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Debate da Band: Cleitinho é o líder das pesquisas e principal alvo

Por Paulo Leite Rede 98
16/08/2026 10:14 Atualizado há 2 horas
Debate da Band
Candidatos participam de debate neste domingo

O primeiro debate televisionado da eleição para o governo de Minas Gerais acontece neste domingo com um desenho político bastante claro: cinco candidatos estarão no estúdio da Band, mas apenas um deles entra como líder destacado das pesquisas.

E, por isso mesmo, como alvo preferencial.

Cleitinho Azevedo, do Republicanos, chega ao debate liderando a corrida pelo Palácio Tiradentes. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 28 de julho, aparecia com 35% das intenções de voto em um dos cenários pesquisados. Alexandre Kalil tinha 12%, Patrus Ananias 10%, Mateus Simões 7%, Gabriel Azevedo 4% e Flávio Roscoe 2%.

A vantagem é grande

Mas o Cleitinho que chega ao debate não é exatamente o mesmo que aparecia naquela pesquisa.

Depois do levantamento, o senador protagonizou uma sequência política difícil de explicar, hesitou sobre a candidatura, chegou a anunciar que não disputaria o governo, voltou atrás e acabou candidato. O próprio Cleitinho admitiu posteriormente que sua indefinição lhe custou palanques e apoios.

Esse é o primeiro dado concreto que torna o debate importante.

Durante alguns dias, Cleitinho não conseguiu responder a uma pergunta elementar: queria ou não queria disputar o governo de Minas?

Agora terá de responder a uma pergunta muito maior.

Por que o eleitor deve acreditar que alguém que hesitou tanto para decidir sobre a própria candidatura está preparado para tomar decisões muito mais difíceis como governador?

Não é uma questão de temperamento. É uma questão política.

Minas tem uma dívida na casa dos R$ 200 bilhões, enfrenta uma relação fiscal complexa com a União e terá de decidir nos próximos anos sobre investimentos, funcionalismo, infraestrutura, saúde, educação e empresas estatais. Kalil, por exemplo, já colocou a questão fiscal no centro da campanha e fala em rever benefícios tributários que, segundo ele, chegam a R$ 26 bilhões.

É justamente aí que Cleitinho terá de sair de sua zona de conforto.

O senador construiu uma carreira política extraordinariamente eficiente na comunicação direta. Domina as redes sociais, conhece a linguagem popular e consegue transformar problemas complexos em mensagens simples.

Mas debate não é vídeo de celular.

Tem contraditório.

Tem réplica.

Tem adversário perguntando de onde vem o dinheiro.

E não existe botão de encerrar gravação quando aparece a segunda pergunta.

Kalil e as alianças 

Alexandre Kalil sabe disso e já revelou qual será provavelmente uma de suas principais armas. Ao falar sobre Cleitinho nesta semana, resumiu a diferença entre os dois numa frase: ele já governou.

Kalil tentará transformar a experiência na Prefeitura de Belo Horizonte em credencial para governar Minas.

É um argumento compreensível.

Mas também abre espaço para cobrança.

Kalil terá de explicar por que sua experiência municipal pode ser transportada para um Estado de 853 municípios, com enormes diferenças econômicas e sociais entre Belo Horizonte, Norte, Jequitinhonha, Zona da Mata, Triângulo, Sul e demais regiões.

E terá também de explicar suas alianças.

Depois de confrontos políticos duros no passado, hoje aparece ao lado de Aécio Neves, que disputa o Senado. Ao mesmo tempo, afirma que não revelará seu voto para presidente da República.

Pode chamar isso de independência. Os adversários certamente chamarão de conveniência.

Mateus e a máquina 

Mateus Simões entra no debate com outro tipo de problema.

Ele é o governador.

Portanto, não pode prometer como se estivesse chegando agora.

Simões participou durante anos da administração de Romeu Zema, foi vice-governador e assumiu o comando do Estado. Isso lhe oferece uma vantagem evidente: conhece a máquina pública e poderá falar de números, programas e decisões com a experiência de quem esteve dentro do governo.

Mas carrega também todo o passivo dessa administração.

Se a situação fiscal melhorou, poderá reivindicar participação.

Se existem problemas nas estradas, na saúde, na educação ou no funcionalismo, terá dificuldade para atribuí-los exclusivamente aos outros.

Ele precisa utilizar os resultados do governo anterior sem parecer apenas uma extensão eleitoral do ex-governador.

A pergunta política para Simões é simples. Qual é o projeto de Mateus Simões que não seja apenas o projeto de continuidade de Romeu Zema?

Roscoe: experiência em gestão e o desconhecimento

Flávio Roscoe enfrenta situação quase oposta.

Tem pouca exposição eleitoral e precisa utilizar o debate para se apresentar a milhões de mineiros.

Sua origem na Federação das Indústrias de Minas Gerais lhe dá discurso natural sobre desenvolvimento econômico, ambiente de negócios, indústria, emprego, infraestrutura e burocracia.

Mas isso também gera uma cobrança.

O Estado tem população pobre, hospitais regionais, escolas, segurança pública, servidores, municípios dependentes de transferências e enormes desigualdades territoriais.

Roscoe terá de mostrar que seu projeto ultrapassa a pauta empresarial.

E existe ainda um componente particularmente interessante.

O PL lançou Roscoe exatamente durante o período de indefinição de Cleitinho. O próprio senador reconheceu que perdeu apoios naquele processo.

Agora os dois estarão frente a frente disputando parcela semelhante do eleitorado conservador.

Isso pode produzir um dos confrontos mais importantes da noite.

Gabriel busca espaço

Gabriel Azevedo chega em outra condição.

A pesquisa Quaest lhe atribuía 4%. 

É pouco para quem pretende chegar ao segundo turno, mas debates costumam oferecer justamente aos candidatos menos conhecidos uma oportunidade que o horário eleitoral nem sempre consegue oferecer.

Gabriel é bom debatedor, conhece administração pública e tem experiência de embates políticos na Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Sua dificuldade será outra.

Precisa deixar de ser apenas o candidato capaz de fazer uma boa pergunta para se transformar no candidato capaz de apresentar uma boa resposta.

Argumentar bem não basta.

É preciso convencer o eleitor de que existe ali um governador possível.

O ausente Patrus 

Patrus Ananias decidiu não participar do debate. Segundo as informações divulgadas, estará em São Bernardo do Campo para o lançamento da candidatura presidencial de Lula.

Politicamente, é uma escolha discutível.

Patrus disputa o governo de Minas. No primeiro grande confronto televisivo entre os candidatos mineiros, estará em São Paulo participando de um evento presidencial.

É difícil imaginar um símbolo mais claro de uma velha fragilidade da política mineira: decisões estaduais frequentemente subordinadas à estratégia nacional dos partidos.

Patrus poderá ter uma justificativa partidária.

Mas deixa aos adversários uma pergunta pronta:

se pretende governar Minas, por que o debate de Minas não foi prioridade?

O resumo é este

No fundo, porém, o centro do palco continuará sendo Cleitinho.

Não porque seus adversários tenham combinado atacá-lo.

Mas porque política funciona assim.

Quem está com 35% precisa defender 35%.

Quem está com 12%, 7%, 4% ou 2% precisa crescer.

O líder tem votos a perder. Os demais têm votos para procurar.

Por isso, Cleitinho provavelmente ouvirá perguntas sobre sua desistência e volta, sobre seus aliados, sobre formação de equipe, sobre a dívida estadual e, principalmente, sobre como transformar sua enorme capacidade de comunicação em capacidade administrativa.

E essa talvez seja a pergunta mais importante de todo o debate.

Cleitinho já demonstrou que sabe conquistar eleitor.

Ainda precisa demonstrar que sabe governar.

Kalil precisa provar que experiência não virou passado.

Mateus Simões precisa mostrar que existe sem Zema.

Roscoe precisa provar que existe fora da Fiemg.

Gabriel precisa transformar argumento em viabilidade.

E Patrus, ausente, terá de explicar por que Brasília, e neste caso, São Bernardo do Campo, foi mais importante neste domingo do que Belo Horizonte.

A campanha mineira finalmente começa a sair das convenções, dos vídeos de rede social e das negociações partidárias.

Hoje haverá confronto.

E, pela primeira vez, talvez o eleitor consiga trocar uma pergunta bastante superficial, quem é o candidato de quem? por outra infinitamente mais importante:

Quem, entre eles, está realmente preparado para governar Minas Gerais?

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.