A vantagem numérica de Domingos Sávio (PL) sobre Marília Campos (PT) na última pesquisa Quaest acendeu um alerta na campanha da petista e provocou mudanças na estratégia da reta final, segundo fontes ouvidas pela Rede 98. Marília manteve os 13% registrados na rodada anterior, mas viu adversários crescerem e, pela primeira vez, outro candidato aparecer numericamente à frente dela: Domingos chegou a 14%. Nos bastidores, integrantes do PT e do PSOL relatam preocupação com o resultado e afirmam que, depois da divulgação da pesquisa, a campanha passou a buscar uma aproximação maior com Áurea Carolina (PSOL), que começou a ser chamada para mais agendas ao lado da petista.
A pesquisa Quaest, divulgada na terça-feira (29/9), colocou Domingos com 14% e Marília com 13%. Carlos Viana (PSD) e Aécio Neves (PSDB) aparecem com 12% cada. Os quatro estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais.
Apesar de Marília não ter perdido pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, fontes da campanha ouvidas pela Rede 98 afirmam que a ultrapassagem numérica de Domingos não era esperada e provocou preocupação.
A leitura interna é de que a disputa pelas duas vagas ficou ainda mais apertada justamente nos últimos dias antes do primeiro turno.
Áurea ganha espaço nas agendas
Fontes do PT e do PSOL ouvidas pela Rede 98 afirmam que uma mudança começou a ser percebida depois da divulgação dos números: Áurea passou a ser chamada para participar de mais compromissos ao lado de Marília.
Segundo esses interlocutores, essa presença conjunta não vinha ocorrendo com a mesma frequência anteriormente.
A movimentação acontece depois de reclamações dentro do Psol sobre o espaço dado a Áurea nas agendas da petista. Interlocutores do partido já relatavam que Marília aparecia ao lado da candidata do Psol principalmente em compromissos ligados a movimentos sociais e segmentos identificados com a esquerda.
A queixa era diferente em agendas com prefeitos, vereadores e lideranças do interior e da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Nesses compromissos, integrantes do Psol afirmavam que a presença de Áurea era desaconselhada ou dificultada por avisos tardios sobre a programação.
Marília e a própria campanha negam que tenha ocorrido esse afastamento ou uma mudança de estratégia depois da pesquisa.
‘Marécio’ entra nas discussões
Nos bastidores, o resultado também trouxe novamente para a discussão o chamado “Marécio”, combinação informal na qual eleitores escolhem Marília e Aécio para as duas vagas ao Senado.
Marília não encampou oficialmente a estratégia, mas também não travou uma campanha contra o voto combinado. Agora, uma das avaliações feitas nos bastidores é se o movimento pode ter produzido um refluxo para a candidatura da própria petista.
Isso porque o eleitor que escolhe Aécio não necessariamente destina o segundo voto a Marília. Ao mesmo tempo, eleitores da esquerda que aderem ao “Marécio” acrescentam votos ao tucano, enquanto candidatos concorrentes de Marília também disputam o segundo voto de outros segmentos do eleitorado.
Não há, porém, elementos que permitam atribuir ao “Marécio” a mudança registrada pela Quaest. A hipótese já havia sido apontada como um dos riscos possíveis da estratégia pelo professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lucas Gelape.
Cientista político já havia apontado risco
Em entrevista anterior, Gelape explicou que o voto útil existe nas eleições para o Senado, mas avaliou que a existência de duas vagas, o número de candidaturas competitivas e a definição tardia dos votos dificultam o cálculo sobre quem acaba beneficiado.
Segundo o professor, uma das possibilidades é justamente que Aécio receba votos de eleitores da esquerda sem que haja uma transferência equivalente de eleitores do tucano para Marília.
“Um voto em Marília e Aécio pode, na verdade, tirar a Marília da eleição, da vitória, porque a direita conseguiria colocar um nome com bastante voto, enquanto a Marília perderia para o Aécio, porque o Aécio conseguiria os votos de esquerda, mas também vários votos ao centro”, explicou.
Gelape ressaltou, no entanto, que esse seria apenas um dos resultados possíveis, e não uma previsão sobre o resultado das urnas. O cientista político também apontou argumentos favoráveis à estratégia, entre eles a possibilidade de Marília e Aécio ampliarem seus votos diante de candidaturas mais identificadas com a direita.
“Existem argumentos favoráveis aos dois lados, de falar qual é a melhor estratégia para eleger Marília ou não e barrar candidatos mais à direita ou não. Mas é um cálculo muito difícil para o eleitor fazer”, afirmou.
A pesquisa Quaest ouviu 1.506 eleitores entre 25 e 28 de setembro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Globo e está registrado na Justiça Eleitoral sob o número MG-02019/2026.