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Ministério do Trabalho… ou da Bondade?

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No fim das contas, a fachada do Ministério do Trabalho, com seu nome reluzente em letras douradas, faz todo sentido: o ouro está mesmo nas paredes, nos contratos e nas conexões (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

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Você piscou, e o Ministério do Trabalho virou o Ministério da Multiplicação de Convênios. Sai de cena o velho esforço para gerar empregos; entra a nova missão: distribuir parcerias milionárias com ONGs amigas. E que amigas, hein?

A notícia não veio do “The New York Times”, mas do portal UOL — e, claro, fui atrás dos detalhes.

Em números frios, mas com cheiro de coisa quente, os convênios da pasta com ONGs saltaram de R$ 25 milhões em 2022 para R$ 132 milhões em 2023. Isso mesmo: um aumento de mais de 400% em apenas um ano. Sem CPI, mas com muito cafezinho nos bastidores de Brasília.

E adivinhe para onde vai o grosso desse dinheiro? Para entidades de pedigree sindical.

A campeã dos contratos? Uma ONG ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, mesma trincheira de onde emergiu Luiz Marinho, o atual ministro e ex-sindicalista. Nada como voltar para casa com a chave do cofre.

A Unisol (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil) levou a medalha de bronze em número de contratos, mas foi ouro em valores: R$ 17,6 milhões recebidos só em 2023. Um salto impressionante para quem, entre 2018 e 2022, não passava de R$ 4,2 milhões ao ano. Um upgrade digno de Silicon Valley, ou melhor, de São Bernardo do Campo, sede da entidade e epicentro da política trabalhista petista.

O maior contrato da Unisol prevê R$ 15,8 milhões para ações em Roraima, incluindo apoio a catadores de lixo e limpeza da Terra Indígena Yanomami. Missão nobre, sem dúvida. Mas há um detalhe curioso: a ONG paulista não explicou como pretende executar esse trabalho a mais de 3.500 km de distância. A Folha enviou e-mail, aguardou resposta e… silêncio. Deve ter caído no spam. Eu também tentei. Nada. Fiquei no vácuo e sigo aguardando.

Detalhe importante: a verba desse contrato não veio de emenda parlamentar, mas diretamente do orçamento do governo federal, com a justificativa de combate à crise humanitária entre os yanomamis. Ou seja, dinheiro carimbado para emergência indígena, repassado a uma ONG urbana e sindical.

E tem mais: mesmo durante a extinção do ministério no governo Bolsonaro, de 2019 a 2021, alguns convênios continuaram, mas com valores tímidos. O salto veio com o Lula 3 e o retorno triunfal de Marinho ao comando da pasta. Coincidência? Ou execução das tais “políticas públicas”?

No ranking geral, duas das três ONGs que mais receberam recursos estão sob suspeita de irregularidades, segundo apurações jornalísticas. Mas, convenhamos: em Brasília, quem não está?

No fim das contas, a fachada do Ministério do Trabalho, com seu nome reluzente em letras douradas, faz todo sentido: o ouro está mesmo nas paredes, nos contratos e nas conexões.

Se o objetivo da política pública era gerar emprego, parabéns: pelo menos para essas ONGs, a carteira está assinada — e bem gorda. Agora, se vai sobrar alguma coisa para o trabalhador comum… bom, talvez ele também precise arrumar um convênio.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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