para reparar no mundo. Para tomar café sem culpa. Para achar que a vida merece trilha sonora, mesmo quando o som ambiente é uma britadeira.
Voltei para casa sem ter visto a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo ou o Museu d’Orsay. Mas vi uma árvore florida, um cachorro de suéter, uma criança derrubando sorvete na própria camisa e um senhor discutindo com o aplicativo de banco como se estivesse negociando o Tratado de Versalhes.
Foi um belo passeio.
Ao chegar, tirei o lenço do pescoço, porque a elegância também tem limite térmico. Sentei-me novamente à mesa, olhei para o resto do pão dormido e concluí:
— Aujourd’hui, je ne suis pas allé à Paris. Mais Paris, très poliment, est passée me voir.
Hoje eu não fui a Paris. Mas Paris, muito educadamente, passou aqui para me visitar.
E isso, convenhamos, já é alguma coisa.
Porque no fim das contas, meu caro, a gente não acorda com vontade de passear por Paris. A gente acorda com vontade de ser um pouco mais leve. De transformar a rotina em cenário. De olhar para a vida com um certo charme absurdo, como quem atravessa uma avenida esburacada imaginando estar à beira do Sena.
E se alguém achar exagero, respondo em francês, com toda a solenidade possível:
— Monsieur, La vie est trop courte pour la traverser sans imagination.
A vida é curta demais para caminhar sem imaginação.
