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A eleição que o brasileiro insiste em esquecer

Por Paulo Leite • Rede 98
25/09/2026 11:35 Atualizado há 2 horas
(Foto: José Cruz/Arquivo/Agência Brasil)

Há muito tempo venho insistindo na importância de se olhar com mais cuidado para as eleições legislativas. Enquanto a disputa para presidente e governadores recebe holofotes, debates, jingles, carreatas e toda a gritaria das redes sociais, a escolha de deputados estaduais, deputados federais e senadores costuma ser tratada como uma obrigação burocrática. É quase um apêndice eleitoral.

Um erro monumental

No Brasil, o eleitor passa meses discutindo quem ocupará a Presidência da República, ou o governo dos seus estados, mas frequentemente decide o voto para deputado na fila da seção eleitoral. Escolhe o nome indicado por um amigo, aceita a recomendação de um conhecido ou consulta, na véspera, aquele grupo de WhatsApp em que todos são especialistas em política, futebol, vacinas, economia, guerra no Oriente Médio e previsão do tempo.

O resultado dessa negligência aparece depois, quando o eleitor descobre, geralmente tarde demais, que o presidente da República não governa sozinho. Tampouco o governador. Ambos dependem do Legislativo para aprovar leis, reformas, orçamentos, programas e projetos. Dependem, sobretudo, da formação de maiorias políticas.

A malsinada coalizão

É a lógica do governo de coalizão, essa curiosa engenharia brasileira na qual o Executivo vence a eleição, mas precisa negociar diariamente o direito de governar. Sem apoio parlamentar, o governo pode ficar paralisado. Com uma maioria dócil demais, pode governar sem os freios necessários. E, quando a relação se deteriora, o Congresso deixa de ser parceiro e passa a atuar como uma espécie de sócio controlador da República.

O poder do Legislativo cresceu enormemente nos últimos anos. Deputados e senadores conquistaram influência direta sobre parcelas cada vez maiores do Orçamento. Por meio das emendas parlamentares, destinam recursos para municípios, hospitais, obras, estradas, instituições e projetos.

Em tese, é uma maneira de aproximar o dinheiro público das necessidades locais. Na prática, quando faltam transparência e fiscalização, também pode se transformar numa máquina de reprodução eleitoral. O parlamentar distribui recursos, apresenta-se como pai da obra e retorna à cidade para colher dividendos políticos de um dinheiro que nunca foi dele. É do contribuinte.

O que deve fazer um deputado

O deputado federal não está em Brasília apenas para fazer discursos ou gravar vídeos indignados no corredor do Congresso. Ele participa da elaboração das leis, fiscaliza o governo, vota o Orçamento, analisa reformas, pode convocar ministros, integrar comissões parlamentares de inquérito e decidir sobre temas que interferem diretamente na vida da população.

O deputado estadual também não deveria ser apenas um “animador de auditório” do governador. Cabe às assembleias legislativas votar o orçamento dos estados, fiscalizar o Executivo, aprovar leis estaduais e acompanhar a aplicação dos recursos públicos. Um parlamentar que passa quatro anos aplaudindo o governo não está exercendo representação. Está fazendo figuração bastante cara.

A importância da escolha no Senado

A escolha para o Senado exige ainda mais atenção. O mandato de senador dura oito anos, tempo suficiente para atravessar dois governos presidenciais e influenciar profundamente os rumos institucionais do país.

O Senado participa da validação das leis, representa os estados e possui competências exclusivas. Aprova ou rejeita indicações para o Supremo Tribunal Federal, para a Procuradoria-Geral da República, para a direção do Banco Central, para embaixadas e para outros postos estratégicos. Também julga processos de impeachment e toma decisões relacionadas ao endividamento dos entes públicos.

Portanto, quando o eleitor escolhe um senador, não está apenas elegendo alguém para pronunciar discursos em Brasília. Está entregando a essa pessoa o poder de interferir na composição das principais instituições do Estado brasileiro durante quase uma década.

Em 2026, cada estado elegerá dois senadores. Isso significa que estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado. É uma renovação capaz de mudar a correlação de forças do país e de influenciar decisões muito além do mandato do próximo presidente.

A escolha dos deputados tem ainda uma particularidade que exige atenção redobrada: o sistema proporcional. O voto dado a um candidato ajuda também o partido ou a federação. Dependendo do desempenho coletivo da legenda, o eleitor pode contribuir para a eleição de outro nome da mesma lista.

Não basta, portanto, gostar do candidato. É necessário observar o partido, a federação, os companheiros de chapa e o projeto político representado por aquele conjunto. Na política, assim como na vida, as companhias dizem muito. Às vezes, dizem até mais do que o candidato gostaria de admitir.

Pesquisar é indispensável

É preciso saber de onde o candidato veio, qual profissão exerceu, quais grupos representa, quem financia sua campanha, quais propostas defende e se existe coerência entre o discurso atual e sua trajetória.

Se já possui mandato, a investigação deve ser ainda mais rigorosa. Como votou? A quais sessões faltou? Quais projetos apresentou? Que emendas destinou? Para onde foi o dinheiro? Fiscalizou o governo ou apenas ocupou a confortável função de apoiador automático? Mudou de posição por convicção ou por conveniência?

Não se trata de procurar candidatos perfeitos. Eles não existem. Trata-se de evitar candidatos desconhecidos, oportunistas ou embalados apenas por frases de efeito. Política não é concurso de vídeos curtos, campeonato de lacração ou guerra permanente por curtidas.

O eleitor brasileiro desenvolveu o hábito de procurar um salvador para a Presidência e entregar o Legislativo ao acaso. Depois, passa quatro anos indignado com o Congresso que ele próprio ajudou a formar.

Uma contradição que precisa acabar

A democracia não se resume à escolha de um presidente. Democracia é a montagem completa da estrutura de poder. Um mau Congresso pode paralisar um bom governo, proteger um governo ruim, desmontar políticas públicas, enfraquecer a fiscalização e transformar o Orçamento numa feira de interesses.

Da mesma forma, um Legislativo responsável pode limitar abusos, aperfeiçoar projetos, fiscalizar o Executivo e impedir que qualquer governante se considere maior do que as instituições.

Por isso, antes de votar, pesquise. Leia, compare, investigue e desconfie. Não terceirize uma decisão tão importante ao colega da pelada, ao grupo da família ou ao influenciador que descobriu a política na semana passada.

O voto para deputado ou senador não é menos importante do que o voto para presidente ou governador.

Talvez seja justamente o voto que determinará quem, de fato, terá o poder de governar o Brasil.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.