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A direita criou Cleitinho. Agora tenta sobreviver a ele

Por Paulo Leite Rede 98
23/09/2026 10:16 Atualizado há 55 minutos
Cleitinho Azevedo
(Foto: Agência Senado / Reprodução)

A política mineira está pagando o preço de duas longas esperas.

Primeiro, a esquerda ficou paralisada em torno de Rodrigo Pacheco. Durante meses, aguardou uma decisão de Lula, adiou a definição de sua candidatura e desperdiçou um tempo precioso. Sem saber se Pacheco entraria ou não na disputa, o campo progressista permaneceu sem caminho, sem discurso e sem candidato claramente estabelecido.

Depois, a direita repetiu o mesmo erro.

Com uma quantidade excessiva de candidatos e projetos pessoais, o campo conservador ficou refém da decisão de Cleitinho Azevedo. Todos esperaram para saber se ele disputaria o governo, recuaria, seria impedido pelo partido ou apoiaria algum outro nome. Enquanto Cleitinho hesitava, desistia e voltava, os demais candidatos ficaram politicamente estacionados na plataforma.

Hoje, os estrategistas da direita já reconhecem que a grande falha foi ter construído toda a eleição em torno da expectativa sobre Cleitinho.

Não porque ele seja eleitoralmente fraco. Muito pelo contrário. Cleitinho recebeu mais de quatro milhões de votos para o Senado, domina a comunicação nas redes sociais e estabeleceu uma relação direta com um eleitorado que não depende de partidos, prefeitos ou estruturas tradicionais.

Cleitinho cresceu fora de qualquer sistema de controle político

Ele é uma espécie de cão sem dono, expressão usada aqui como figura de linguagem, um franco-atirador eleitoral. Não se sabe com clareza quem comanda sua campanha, quem ocupa seu núcleo de confiança, quais grupos assumiram compromissos com sua candidatura nem quem efetivamente participará de um eventual governo.

O território político ao redor de Cleitinho permanece nebuloso.

Para os seguidores fiéis do senador no TikTok e no Instagram, isso pode ser interpretado como independência. Para a parcela da direita que tenta analisar as consequências de uma eventual vitória, começa a parecer imprevisibilidade.

Quem ganhará com Cleitinho eleito

Essa dúvida adquire outra dimensão diante da pesquisa do Instituto Ver. O levantamento colocou o senador com 42,8% das intenções de voto e 52,7% dos votos válidos. Pela primeira vez nesta reta final, uma pesquisa apresenta Cleitinho numericamente eleito no primeiro turno.

É aquele número de cassino: se o instituto acertar, quebra a banca.

Mas eleição não pode ser interpretada por uma pesquisa isolada. A Real Time Big Data encontrou Cleitinho com 35%; o Datafolha, com 37%. Mais importante: a Real Time apontou empate técnico num eventual segundo turno, com Cleitinho marcando 43% e Patrus Ananias, 42%.

O paradoxo está montado. Cleitinho pode estar perto de vencer no primeiro turno e, ao mesmo tempo, correr risco real se for levado ao segundo.

Mudança de estratégias (Mateus)

A consequência política já apareceu nas estratégias de Mateus Simões e Flávio Roscoe. Os dois descobriram que o principal reservatório de votos de que necessitam não está entre os indecisos nem no eleitorado de Patrus. Está na candidatura de Cleitinho.

Cleitinho virou o Banco Central do voto de direita em Minas. Simões e Roscoe precisam sacar votos da conta dele para sobreviver.

A campanha de Mateus Simões decidiu explorar as “escolhas de Cleitinho”: seus aliados, suas relações políticas e a destinação dos milhões de reais em emendas parlamentares apresentadas pelo senador.

Campanhas adversárias pretendem atribuir ao deputado federal Euclydes Pettersen um papel central na articulação dessas emendas. É uma acusação politicamente grave e, por isso mesmo, precisa ser acompanhada de documentos e provas.

A estratégia de Simões é apresentar uma contradição. O candidato que vende independência estaria cercado por personagens e práticas pertencentes à política tradicional que diz combater.

O questionamento é legítimo. O eleitor tem o direito de saber quem participa de uma candidatura, quem articula recursos públicos e quem poderá ocupar espaço num futuro governo.

Mas a fiscalização precisa respeitar os fatos. A Justiça Eleitoral já mandou retirar um vídeo no qual Simões vinculava Luís Eduardo Falcão a uma CPI sobre fraudes na saúde, por considerar haver indícios de informação falsa.

Ao tentar revelar as escolhas de Cleitinho, Simões não pode criar fatos que não se sustentem. Quem deseja desmontar a imagem de independência do adversário deve levar documentos para a mesa, não fumaça.

Mudança de estratégias (Roscoe)

Flávio Roscoe enfrenta dois problemas. O primeiro, pessoal e circunstancial, foi ter testado positivo para a Covid-19 justamente nesta fase decisiva. O segundo é político e bem mais profundo. Precisa provar ao eleitor bolsonarista que o verdadeiro representante desse campo é ele, e não Cleitinho.

Roscoe pretende recorrer a Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro para recuperar essa identidade. Mas o próprio PL tornou a tarefa mais difícil ao flertar com Cleitinho e permitir que suas lideranças acendessem velas para os dois candidatos.

Enquanto Simões pergunta quem Cleitinho escolheu, Roscoe pergunta de que lado Cleitinho realmente está.

Os dois ataques atingem o ponto mais vulnerável do líder: não sua popularidade, mas a falta de nitidez sobre o poder que o acompanha.

A armadilha eleitoral

Só que existe um perigo. Simões e Roscoe precisam retirar votos de Cleitinho e transferi-los para suas próprias candidaturas. Se apenas enfraquecem o líder e dividirem os votos conquistados, poderão impedir a vitória no primeiro turno sem alcançar a segunda posição.

Nesse caso, terão feito gratuitamente o serviço de Patrus Ananias.

O petista já percebeu a oportunidade. Depois de uma campanha de baixa intensidade, ampliou a presença nas ruas, foi ao interior, aproximou-se dos movimentos sociais e levou o presidente nacional do PT, Edinho Silva, para seu palanque em Belo Horizonte.

Patrus não precisa desmontar sozinho a candidatura de Cleitinho. Pode esperar que Simões e Roscoe façam o trabalho pesado dentro da direita.

A direita mineira criou esse problema quando passou meses esperando Cleitinho decidir o próprio destino. Ficou refém de sua candidatura, permitiu que ele ocupasse quase sozinho o espaço conservador e agora, às vésperas da eleição, tenta recuperar um eleitorado que já estabeleceu residência política em outro endereço.

Cleitinho pode vencer no primeiro turno. Pode ser levado ao segundo e enfrentar uma eleição apertada. Pode continuar navegando sem esclarecer completamente quem está embarcado em seu projeto.

O que já está claro é que Simões e Roscoe não disputam apenas contra Cleitinho. Disputam contra o erro estratégico que ajudaram a cometer.

A direita passou meses esperando por Cleitinho. Agora corre contra o relógio para não ser atropelada por ele.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.