Minas Gerais chegou ao período decisivo da montagem das chapas eleitorais pagando o preço de duas irresponsabilidades políticas. De um lado, Rodrigo Pacheco. Do outro, Cleitinho Azevedo. Dois senadores que, por razões diferentes, transformaram a própria indecisão em um problema coletivo.
Não se trata apenas de hesitação pessoal. Político pode refletir, calcular riscos e até mudar de posição. O que não pode é ocupar o centro do tabuleiro, alimentar expectativas, estimular movimentos partidários, abrir negociações e, depois, agir como se suas dúvidas não produzissem consequências.
Produzem. E produziram um enorme tumulto na política mineira.
Rodrigo Pacheco passou tempo demais sendo tratado como uma espécie de solução institucional para Minas. Seu nome apareceu como possível candidato ao governo, como alternativa de conciliação, como liderança capaz de reorganizar o campo político e até como personagem nacional com força para devolver protagonismo ao estado.
O problema é que Pacheco nunca assumiu verdadeiramente esse papel.
Cultivou a possibilidade, ouviu aliados, recebeu apelos, permitiu que seu nome circulasse, mas evitou uma definição no momento em que a definição era necessária. Sua conhecida cautela, muitas vezes apresentada como virtude, acabou se transformando em omissão. Prudência em excesso também pode ser uma forma elegante de fugir da responsabilidade.
Cleitinho percorreu um caminho semelhante, embora com estilo diferente. Mais expansivo, popular e ruidoso, o senador manteve partidos e lideranças políticas em permanente estado de espera. Seria candidato ao governo? Disputaria o Senado? Apoiaria uma chapa? Construiria uma aliança? Caminharia sozinho?
Durante meses, cada conversa apontava para uma direção. Cada aparição pública abria uma nova hipótese. Cada declaração parecia feita para manter todas as portas abertas e nenhuma decisão tomada.
A indecisão virou método. E a vaidade passou a ocupar o lugar da estratégia.
Cleitinho parecia gostar da condição de homem mais desejado da política mineira. Enquanto partidos disputavam seu apoio e possíveis aliados aguardavam um sinal, o senador preservava o suspense. O problema é que eleição não é programa de auditório. Não se monta uma chapa majoritária com expectativa, improviso e frases de efeito.
Política exige liderança, capacidade de agregação e coragem para assumir riscos.
Pacheco e Cleitinho tiveram oportunidades distintas de liderar processos políticos em Minas. Nenhum dos dois exerceu essa função de forma plena. Um preferiu a discrição paralisante. O outro escolheu a exposição sem definição. Um silenciou demais. O outro falou demais sem dizer o essencial.
O resultado está diante dos mineiros: partidos inseguros, alianças frágeis, candidaturas improvisadas e chapas montadas sob pressão.
Minas perdeu a capacidade de comandar o próprio jogo
A confusão atual não pode, porém, ser atribuída somente aos dois senadores. Ela revela um problema mais profundo: Minas Gerais sofre com uma grave ausência de liderança política.
O estado que já teve capacidade de interferir diretamente nos grandes rumos nacionais hoje encontra dificuldades até para organizar suas próprias forças internas. Há muitos candidatos, muitos projetos pessoais e muitos grupos disputando espaço. O que falta é alguém capaz de sentar à mesa, estabelecer prioridades e construir um caminho minimamente coerente.
Minas tem políticos. O que não tem, neste momento, é comando.
As lideranças partidárias deixaram de liderar. Tornaram-se administradoras de interesses menores, negociadoras de cargos, vagas e conveniências eleitorais. Cada grupo tenta preservar seu espaço. Cada partido calcula quantos deputados pode eleger. Cada candidato procura a composição que lhe oferece menor risco pessoal.
O projeto para Minas aparece, quando aparece, muito depois da discussão sobre vice, Senado, tempo de propaganda e estrutura de campanha.
É o rabo abanando o cachorro.
As chapas se tornaram difíceis de montar porque não existe uma referência política capaz de organizar o ambiente. Sem liderança, os partidos passam a depender de movimentos individuais. Sem confiança, todos aguardam a decisão do outro. Sem projeto, qualquer aliança parece possível, e quase nenhuma parece natural.
Foi nesse vazio que Pacheco e Cleitinho cresceram como possíveis fiadores de grandes composições. Ambos tinham mandato, visibilidade e peso eleitoral. Poderiam ter reduzido a incerteza. Preferiram aumentá-la.
O custo da vaidade
Na política, a vaidade raramente se apresenta com esse nome. Ela costuma vestir a roupa da prudência, da estratégia, da consulta às bases ou da necessidade de ouvir os aliados.
Tudo isso é legítimo. Até o momento em que vira desculpa para adiar decisões.
Pacheco parece ter se acostumado à ideia de ser sempre lembrado como alternativa, sem necessariamente assumir o desgaste de se transformar em candidato. É confortável ser cortejado. Difícil é entrar em campo, defender um projeto e correr o risco de perder.
Cleitinho, por sua vez, parece ter confundido popularidade com liderança. São coisas diferentes. Popularidade oferece votos. Liderança exige direção. O político popular diz o que as pessoas querem ouvir. O líder, em determinados momentos, precisa dizer para onde pretende ir.
O senador falou muito sobre liberdade para decidir. Pouco sobre a responsabilidade de decidir.
Enquanto os dois preservavam seus próprios espaços, os demais atores políticos se moviam sem segurança. Candidaturas foram antecipadas, alianças foram cogitadas e rompimentos se tornaram inevitáveis. Partidos passaram a elaborar dois, três ou quatro cenários simultaneamente, todos dependentes de uma resposta que nunca chegava.
A política mineira virou uma sala de espera. E ninguém sabia exatamente por quem estava esperando.
Eleição não se monta na última hora
A falta de liderança também compromete o debate público. Quando chapas são organizadas de maneira apressada, o programa de governo vira detalhe. Os candidatos passam mais tempo explicando suas alianças do que apresentando soluções.
Minas possui problemas graves: dívida pública, infraestrutura deficiente, desigualdade regional, dificuldades na saúde, desafios educacionais e perda de protagonismo econômico. Nada disso deveria ser tratado como cenário secundário de uma disputa baseada em vaidades e ressentimentos.
Mas é exatamente o que acontece quando a política perde o eixo.
Em vez de discutir qual projeto responde melhor aos desafios do estado, a eleição passa a girar em torno de quem abandonou quem, quem traiu quem, quem aceitou ser vice e quem exigiu a cabeça de chapa.
É uma política pequena para um estado gigantesco.
Rodrigo Pacheco e Cleitinho Azevedo não criaram sozinhos essa decadência. Mas contribuíram decisivamente para aprofundá-la. Tinham força para organizar. Preferiram hesitar. Tinham autoridade para construir. Preferiram preservar ambiguidades.
Dois senadores irresponsáveis não porque sejam obrigados a disputar uma eleição, mas porque permitiram que todo o sistema político se organizasse em torno de possibilidades que eles próprios não tiveram coragem de confirmar ou descartar. Não disputar é um direito. Enganar aliados e manter um estado inteiro em suspense é outra coisa.
Minas precisa voltar a ter liderança
O episódio deveria servir de alerta. Minas não pode continuar dependendo de nomes que confundem liderança com prestígio pessoal. O estado precisa de dirigentes capazes de tomar decisões, assumir posições e compreender que mandato não é instrumento de contemplação da própria popularidade.
Liderar é contrariar aliados quando necessário. É escolher um caminho e responder por ele. É correr riscos. É deixar de ser unanimidade.
Pacheco e Cleitinho quiseram, cada qual à sua maneira, os benefícios de serem tratados como protagonistas sem pagar integralmente o preço do protagonismo.
O resultado foi uma política desorganizada, ressentida e montada aos pedaços.
Minas sempre gostou de cultivar a imagem da prudência. Mas prudência não pode ser confundida com covardia decisória. Há momentos em que esperar é inteligência. Em outros, é apenas uma forma sofisticada de abandonar o campo.
Os dois senadores esperaram demais.
E Minas ficou esperando com eles.