A política mineira encerrou o período das convenções como começou: cercada de dúvidas, ressentimentos, ameaças de rompimento e alianças que pareciam impossíveis até a véspera.
As reuniões terminaram, mas os partidos ainda têm prazo, até 15 de agosto, para registrar, complementar e ajustar suas candidaturas na Justiça Eleitoral. É uma espécie de prorrogação sem bola em campo. As convenções acabaram, porém atas, nomes, vices e composições continuam sendo alterados nos bastidores.
Em Minas, traição e parceria são palavras separadas apenas pelo calendário.
O adversário de ontem pode virar o vice de hoje. O aliado abandonado pela manhã pode ser abraçado durante o jantar. Quem passou semanas denunciando uma suposta deslealdade termina acomodado na mesma chapa, desde que exista uma cadeira disponível.
É assim que caminha a política mineira, menos pela coerência dos projetos e mais pela necessidade de encontrar lugar para todos na fotografia.
A super composição de Mateus
No campo governista, o PSD confirmou Mateus Simões como candidato ao governo. Depois de afastamentos, ataques públicos e negociações atravessadas, a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, decidiu apoiar a candidatura.
Danilo de Castro, do União Brasil, ficou com a vaga de vice. Marcelo Aro, do PP, manteve sua candidatura ao Senado. Carlos Viana, do PSD, também disputará uma vaga, enquanto Marco Antônio Costa, o Superman, representará o Novo na corrida senatorial.
Não haverá uma dobradinha única para o Senado dentro desse campo. Cada candidato cuidará da própria sobrevivência, ainda que todos possam, mas com alguma dificuldade, aparecer no mesmo palanque estadual.
A composição revela a extraordinária capacidade da política de curar feridas quando existem vagas disponíveis.
Marcelo Aro rompeu com o grupo de Simões, teve indicados retirados do governo, ensaiou uma candidatura própria e participou de articulações para construir uma alternativa. No fim, voltou ao mesmo campo que havia deixado. Não conquistou a cabeça da chapa, mas preservou seu projeto para o Senado. O União Brasil, que também participou das conversas por uma candidatura alternativa, acabou indicando o vice de Mateus Simões.
Não é exatamente uma reconciliação ideológica. É acomodação eleitoral. Um casamento sem juras de amor, celebrado diante da calculadora do tempo de propaganda, dos recursos partidários e da estrutura das chapas proporcionais.
O caminho de Patrus
Na esquerda, o PT organizou a Federação Brasil da Esperança, formada também por PCdoB e PV, em torno da candidatura de Patrus Ananias ao governo. Marília Campos foi escolhida para disputar uma vaga no Senado.
Depois de dias de impasse, o PSB decidiu entrar na composição e indicou Jarbas Soares Júnior para vice de Patrus. O partido também conquistou espaços na chapa senatorial de Marília.
Foi uma negociação difícil. Jarbas pretendia disputar o Senado. Parte do PSB defendia candidatura própria ou aproximação com outro palanque. Houve conversas com Alexandre Kalil, do PDT, e com Gabriel Azevedo, do MDB.
No fim, pesaram a aliança nacional entre PT e PSB e a necessidade de oferecer em Minas um palanque minimamente organizado para o presidente Lula.
O PSB não conseguiu a candidatura ao Senado que inicialmente desejava, mas recebeu a vice e outros espaços na composição. Perdeu uma disputa e ganhou uma acomodação.
A chapa petista também passou a considerar a presença de Áurea Carolina, do PSOL, na disputa pela segunda vaga ao Senado. O problema está dentro da Federação PSOL-Rede.
O PSOL decidiu apoiar Patrus e lançar Áurea, mas a Rede resistiu ao mesmo caminho e avaliou outras possibilidades. Como os dois partidos pertencem a uma federação, não podem apresentar posições eleitorais incompatíveis.
Federação partidária não é namoro aberto. PSOL e Rede podem discutir internamente, bater portas e trocar acusações, mas terão de apresentar uma decisão única à Justiça Eleitoral.
A união criada para reduzir a fragmentação partidária acabou se transformando numa pequena reunião de condomínio: todos dividem o mesmo endereço, mas ninguém concorda inteiramente com o síndico.
As decisões de Kalil
No PDT, Alexandre Kalil foi confirmado candidato ao governo. Carlos Mosconi, do PSDB, foi escolhido para ocupar a vaga de vice.
A aliança representa uma aproximação entre grupos que passaram anos trocando críticas, ironias e acusações. Na política, entretanto, memória longa costuma ser um obstáculo inconveniente.
Mais uma vez, a dificuldade está dentro de uma federação. O PSDB está unido ao Cidadania, mas a direção mineira do Cidadania rejeitou o apoio a Kalil. Os tucanos anunciaram Mosconi sem conseguir apagar a resistência do parceiro federado.
Não é uma divergência decorativa. PSDB e Cidadania precisam agir juridicamente como uma única organização. O PSDB pode desejar Kalil, mas não pode simplesmente esconder o Cidadania no fundo da festa e fingir que o parente incômodo não apareceu.
A composição precisará ser formalmente resolvida ou carregará uma fragilidade política e jurídica desde o nascimento.
O MDB de Gabriel
O MDB escolheu um caminho próprio e confirmou Gabriel Azevedo como candidato ao governo. A legenda tenta ocupar o espaço da independência e apresentar uma alternativa aos grandes blocos já formados.
A dificuldade será explicar o significado de independência para um partido que historicamente possui talento extraordinário para participar de governos de diferentes orientações.
Gabriel terá de demonstrar que sua candidatura não é apenas um instrumento para fortalecer as chapas proporcionais ou aumentar o poder de negociação do MDB.
O ressurgimento de Roscoe
No campo bolsonarista, o PL cansou de esperar por Cleitinho Azevedo e lançou Flávio Roscoe ao governo. Domingos Sávio foi confirmado para o Senado.
Roscoe aparece como consequência direta das hesitações de Cleitinho. Durante meses, o PL aguardou o senador do Republicanos. Recebeu sinais contraditórios, acompanhou anúncios, recuos, desistências e pedidos públicos de nova oportunidade.
O partido resolveu seguir seu próprio caminho, mas ainda precisa organizar uma candidatura capaz de reunir as forças bolsonaristas e oferecer em Minas um palanque consistente para a disputa presidencial.
A confusão do Republicanos
A direção estadual do partido informou oficialmente à Justiça Eleitoral que pretende lançar candidaturas próprias ao governo, à vice-governadoria e ao Senado. A ata registrada, entretanto, não cita Cleitinho Azevedo como candidato.
O partido afirmou que terá candidato próprio, mas não disse quem será o candidato. É uma candidatura sem rosto, uma chapa sem cabeça e uma decisão que, em vez de encerrar a crise, transformou a dúvida em documento oficial.
A direção mineira ainda tenta preservar o projeto de Cleitinho ou, pelo menos, manter aberta a possibilidade de uma candidatura própria. A direção nacional, comandada por Marcos Pereira, resiste à volta do senador depois de meses de hesitação, ameaças, anúncios contraditórios e recuos.
Caso o veto a Cleitinho seja mantido, o Republicanos poderá procurar outro nome. Entre as alternativas aparece Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas, inicialmente mencionado como possível vice e que poderia ser deslocado para a cabeça da chapa.
A ata também permite ao partido apoiar candidatos de outras legendas ao Senado, caso não apresente dois nomes próprios.
Na prática, o Republicanos preservou todas as portas abertas porque ainda não sabe por qual delas pretende sair. O documento revela uma disputa que deixou de ser apenas eleitoral. Tornou-se uma guerra interna entre a direção mineira, interessada em manter uma candidatura competitiva, e a direção nacional, que já não demonstra confiança na capacidade de Cleitinho de sustentar uma decisão.
Cleitinho conseguiu transformar uma candidatura eleitoralmente relevante num problema para o próprio partido e para todos os aliados que passaram meses aguardando uma definição.
O Republicanos, por sua vez, conseguiu produzir uma situação quase surreal: disse oficialmente à Justiça Eleitoral que terá candidato ao governo, mas não informou quem ocupará a candidatura.
Até agora, o partido sabe que quer disputar. Só não sabe, ou não consegue dizer, com quem.
O provisório retrato final
Mateus Simões reuniu a aliança mais ampla, trazendo de volta adversários recentes e distribuindo espaços entre PSD, União Brasil, PP e Novo.
Patrus Ananias organizou o campo lulista com PT, PCdoB, PV e PSB, mas ainda precisa acompanhar os desacordos entre PSOL e Rede.
Alexandre Kalil construiu uma parceria com o PSDB, embora tenha herdado o conflito dos tucanos com o Cidadania.
MDB e PL escolheram candidaturas próprias. O Republicanos registrou que também seguirá esse caminho, mas ainda procura um nome para conduzir o veículo.
As federações, criadas para reduzir a fragmentação, passaram a produzir outra espécie de problema: partidos obrigados a permanecer juntos, mesmo quando desejam seguir em direções opostas.
São casamentos com duração determinada pela legislação, nos quais a separação é difícil, mas as discussões acontecem diante do público.
Nos próximos dias, documentos serão ajustados, nomes confirmados e alianças formalizadas. Mas a fotografia política já está praticamente revelada.
Em Minas, poucos permaneceram exatamente onde estavam. Alguns chamaram antigos aliados de traidores e depois voltaram a procurá-los. Outros proclamaram independência antes de aceitar uma vaga na composição adversária.
Houve rupturas sem despedida, reconciliações sem pedido de desculpas e casamentos celebrados sem qualquer aparência de paixão.
Não é exatamente a política das convicções.
É a política das conveniências, das sobrevivências e das acomodações.
E assim, entre uma traição esquecida, uma parceria recém-inventada e uma candidatura ainda à procura de candidato, caminha a política mineira.