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Direto ao Ponto: Sociólogo explica por que direita consegue atrair mais votos dos empreendedores

Por Kellen Lanna • Rede 98
13/10/2026 16:36 Atualizado há 2 horas
O governo Lula anunciou um reajuste de aproximadamente 15% no Bolsa Família apenas 17 dias antes das Eleições. (Foto: Lyon Santos/ MDS)
(Foto: Lyon Santos/ MDS).

A direita brasileira tem conseguido se aproximar dos pequenos empreendedores por meio de um discurso de liberdade econômica, enquanto a esquerda enfrenta dificuldades para conquistar esse eleitorado, apesar de ter criado e ampliado políticas de incentivo ao empreendedorismo. A avaliação é do professor titular de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jorge Alexandre Neves, em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da 98 News.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), mais de 2 milhões de famílias deixaram o programa Bolsa Família nos dez primeiros meses de 2025. Desse total, 1.318.214 saíram após aumento da renda familiar, 726.799 concluíram o período da Regra de Proteção e 24.763 solicitaram o desligamento voluntário.

Entre os fatores que contribuíram para a saída estão a formalização no mercado de trabalho, a abertura de pequenos negócios e o crescimento dos rendimentos familiares. Os números, no entanto, não significam que todas essas famílias tenham conseguido empregos com carteira assinada.

Durante a entrevista, Alexandre Neves destacou que o acesso ao trabalho formal não é o único caminho para a independência financeira de beneficiários de programas sociais. Segundo ele, o empreendedorismo também pode representar uma alternativa, especialmente em regiões atendidas pelo Crediamigo, programa de microcrédito do Banco do Nordeste.

O pesquisador apontou que a expansão de iniciativas desse tipo demonstra que parte dos beneficiários busca oportunidades para ampliar a renda e deixar de depender das transferências governamentais.

Como a direita se beneficia

Apesar de reconhecer o papel de governos petistas na expansão de políticas voltadas aos pequenos negócios, o pesquisador avalia que a direita apresenta maior facilidade para transformar o empreendedorismo em identificação política.

O professor citou a criação do Simples Nacional, em 2006, e do Microempreendedor Individual (MEI), em 2008, durante os governos Lula, além da ampliação do Programa Crediamigo.

Segundo ele, os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro não desenvolveram iniciativas de alcance equivalente. Ainda assim, a direita conseguiu incorporar o empreendedorismo ao discurso político, especialmente por meio da defesa da liberdade individual.

“É curioso realmente isso que você tem de um lado um grupo político que não teve ações práticas de apoio ao empreendedorismo, mas tem um discurso que se encaixa”, afirmou.

Para o sociólogo, a defesa da autonomia para trabalhar e administrar o próprio negócio encontra identificação entre empreendedores. Já setores da esquerda, segundo ele, demonstram resistência ideológica ao tema por associarem o empreendedorismo individual ao risco de enfraquecimento dos vínculos coletivos.

Essa diferença entre discurso e políticas públicas ajuda a explicar, na avaliação do pesquisador, por que parte dos trabalhadores autônomos se aproxima eleitoralmente da direita, mesmo diante de iniciativas implementadas por governos de esquerda.

Crediamigo como porta de saída do Bolsa Família

Criado durante o governo Fernando Henrique Cardoso e ampliado nas gestões de Lula, o Crediamigo oferece financiamento a pequenos empreendedores, principalmente no Nordeste, além de áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo.

De acordo com Alexandre Neves, o programa se tornou o maior de microcrédito da América Latina e contribuiu para ampliar as possibilidades de geração de renda por meio de atividades econômicas próprias.

Em um estudo sobre o comportamento eleitoral no Nordeste, o professor identificou uma associação mais forte entre a presença do Crediamigo e a votação de Lula do que entre o Bolsa Família e o desempenho eleitoral do presidente.

A pesquisa também encontrou uma relação negativa entre a presença relativa dos dois programas, resultado que, segundo o sociólogo, sugere que o acesso ao microcrédito pode reduzir a necessidade de transferência de renda em determinados contextos.

Os resultados indicam uma associação estatística, mas não demonstram, isoladamente, que o financiamento tenha provocado a saída de beneficiários do Bolsa Família.

Neves também destacou a importância da capacitação profissional para aumentar as chances de sucesso dos pequenos negócios. Entre as iniciativas citadas estão parcerias com o Sebrae, voltadas à orientação de empreendedores.

Renda cresce, mas expectativas profissionais continuam frustradas

O professor também apontou que o aumento da renda não elimina a insatisfação de trabalhadores que não encontram oportunidades compatíveis com sua formação.

Segundo ele, a economia brasileira apresentou crescimento dos rendimentos e do consumo desde 2023, mas a criação de empregos com salários, estabilidade e perspectivas de carreira esperados por parte da população não acompanhou essas expectativas.

Ele citou o exemplo de profissionais formados em engenharia que acabam trabalhando em outras funções ou em plataformas de transporte por aplicativo.

“Então, a vida dele piorou? Não, mas ela tá bem abaixo do que ele sonhou e do que ele achou que seria factível”, explicou.

O fenômeno, chamado de privação relativa na sociologia, ocorre quando as condições alcançadas por uma pessoa ficam abaixo daquilo que ela esperava conquistar. Para o pesquisador, esse cenário reforça a necessidade de ampliar oportunidades de trabalho e tratar o empreendedorismo como uma prioridade das políticas econômicas e sociais.

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Kellen Lanna
Kellen Lanna
Jornalista graduada pela UFSJ. Supervisora de distribuição na 98 FM/ 98 News.