Neste domingo, o eleitor entra na cabine carregando mais do que uma lista de números. Leva expectativas, frustrações, contas atrasadas e aquela esperança brasileira que, mesmo maltratada, insiste em comparecer. Diante da urna, porém, precisa fazer algo que a campanha nem sempre estimula: pensar para além da torcida.
O voto, parte integrante da democracia, está nas mãos do eleitor. Mas essa responsabilidade não pode virar uma desculpa confortável para partidos que oferecem candidaturas ruins, dirigentes que negociam princípios e autoridades que confundem o cargo com uma propriedade particular. O cidadão escolhe entre alternativas que alguém organizou. Exigir critério do eleitor também significa exigir qualidade de quem pede seu voto.
Há uma diferença decisiva entre escolher um representante e procurar um salvador. O representante deve explicar o que pretende fazer, admitir limites e prestar contas. O salvador pede confiança absoluta, identifica inimigos e promete resolver tudo com a força da própria personalidade. O primeiro aceita fiscalização. O segundo costuma considerá-la uma ofensa.
É justamente aí que a democracia começa a correr perigo. Quando a lealdade ao candidato fica maior do que o compromisso com as regras. Se o abuso do adversário provoca indignação, mas o abuso do aliado merece uma explicação carinhosa, o problema já ultrapassou a preferência partidária. A régua entortou. E uma régua torta sempre favorece alguém que aprendeu a usá-la.
O eleitor tem todo o direito de ser de direita, de esquerda, liberal ou conservador. Deve ter, também, a liberdade de cobrar os seus. Quem critica um político em quem votou não está cometendo uma traição. Está exercendo a cidadania. A submissão é que oferece ao eleito uma tranquilidade incompatível com a responsabilidade pública.
Isso vale, sobretudo, para as escolhas do Legislativo. A disputa presidencial ocupa as conversas, mas deputados e senadores não são figurantes. Participam da elaboração das leis, da votação do orçamento e da fiscalização do Executivo. O Senado também aprova indicações para o Supremo Tribunal Federal. Quem reclama das decisões tomadas em Brasília precisa olhar com atenção para os nomes que ajuda a colocar lá.
Escolher parlamentar apenas porque ele acompanha o candidato preferido à Presidência é dispensar uma entrevista de emprego para uma função de enorme responsabilidade. Convém investigar a trajetória, atuação, propostas e compromissos. Um vídeo com boa edição pode demonstrar talento para comunicação. Não comprova competência para legislar nem disposição para fiscalizar o próprio grupo.
Em Minas Gerais, o mesmo cuidado deve orientar a escolha para o governo e para a Assembleia. Uma proposta séria precisa explicar prioridades, custos e condições de execução. Como melhorar o atendimento de saúde? Como enfrentar os problemas das estradas? Que resultado se pretende alcançar na educação? De onde virão os recursos? A promessa que foge dessas perguntas ainda está devendo a parte principal.
Também não basta anunciar compromisso com a democracia. É preciso demonstrá-lo na disposição para responder perguntas, conviver com a imprensa, respeitar a oposição e aceitar limites ao exercício do poder. As autoridades merecem respeito institucional; seus atos merecem exame público. Nenhum cargo vem acompanhado de um certificado de infalibilidade.
Seria injusto, entretanto, transformar o cidadão no único responsável por todas as falhas do sistema. Há desigualdade de informação, propaganda enganosa e dificuldades reais para acompanhar a política. Por isso, partidos, imprensa e instituições têm obrigações próprias. Precisam facilitar a escolha informada, oferecer transparência e responder pelo que fazem. Culpar o eleitor por tudo é uma forma bastante conveniente de não prestar contas de nada.
Ainda assim, o voto é uma oportunidade concreta de exigir mais. Antes de confirmar, vale perguntar se aquele nome merece poder, se aceita fiscalização e se apresentou alguma coisa além de um inimigo para combater.
Depois da eleição, a tarefa continua. O eleito terá de governar ou legislar para uma sociedade plural, inclusive para quem não votou nele. E o cidadão precisará acompanhar, cobrar e rever seus julgamentos.
A democracia exige essa maturidade: escolher com liberdade e fiscalizar sem pedir licença. O mandato pertence ao representante por um período. O direito de cobrar permanece com o eleitor.