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Aécio ainda não é candidato. O problema é que tudo ao redor dele já parece candidatura

Por Paulo Leite Rede 98
27/08/2026 09:48 Atualizado há 9 minutos
aécio neves
Aécio Neves (Foto: Câmara dos Deputados)

Há um exercício de prudência que o jornalismo precisa fazer nesta quinta-feira: Aécio Neves ainda não é candidato ao Senado por Minas Gerais.

Não anunciou. Não confirmou. Formalmente, continua valendo a posição que apresentou no início de agosto, quando disse que encerraria uma sequência de 40 anos disputando eleições para se dedicar à presidência nacional do PSDB.

Dito isso, está ficando cada vez mais trabalhoso organizar uma candidatura para alguém que não é candidato.

Primeiro, dirigentes do PSDB, Cidadania e PDT fizeram um apelo público para que Aécio reconsiderasse sua decisão. Depois, Marcelo Heringer apresentou formalmente sua renúncia à candidatura ao Senado, abrindo uma vaga exatamente na coligação PDT-PSDB que sustenta Alexandre Kalil ao Governo de Minas. 

Agora, surge a informação de que Aécio contratou pesquisas incluindo seu próprio nome e teria se animado particularmente com a redução de sua rejeição. A avaliação publicada é de que uma decisão poderá ocorrer nesta quinta ou sexta-feira. 

Pode não ser candidatura, mas já tem quase todos os móveis dentro da casa.

E é justamente aí que começa a parte politicamente interessante da história.

Aécio não precisa ser apresentado ao eleitor

Uma eventual entrada de Aécio Neves produziria algo que poucos candidatos ao Senado em Minas conseguem provocar: mudança imediata no tabuleiro.

Não necessariamente porque Aécio seja hoje o político eleitoralmente dominante que já foi. Está longe disso.

Na eleição de 2022, quando disputou a Câmara dos Deputados, Aécio recebeu 85.341 votos. Foi eleito deputado federal, mas o resultado ficou muito abaixo dos milhões de votos que naturalmente acompanham alguém que já governou Minas duas vezes e chegou a disputar a Presidência da República.

Portanto, seria erro olhar apenas para o currículo e concluir que o Senado estaria esperando por ele de braços abertos.

Não está.

Aécio carrega dois patrimônios eleitorais simultaneamente, um enorme conhecimento e uma enorme história política para explicar.

Mas há uma diferença fundamental entre ele e boa parte dos adversários.

Aécio não precisa gastar campanha dizendo quem é. Pode precisar convencer o eleitor a votar nele novamente. É completamente diferente.

E as pesquisas já ofereceram uma demonstração disso.

Na Quaest divulgada em 28 de julho, quando Aécio ainda era testado para o Senado, Marília Campos aparecia com 18%, Aécio com 16%, Carlos Viana com 11%, Marcelo Aro com 10% e Domingos Sávio com 9%. Pela margem de erro de três pontos, havia empate técnico entre alguns dos principais nomes. 

O eleitor pode até ter reservas em relação a Aécio, mas sabe perfeitamente quem ele é.

Em eleição para o Senado, isso vale ouro.

Quem perde espaço? De quem ele tira votos?

A resposta não é simples.

Marília Campos ocupa hoje uma posição eleitoral importante e possui uma base política bastante distinta daquela tradicionalmente associada ao tucano.

Domingos Sávio tentará transformar sua ligação com o bolsonarismo numa estrada direta até o Senado.

Carlos Viana carrega experiência eleitoral, mandato de senador e recall.

Marcelo Aro construiu nos últimos anos uma enorme rede política no interior, especialmente junto a prefeitos e lideranças municipais.

Cada um tem seu território.

Aécio chega atravessando vários deles.

Pode disputar voto de centro com Aro. Pode buscar o eleitor mais tradicionalmente identificado com o PSDB. Pode recuperar parte de um eleitorado de centro-direita que não se identifica integralmente com o bolsonarismo. E pode ainda beneficiar-se da lembrança de suas duas passagens pelo Governo de Minas.

É exatamente por isso que sua entrada obrigaria as campanhas adversárias a refazer contas.

Não é preciso imaginar uma avalanche eleitoral. Basta perceber que, numa disputa por duas vagas, alguns pontos percentuais deslocados de um candidato para outro podem mudar completamente a fotografia.

E Kalil ganha uma peça de peso

Existe ainda outro componente.

Aécio não entraria sozinho. Entraria dentro da chapa de Alexandre Kalil.

E aí aparece uma curiosidade deliciosa da política mineira.

O PSDB que durante décadas foi adversário de campos políticos aos quais Kalil esteve mais próximo agora divide com o PDT uma coligação para tentar levá-lo ao Governo de Minas.

A política brasileira possui dessas habilidades extraordinárias de fazer o passado caber numa gaveta quando chega a eleição.

Mas, eleitoralmente, a operação tem lógica.

Kalil ganharia ao lado um personagem com estrutura partidária, capilaridade, experiência nacional e conhecimento praticamente universal no estado.

E Aécio encontraria uma chapa competitiva para tentar transformar seu retorno eleitoral numa espécie de segunda vida política.

Nenhum dos dois precisaria fingir que sempre caminharam juntos. Precisam apenas convencer o eleitor de que agora há razões suficientes para caminhar.

Aécio está testando algo maior que uma pesquisa

Talvez o ponto mais revelador dessa movimentação esteja justamente nas pesquisas que Aécio teria encomendado.

Político não encomenda pesquisa apenas para descobrir quantos votos possui. Pesquisa serve também para descobrir quanto de passado o eleitor esqueceu, quanto perdoou, quanto ainda rejeita e quanto está disposto a reconsiderar.

Se a informação de que Aécio se animou com a redução de sua rejeição estiver correta, o dado importante não é apenas eleitoral.

É político.

Significa que ele pode estar enxergando possibilidade real de reconstrução da própria marca.

Porque esta seria provavelmente a grande pergunta de uma candidatura de Aécio Neves em 2026: o eleitor mineiro está disposto a olhar novamente para Aécio sem enxergá-lo apenas pelas lentes das crises que marcaram sua trajetória nacional depois de 2014?

Essa resposta nenhuma articulação partidária consegue produzir. Somente a urna.

Continua faltando o “sim”

Por isso é importante não atropelar o fato.

Marcelo Heringer renunciou. PSDB, Cidadania e PDT pediram publicamente a candidatura. Aécio encomendou pesquisas e que aliados trabalham com a perspectiva de uma decisão muito próxima. 

Mas Aécio ainda não disse “sim”.

Quando, e se disser, teremos uma nova eleição para o Senado em Minas.

Não porque Aécio Neves seja imbatível. Não é.

Não porque seu passado garanta seu futuro. Também não garante.

Mas porque eleição é uma combinação de voto, memória, estrutura e conhecimento.

E poucos políticos mineiros carregam tanta memória, para o bem e para o mal, quanto Aécio Neves.

Aécio continua dizendo que não voltou

A ironia desta quinta-feira é justamente esta. Ele não admite, mas já há partido pedindo.

Candidato deixando a chapa. Pesquisa medindo sua força. E aliados discutindo até quando anunciar.

Para alguém que ainda não é candidato, a candidatura anda bastante movimentada.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.