E Lula conseguiu. Fez uma virada histórica nesta eleição, com a maior votação já registrada no país. Venceu Flávio Bolsonaro com a retomada das ruas pela esquerda e com a virada de chave na campanha petista, que entendeu que precisava falar mais diretamente com o eleitor. Mas Lula venceu também apoiado no anti-bolsonarismo e em um pacote de bondades que vai trazer um custo fiscal ao país.
E a vitória não pode trazer tranquilidade ao petismo, nem mesmo à esquerda. Lula apostou no medo do fim da democracia, da perda de direitos. No fim da independência e da força internacional. Do medo da hegemonia de uma única família, de suas supostas ligações com a milícia. E deu certo. Até porque contou com um exército disposto e muito empenhado em espalhar a mensagem que precisava ser transmitida com urgência. É isso que precisa ficar claro para o PT conseguir construir um futuro. Lula não foi eleito porque o povo brasileiro acredita ou confia nele. Foi eleito, em grande parte, porque não queria mais um ciclo de Bolsonaros.
E agora Lula precisa construir governabilidade. Precisa voltar a fazer política, a conversar com lideranças. E precisa voltar a se conectar com o povo. Entender que os números da economia de nada valem se o carrinho do supermercado não estiver cheio. Que as classes D e E precisam das políticas sociais, mas que é preciso governar também para os mais favorecidos. Que as classes B e C também querem ser vistas, contempladas.
Que, nessa eleição, deu certo, mas foi por um triz. Que é preciso discutir o pós-Lula. Não dá mais para adiar. É preciso aceitar que a esquerda precisa se reorganizar, se aproximar do eleitor, criar conexão, senso de pertencimento e acolhimento. É isso que, no fundo, o eleitor quer. É sobre isso que é uma eleição.