Minas saiu das urnas mais à direita, mas a direita mineira saiu longe da paz.
Enquanto Flávio Bolsonaro comemora a vantagem presidencial no Estado, Flávio Roscoe expõe as feridas deixadas pela eleição para governador. Os dois movimentos ajudam a entender o segundo turno.
Existe uma corrente eleitoral favorável ao PL, mas transformar votos em mobilização exige mais do que reunir aliados para uma fotografia.
O tamanho da mudança aparece na comparação entre os primeiros turnos. Em 2022, Lula recebeu 5.802.571 votos em Minas, contra 5.239.264 de Jair Bolsonaro.
Começou a etapa decisiva com 563.307 votos de vantagem. Agora, Flávio obteve 5.777.548 votos, e Lula, 5.188.936. A vantagem mudou de lado: 588.612 votos para o candidato do PL.
A margem, portanto, se deslocou 1.151.919 votos em direção à direita. Flávio superou a votação do pai em 538.284 votos; Lula perdeu 613.635. Houve crescimento de um lado e retração do outro.
Para o PT, esse diagnóstico importa mais do que uma nova palavra de ordem. Lula terá de descobrir onde perdeu capacidade de convencer, onde deixou de mobilizar e onde seus antigos eleitores encontraram outra opção.
A diferença a superar nasce da nova votação de 25 de outubro. O milhão e tanto da comparação histórica dimensiona o desgaste político, não constitui uma dívida adicional de votos.
A abstenção
Há outro personagem nessa história: o eleitor ausente. Segundo o TRE-MG, a abstenção chegou a 22,82%, ante 22,29% em 2022.
Quem faltou ao primeiro turno pode votar no segundo, desde que esteja com o título regular. O sofá, portanto, continua na disputa.
Esse contingente não pertence a candidato algum. Seria cômodo para o PT imaginar que todos os ausentes são lulistas desmobilizados; seria igualmente precipitado para o PL tratá-los como conservadores à espera de convocação.
As campanhas terão de entender as razões da ausência. A alta de 0,53 ponto percentual na abstenção, isoladamente, não explica a perda de mais de 600 mil votos de Lula.
A reorganização da direita
Flávio também tem trabalho pela frente. Em entrevista divulgada por O TEMPO, Roscoe afirmou que integrantes do próprio PL pressionaram pela retirada de sua candidatura e pediram votos para Cleitinho. Classificou a candidatura adversária como expressão de uma “pseudo direita” e disse que sua campanha não recebeu recursos do partido, sendo financiada por doações e aportes próprios.
Roscoe manteve o apoio a Flávio Bolsonaro, elogiou a fidelidade de Nikolas Ferreira e Bruno Engler e disse que permanece no PL. Sua participação presidencial, porém, foi apresentada como a de um cidadão, com eventual trabalho voluntário. É apoio, mas não uma promessa de conduzir a mobilização estadual.
A fala de Roscoe sugere que concordar sobre o presidente não significa disposição para trabalhar lado a lado. Ressentimentos podem reduzir entusiasmo, cooperação e presença nas ruas.
A saída está na percepção de que a unidade conservadora ainda precisa ser construída na prática.
A transição de governo
Quem esteve ontem ao lado do governador Mateus Simões percebeu uma inclinação à recusa da proposta de integrar o governo Cleitinho.
Enquanto isso, a transição estadual começa nesta terça-feira, com transmissão das reuniões do secretariado pela internet e pela Rede Minas. Os encontros com as equipes de transição também deverão ser exibidos. A iniciativa merece reconhecimento, desde que transparência signifique acesso a informações, e não apenas câmeras ligadas.
Dívida, saúde, educação e infraestrutura serão testes do encontro entre as promessas de Cleitinho e a realidade administrativa. Governar cobra respostas que um vídeo indignado não entrega.
O segundo turno
Minas mudou a direção da correnteza para a direita, mas o segundo turno permanece aberto.
Há um caminho muito promissor para Flavio repetir e até ampliar o resultado do primeiro turno.
Lula precisa compreender o recuo; Flávio precisa organizar o avanço. E ambos precisam conversar com quem ficou em casa.
Afinal, a urna conta votos. Não conta fotografias de palanque, e nem declarações de amizade.