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A guinada à direita que saiu das urnas

Por Paulo Leite • Rede 98
05/10/2026 08:27 Atualizado há 1 hora
Urna
Primeiro turno das eleições (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Como já se previa as urnas brasileiras deram neste domingo uma guinada bastante forte à direita.

Não significa que a esquerda tenha desaparecido do mapa, muito menos que o Brasil tenha se tornado ideologicamente homogêneo da noite para o dia. O PT preservou posições importantes, reelegeu governadores no Nordeste, manteve presença relevante na Câmara e Luiz Inácio Lula da Silva está no segundo turno da eleição presidencial.

Mas a fotografia geral produzida pelo voto de 4 de outubro é difícil de contornar: o campo conservador cresceu, o PL saiu muito maior das urnas e o bolsonarismo demonstrou que sobrevive politicamente a Jair Bolsonaro.

Talvez esta seja a primeira grande conclusão da eleição.

Durante boa parte da campanha, Flávio Bolsonaro foi tratado como uma espécie de azarão. Havia dúvidas sobre sua capacidade de herdar o eleitorado do pai e, principalmente, sobre conseguir transformar o sobrenome Bolsonaro em uma candidatura presidencial competitiva diante de um presidente da República tentando a reeleição.

A urna respondeu.

Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, aproximadamente 56,1 milhões de votos. Lula ficou com 45,16%, cerca de 53,9 milhões. Uma diferença próxima de 2,2 milhões de votos.

É uma mudança importante em relação a 2022.

Naquele primeiro turno, Lula terminou mais de seis milhões de votos à frente de Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, um Bolsonaro começa o segundo turno na frente de Lula.

Isso não decide a eleição de 25 de outubro. Segundo turno é outra eleição, com novos apoios, nova campanha e cerca de nove milhões de votos dados aos demais candidatos novamente em disputa. Mas estabelece uma realidade política incontornável. Lula terá pela frente uma das mais difíceis campanhas de segundo turno de sua trajetória eleitoral.

E existe outro detalhe importante.

As pesquisas da reta final mostravam uma disputa apertada. No segundo turno, algumas chegaram a registrar pequenas vantagens numéricas de Flávio; outras davam Lula na frente e várias apontavam empate técnico. No primeiro turno, porém, a maior parte dos levantamentos ainda colocava Lula numericamente à frente. A urna inverteu a ordem.

Bolsonaro deixou de ser apenas Jair

O segundo resultado da eleição talvez seja ainda mais importante para compreender os próximos anos.

O bolsonarismo mostrou capacidade de reprodução.

E, nesse caso, reprodução não é apenas uma metáfora política.

Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal, com votação recorde no DF. Carlos Bolsonaro foi eleito senador por Santa Catarina. Jair Renan Bolsonaro conquistou uma cadeira de deputado federal também por Santa Catarina. Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foi eleito deputado federal por São Paulo.

Enquanto isso, Flávio disputa a Presidência da República.

Portanto, independentemente do resultado do segundo turno, a família Bolsonaro começa 2027 ocupando espaços relevantes do Congresso Nacional.

Durante anos discutiu-se se existiria bolsonarismo sem Bolsonaro. A eleição de ontem sugere uma resposta mais complexa: o sobrenome virou uma marca política capaz de eleger diferentes integrantes da família e, mais importante, de transferir força para candidatos que nem sequer pertencem a ela.

Isso aparece nos governos estaduais.

O PL tornou-se o partido com maior número de governadores eleitos no primeiro turno, com vitórias em estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia e Roraima, além da situação ainda dependente de definição jurídica no Rio de Janeiro.

O Rio depende de uma decisão jurídica. Com os 274 mil votos de Garotinho considerados válidos, Ruas fica com 49,27% e há segundo turno contra Paes.  Se o TSE confirmar definitivamente o indeferimento da candidatura do ex-governador, e esses votos forem anulados, o universo de votos válidos diminui e Ruas ultrapassa os 50%, sendo declarado governador eleito no primeiro turno 

O PT preservou três governos já no primeiro turno, todos no Nordeste: Bahia, Ceará e Piauí.

A esquerda continua viva, mas saiu territorialmente mais concentrada.

O Senado talvez seja a maior história da eleição

Enquanto quase todos olhavam para Lula e Flávio, uma transformação talvez ainda mais duradoura acontecia algumas linhas abaixo na urna.

O PL terá 28 dos 81 senadores a partir de 2027, tornando-se disparadamente a maior bancada da Casa. O PT terá nove.

É uma mudança estrutural.

Presidente fica quatro anos no cargo. Senador fica oito.

E existe um assunto que transformou a eleição para o Senado em peça central desta campanha: o Supremo Tribunal Federal.

Levantamento publicado após a eleição aponta que ao menos 49 integrantes da nova composição do Senado apoiam a possibilidade de impeachment de ministros do STF. Isso não significa que existam 49 votos previamente contratados para afastar Alexandre de Moraes ou qualquer outro ministro. Cada eventual processo dependeria de fatos, acusações, admissibilidade e circunstâncias políticas próprias.

Mas significa algo institucionalmente muito relevante: existe no Senado eleito uma massa crítica muito maior favorável a discutir limites, responsabilização e eventualmente impeachment de integrantes da Suprema Corte.

Esse talvez seja o recado mais incômodo das urnas para o próprio Supremo.

É perfeitamente legítimo discutir se parte das críticas feitas ao STF é exagerada, oportunista ou eleitoral. Também é legítimo lembrar que independência judicial é fundamento de uma democracia.

Mas seria um erro igualmente grave imaginar que dezenas de milhões de brasileiros acordaram ontem combinando uma vingança contra onze ministros.

Quando uma insatisfação institucional aparece espalhada por estados diferentes e ajuda a eleger dezenas de senadores, deixou de ser apenas barulho de rede social.

Virou fenômeno eleitoral.

O Senado que tomará posse em fevereiro de 2027 será muito menos confortável para o Supremo do que o atual.

A esquerda resistiu, mas perdeu terreno estratégico

É preciso evitar a simplificação de dizer que a esquerda foi varrida do mapa. Não foi.

O PT continua com uma bancada importante na Câmara. Lula recebeu quase 54 milhões de votos. O partido conservou governos relevantes e ainda disputará outros no segundo turno.

Mas o problema político está na direção do movimento.

O PL elegeu 121 deputados federais, tornando-se a maior bancada da Câmara. O PT ficou com 70.

No Senado, a diferença ficou ainda mais acentuada.

Nos governos estaduais, o PT manteve força principalmente no Nordeste, enquanto PL, Republicanos e outras legendas de centro-direita avançaram em boa parte do restante do país.

Portanto, a esquerda não desapareceu.

Mas ficou menor no Senado, justamente onde o poder tem duração mais longa e capacidade institucional enorme.

E isso poderá produzir consequências durante todo o próximo mandato presidencial, seja quem for o vencedor.

Minas é quase um laboratório dessa mudança

Em Minas Gerais, a transformação ficou ainda mais evidente.

Cleitinho Azevedo foi eleito governador no primeiro turno com 55,40% dos votos válidos e 6,32 milhões de votos. Patrus Ananias ficou muito atrás.

A vitória de Cleitinho encerra oito anos de governos ligados ao Novo e ao grupo político de Romeu Zema.

Mas existe uma ironia interessante.

Cleitinho ganhou o governo pelo Republicanos. Quem ganhou o Legislativo mineiro foi o PL.

O partido elegeu 21 dos 77 deputados estaduais e tornou-se a maior bancada da Assembleia Legislativa. O Republicanos do governador eleito terá apenas quatro deputados estaduais.

A composição da nova Assembleia mostra com clareza o tamanho desse desafio. 

Das 77 cadeiras, o PL terá 21 deputados, tornando-se isoladamente a maior força partidária; o PT elegeu 15, o PSD, nove, enquanto o Republicanos de Cleitinho terá apenas quatro parlamentares. A nova legislatura terá ainda 24 deputados que não integram a atual Assembleia, uma renovação de 31,2%, enquanto 53 parlamentares conseguiram a reeleição. 

Houve uma mudança importante na correlação partidária de forças, mas não uma derrubada generalizada de quem já ocupava o plenário, quase oito em cada dez deputados que tentaram a reeleição conseguiram permanecer. 

Há também uma transformação histórica na representação feminina: 20 mulheres foram eleitas, formando a maior bancada feminina da história da Assembleia mineira. 

O dado politicamente mais relevante para o futuro governo, porém, permanece sendo a enorme distância entre a força eleitoral de Cleitinho e a força parlamentar de seu partido. 

Ele recebeu 55,4% dos votos para governador, enquanto o Republicanos ocupará pouco mais de 5% das cadeiras da Assembleia. Cleitinho conquistou, portanto, uma vitória eleitoral essencialmente pessoal, mas começará o governo obrigado a construir uma maioria que as urnas não lhe entregaram pronta.

A campanha podia ser pessoal. O governo não poderá ser.

Orçamento, dívida pública, reformas, projetos estruturantes e reorganização administrativa precisarão passar por uma Assembleia na qual o PL terá cinco vezes mais deputados que o partido do governador.

A mesma onda chegou a Brasília

O PL conquistou 21 das 53 cadeiras mineiras na Câmara dos Deputados, enquanto a federação PT-PV-PCdoB ficou com 13.

Nikolas Ferreira transformou-se no símbolo dessa avalanche. Foi reeleito com 3.119.314 votos, a maior votação já obtida por um candidato a deputado federal no Brasil. Não foi apenas uma votação pessoal gigantesca, foi uma votação capaz de ajudar a formar bancada.

E a bancada vota PEC, orçamento, comissão, presidência da Câmara e sustentação de governo.

Minas também mudou de cor na disputa presidencial

Há outro número impressionante.

Flávio Bolsonaro venceu Lula em Minas por 48,24% a 43,33%.

Mais significativo ainda: 178 municípios mineiros que haviam dado maioria a Lula no primeiro turno de 2022 passaram para Flávio Bolsonaro em 2026. Foi o maior número de viradas desse tipo registrado entre os estados.

Esse dado merece atenção especial durante o segundo turno.

Minas continua sendo uma espécie de miniatura eleitoral brasileira. Tem metrópole, interior agrícola, regiões industriais, bolsões de pobreza, cidades médias e diferenças regionais enormes.

Se Lula quiser recuperar terreno nacionalmente, provavelmente precisará entender primeiro o que aconteceu nesses municípios mineiros.

E Flávio precisará descobrir se essa mudança foi circunstancial ou se consegue consolidá-la.

O velho mapa político mineiro também desmoronou

A eleição mineira produziu ainda funerais políticos simbólicos.

Alexandre Kalil, que recebeu 3,8 milhões de votos para governador em 2022, terminou agora com pouco mais de 403 mil, queda próxima de 90%.

Romeu Zema viveu situação igualmente impressionante.

Depois de receber mais de seis milhões de votos para se reeleger governador em 2022, terminou sua candidatura presidencial com apenas 326 mil votos em todo o Brasil e menos de cem mil no próprio estado que governou durante oito anos.

Mateus Simões, sucessor de Zema no governo e candidato à reeleição, terminou com apenas 4,63%.

E Aécio Neves, depois de quarenta anos consecutivos ocupando cargos eletivos, ficará sem mandato em 2027.

É difícil encontrar eleição recente em Minas que tenha produzido tamanha substituição de personagens.

E o Senado mineiro também virou

Domingos Sávio, do PL, e Marília Campos, do PT, foram eleitos.

Mas há uma consequência adicional da vitória de Cleitinho.

Ao deixar o Senado para assumir o governo, sua cadeira deverá ser ocupada pelo primeiro suplente, Alex Diniz, hoje filiado ao PL. Com isso, Minas entra em 2027 representada no Senado por dois integrantes do PL e uma do PT.

Até a vitória do Republicanos para governador, portanto, termina aumentando o tamanho do PL no Senado.

A política brasileira tem dessas ironias que nenhum roteirista ousaria escrever porque o produtor reclamaria de excesso de criatividade.

A eleição que termina e a que começa

O resultado de domingo não encerrou a eleição presidencial.

Abriu outra.

Lula chega ao segundo turno numa situação muito diferente daquela de quatro anos atrás. Em 2022, entrou na rodada final depois de vencer Jair Bolsonaro no primeiro turno. Agora entra atrás de Flávio Bolsonaro, e com uma possibilidade muito pequena de captura de votos no segundo turno.

Flávio, por sua vez, precisa provar que os 56 milhões de votos representam um teto ou um ponto de partida, e garantir uma migração natural de votos dos candidatos não eleitos.

Existem cerca de nove milhões de votos dos demais candidatos disponíveis para disputa. Existem abstenções a tentar recuperar. Existem eleitores que mudarão de posição. E três semanas numa campanha presidencial brasileira costumam ter a tranquilidade de um liquidificador sem tampa.

Mas a eleição de ontem já produziu uma conclusão que independe do resultado de 25 de outubro.

O bolsonarismo deixou de ser apenas a história eleitoral de Jair Bolsonaro.

Flávio liderou o primeiro turno presidencial. Michelle e Carlos foram eleitos senadores. Jair Renan e Renato Bolsonaro chegaram à Câmara. O PL formou a maior bancada da Câmara e do Senado e ampliou seu espaço nos governos estaduais. Em Minas, tornou-se dominante tanto na bancada estadual quanto na federal.

Ao mesmo tempo, Lula continua carregando sozinho uma força eleitoral extraordinária para a esquerda brasileira: quase 54 milhões de votos aos 80 anos, depois de quatro mandatos presidenciais disputados e décadas ocupando o centro da política nacional.

Talvez seja justamente aí que esteja a diferença revelada pelas urnas.

A esquerda ainda depende enormemente de Lula. A direita demonstrou que já consegue multiplicar seus personagens.

E eleições não servem apenas para escolher quem governa.

Às vezes servem para avisar que o mapa político mudou.

O Brasil acordou nesta segunda-feira com esse mapa redesenhado, mais conservador no Senado, mais forte à direita nos governos estaduais, profundamente polarizado na Presidência e com um Supremo que inevitavelmente terá de observar com atenção a mensagem enviada pelas urnas.

O segundo turno decidirá quem ocupará o Palácio do Planalto.

Mas o primeiro já decidiu uma coisa: o Brasil político de 2027 não será o mesmo de 2023.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.