Uma eleição também pode revelar força política fora do palanque vencedor. Flávio Roscoe terminou a disputa pelo governo de Minas Gerais em terceiro lugar, com 795.193 votos, equivalentes a 6,97% dos votos válidos. Ficou à frente de Mateus Simões, atual governador, que recebeu 530.292 votos, e de Alexandre Kalil, ex-prefeito de Belo Horizonte, com 403.466. Para um nome que chegou à disputa com menor exposição eleitoral que esses adversários, o resultado merece atenção.
Roscoe não conquistou o governo, mas construiu uma votação que lhe dá condições de continuar na política. Superar nomes com experiência no Executivo significa ultrapassar uma barreira importante: transformar reconhecimento em determinados setores da sociedade em apoio nas urnas. Ainda é cedo para falar em liderança consolidada. Já é possível, porém, dizer que sua candidatura deixou uma base sobre a qual trabalhar.
O desempenho ganha relevância diante das divisões no próprio PL. Na reta final, houve relatos de dirigentes e candidatos da legenda pedindo votos para Cleitinho, adversário do candidato oficial. A leitura de abandono político encontra respaldo nessa dispersão de apoios, embora não deva ser confundida com uma retirada formal da candidatura. O problema foi a distância entre ter o número do partido e contar com uma legenda efetivamente mobilizada.
Esse comportamento deixa uma pergunta para o PL. Qual teria sido o alcance de Roscoe com maior coesão interna? Não existe resposta segura. Votos não podem ser calculados como se cada dirigente controlasse uma parcela do eleitorado. Ainda assim, o partido terá de avaliar o custo de lançar uma candidatura e permitir que parte de seus quadros trabalhe por outra.
Roscoe sai com um patrimônio eleitoral. Preservá-lo exigirá presença nos municípios, diálogo com os eleitores e posições sobre os problemas de Minas. O terceiro lugar abre uma porta, o tamanho político de sua votação dependerá, daqui em diante, do uso que fizer dela.
Os caminhos do pós eleição
Enquanto Roscoe avalia esse caminho, Cleitinho começa a exercer a influência de governador eleito. Na entrevista à CNN publicada em 5 de outubro, colocou-se à disposição para conversar sobre apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno e, ao mesmo tempo, reafirmou a defesa do fim da escala 6×1. Também cobrou que o presidenciável ouça quem conhece Minas. A combinação revela uma aproximação política acompanhada de divergência sobre uma pauta de grande impacto popular.
Há uma diferença entre manifestar preferência por um candidato e concordar com toda a sua agenda. Cleitinho tem espaço para defender uma posição própria. Seu desafio será demonstrar como essa posição se traduz em atuação política, especialmente quando a cobrança envolve aliados.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, já apresentou uma alternativa ao fim da escala 6×1 baseada na remuneração por hora e na possibilidade de o trabalhador escolher sua carga de trabalho. Ao defender esse modelo, afirmou que faria melhor pelos trabalhadores e que os direitos seriam garantidos.
Na agenda social, Flávio Bolsonaro defende ampliar o período de manutenção do Bolsa Família para quem consegue emprego formal. A proposta se soma ao debate sobre jornada de trabalho e evidencia a importância dessas pautas na disputa presidencial.
Em Minas, porém, o resultado das urnas também merece ser observado pelo espaço político que abriu para Flávio Roscoe.
Sua terceira colocação oferece um ponto de partida relevante. Com seu desempenho nas urnas Roscoe demonstrou capacidade de conquistar apoio para além do ambiente empresarial. Mesmo com as divisões dentro do PL, alcançou uma votação que lhe permite participar das próximas articulações estaduais com respaldo eleitoral próprio.
Esse resultado, somado à experiência de representação da indústria mineira, amplia sua influência em Minas e no debate nacional. Roscoe tem condições de contribuir para a discussão de desenvolvimento, infraestrutura, geração de empregos e competitividade, aproximando demandas do setor produtivo das decisões políticas. Nesse caminho precisará manter contato com os municípios e transformar os apoios da campanha em uma atuação contínua.