Em um cenário de polarização acirrada, as eleições brasileiras deixaram de ser apenas uma disputa de propostas para se tornarem um embate de identidades e repulsas. Segundo o estrategista de comunicação política Pedro Santos e atua na campanha do candidato Alexandre Kalil (PDT), o pleito atual é pautado muito mais pelo “voto contra alguma coisa” do que pelo voto favorável a um projeto específico. Nessa dinâmica, criar uma imagem negativa do adversário que o eleitorado deseje repelir torna-se uma ferramenta crucial para impedir o crescimento do oponente.
As plataformas digitais também passaram a ocupar um espaço antes concentrado em comícios, encontros presenciais, televisão e rádio. Para o especialista, as redes funcionam como uma espécie de “nova rua” da campanha eleitoral, permitindo que o eleitor não apenas receba informações, mas também comente, compartilhe e participe da circulação do conteúdo político.
A presença de milhões de seguidores, entretanto, não garante desempenho eleitoral. O estrategista resume a diferença ao afirmar que “like não é voto”. A avaliação é que engajamento, visualizações e popularidade nas plataformas precisam ser analisados separadamente da capacidade de mobilizar eleitores até as urnas.
A avaliação é que números de seguidores, curtidas, compartilhamentos e visualizações precisam ser analisados separadamente da capacidade de uma candidatura de mobilizar eleitores nas urnas. Há candidatos com grande presença digital que não conseguem reproduzir a mesma força no resultado eleitoral.
Outro desafio está na forma como os conteúdos são consumidos. O pesquisador e professor Albenar Nunes aponta que especialistas enfrentam dificuldades para apresentar assuntos complexos nas redes sociais, ambiente em que conteúdos rápidos e soluções simplificadas costumam disputar mais atenção.
“Um cientista tem pouco apelo nas redes sociais porque ouvir o que é difícil, o que precisa treinar, as pessoas não querem. Elas querem: ‘Qual é a mágica? Cinco dicas, três dicas’”, afirma.
Campanha com 40 dias
Apesar do peso crescente das redes sociais, Pedro Santos avalia que a legislação eleitoral brasileira oferece segurança jurídica para a realização das eleições. Na comparação feita pelo estrategista, o país possui regras mais estruturadas do que outros países latino-americanos para controlar práticas irregulares durante o processo eleitoral.
O especialista, porém, faz uma ressalva sobre o calendário eleitoral. No Brasil, candidatos têm cerca de 40 dias entre o início da propaganda eleitoral e a votação do primeiro turno para apresentar propostas, participar de debates e tentar conquistar o eleitorado.
“É uma hipocrisia achar que em 40 dias você vai discutir seriamente a escolha de um presidente da República ou de um governador”, afirma.
O estrategista compara o cenário brasileiro ao de países onde a construção das candidaturas e o debate político começam com maior antecedência. Na avaliação dele, um período mais amplo permite que propostas e características dos candidatos sejam apresentadas de maneira mais aprofundada ao eleitor.