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Cleitinho volta ao jogo e a direita redesenha a eleição em Minas

Por Paulo Leite Rede 98
01/08/2026 10:59 Atualizado há 2 horas
Cleitinho
Senador Cleitinho (Carlos Moura/Agência Senado)

Recuo de Euclydes Pettersen, aproximação com o PL e entrada da Federação União Progressista podem formar uma super coligação. O problema agora é encontrar um vice que agrade a Cleitinho e, principalmente, ao bolsonarismo.

Segundo um deputado do Republicanos ouvido pela coluna, o presidente estadual da legenda, deputado federal Euclydes Pettersen, recuou da articulação que vinha conduzindo com Marcelo Aro, do PP. O entendimento em construção previa Aro candidato ao governo de Minas e Euclydes concorrendo ao Senado.

A conversa, porém, mudou depois de uma reunião de Euclydes com o presidente nacional do Republicanos, o deputado Marcos Pereira. A orientação que saiu desse encontro foi outra, apoiar a candidatura do senador Cleitinho Azevedo ao governo de Minas.

Cleitinho tem reunião marcada neste sábado com Marcos Pereira e Euclydes para definir seu destino eleitoral. Publicamente, o encontro era tratado como a última tentativa de encerrar uma indefinição que se arrasta há semanas. Nos bastidores, contudo, a posição do comando partidário já teria caminhado novamente em direção à candidatura própria.

Não é uma mudança pequena. É praticamente uma reconstrução completa do tabuleiro da centro-direita mineira.

A chapa que está sendo desenhada

Caso o PL confirme a adesão, a composição mais provável teria Cleitinho candidato ao governo, um nome indicado pelo PL para vice, Domingos Sávio disputando uma vaga no Senado e Marcelo Aro concorrendo à segunda cadeira.

A coligação reuniria Republicanos, PL e a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP.

Seria uma das maiores estruturas partidárias já montadas para uma eleição estadual em Minas Gerais. Teria capilaridade municipal, bancadas parlamentares, prefeitos, recursos financeiros e uma ampla rede de lideranças regionais.

Segundo cálculos apresentados pelos articuladores da aliança, esse grupo poderia concentrar mais da metade do tempo destinado à propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

A estimativa ainda não é oficial. O cálculo definitivo dependerá do registro das coligações, das candidaturas efetivamente apresentadas e do plano de mídia elaborado pela Justiça Eleitoral. As convenções podem ocorrer até 5 de agosto, e os tribunais têm prazo posterior para organizar a distribuição do horário gratuito.

Mas uma coisa já pode ser afirmada: PL, Republicanos, União Brasil e PP, juntos, formariam uma poderosa máquina de comunicação eleitoral. Em uma campanha estadual, isso pesa.

As redes sociais continuam decisivas, especialmente para um candidato como Cleitinho. Mas televisão e rádio dão regularidade, alcance territorial e capacidade de transformar popularidade pessoal em campanha organizada.

Cleitinho deixaria de ser apenas o candidato das redes para se tornar o candidato de uma grande estrutura partidária. E toda grande estrutura apresenta a conta.

Euclydes abre mão da própria candidatura

A primeira conta parece estar sendo paga pelo próprio Euclydes Pettersen. Na articulação anterior, ele seria candidato ao Senado ao lado de Marcelo Aro, que disputaria o governo. Na nova configuração, as duas vagas senatoriais seriam ocupadas por Domingos Sávio e Aro.

Euclydes ficaria fora da chapa majoritária. Seu recuo mostra o peso da direção nacional do Republicanos e também o tamanho do esforço para convencer Cleitinho a disputar o governo.

O presidente estadual da legenda estaria abrindo mão de um projeto pessoal para reorganizar o partido em torno do senador. É uma concessão considerável, especialmente porque Euclydes vinha trabalhando sua pré-candidatura ao Senado havia meses.

Na política, toda aliança exige sacrifícios. Normalmente, porém, os discursos falam em unidade enquanto alguém é discretamente retirado da fotografia. Desta vez, esse alguém poderá ser o próprio presidente estadual do partido.

O nó do vice

Resolvida a cabeça da chapa, começa outra disputa: a escolha do vice.

Cleitinho deseja ter ao seu lado Luiz Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios. Falcão filiou-se ao Republicanos em fevereiro e vinha sendo tratado publicamente como o principal nome para compor uma chapa pura com Cleitinho.

O problema é que uma aliança com o PL altera completamente essa equação. O partido de Domingos Sávio dificilmente entrará em uma coligação dessa dimensão apenas com a vaga ao Senado. A indicação do vice tende a ser o preço político exigido pelo PL para entregar estrutura, tempo de propaganda e alinhamento nacional à candidatura de Cleitinho.

O desejo pessoal do senador de escolher Falcão, portanto, poderá ser frustrado. Esse será um teste importante para Cleitinho.

Durante meses, ele demonstrou resistência em aceitar as regras tradicionais da construção partidária. Queria preservar autonomia, controlar a própria chapa e evitar compromissos que limitassem sua maneira particular de fazer política. Mas não existe supercoligação sem divisão de espaços.

Cleitinho poderá ter a maior estrutura eleitoral entre os candidatos ao governo. Em compensação, terá de ceder parte do controle da campanha.

É o velho contrato político: ganha-se musculatura e perde-se liberdade. A resistência a Marcelo Aro, que chegou a ser estudado como possível vice de Cleitinho.

A hipótese, porém, enfrenta forte resistência dentro da ala bolsonarista do PL, segundo o relato feito à coluna. Aro é reconhecido como um articulador habilidoso, com trânsito entre partidos e relacionamento com prefeitos e parlamentares. Mas justamente por possuir perfil mais pragmático e menos ideológico, encontra obstáculos entre dirigentes que desejam um nome mais organicamente identificado com o bolsonarismo.

Para esse grupo, o vice precisa representar não apenas uma composição estadual, mas também garantir um palanque sem ambiguidades para o candidato presidencial do PL. A solução encontrada poderá ser deslocar Aro para o Senado.

Esse arranjo preservaria sua participação na chapa, contemplaria a Federação União Progressista e evitaria uma disputa direta em torno da vice-governadoria. O próprio presidente estadual do PL, Domingos Sávio, já havia admitido publicamente que, numa aliança com Cleitinho, a segunda candidatura ao Senado poderia ficar com Marcelo Aro.

Aro deixaria de ser alternativa ao governo e passaria a integrar uma chapa liderada pelo mesmo Cleitinho cuja candidatura ameaçava desaparecer poucos dias atrás.

A política mineira não anda. Ela dá cambalhotas.

Mateus Simões perde terreno

A eventual formação dessa coligação atinge diretamente o governador Mateus Simões. Simões vinha contabilizando União Brasil e PP entre os partidos de sua base eleitoral. Em entrevista concedida em julho, afirmou possuir o compromisso das duas legendas, além de PSD, Novo e outros partidos de centro-direita. Hoje surge uma conversa com o PSDB para a adesão à campanha de Mateus.

A entrada da Federação União Progressista na chapa de Cleitinho desmontaria parte dessa construção. Simões permaneceria com uma estrutura relevante, mas perderia partidos, prefeitos, tempo de propaganda e importantes canais de financiamento eleitoral.

Além disso, teria de enfrentar uma candidatura que reuniria a popularidade pessoal de Cleitinho, a força nacional do PL, a organização do Republicanos e a capilaridade municipal de União Brasil e PP.

Não seria apenas mais um adversário. Seria a unificação de quase todo o campo político que Simões esperava liderar.

A última decisão é de Cleitinho

Apesar de toda a articulação, ainda existe uma pergunta sem resposta definitiva: Cleitinho aceitará as condições da aliança?

O Republicanos parece disposto a entregar a candidatura. O PL demonstra interesse, mas exigirá participação efetiva na composição. União Brasil e PP podem encontrar na chapa espaço para Marcelo Aro. Domingos Sávio já está lançado ao Senado.

Falta encaixar o vice. E falta, sobretudo, Cleitinho compreender que uma candidatura desse tamanho não pode continuar sendo conduzida por impulsos, recuos e anúncios adiados.

A indecisão já produziu desgaste com partidos, aliados e lideranças que ficaram durante semanas aguardando uma palavra definitiva.

Agora surgiu uma nova oportunidade. Talvez a última.

Caso aceite a candidatura e a composição, Cleitinho entrará na eleição com uma força política muito maior do que tinha quando começou a discutir seu futuro. Mas também entrará cercado por compromissos, interesses e dirigentes que não aceitarão ser tratados como figurantes.

Cleitinho poderá ser o dono dos votos. A chapa, porém, terá muitos proprietários.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.