A nova pesquisa Quaest para o Governo de Minas traz uma fotografia aparentemente confortável para Cleitinho Azevedo. Mas, quando se olha além do primeiro número da tabela, aparece uma campanha que pode ser muito mais dura para o senador do Republicanos do que os atuais 29% sugerem.
Cleitinho lidera com 29% das intenções de voto. Patrus Ananias tem 11%, Alexandre Kalil, 10%, Mateus Simões, 7%, Gabriel Azevedo, 5%, e Flávio Roscoe, 3%. O líder tem, portanto, 18 pontos de vantagem sobre o segundo colocado. E vence também todas as simulações de segundo turno em que aparece: 51% a 26% contra Patrus, 48% a 27% diante de Kalil e 49% a 17% contra Mateus Simões.
É liderança. É favoritismo. Mas ainda não é eleição resolvida.
Há pelo menos três sinais importantes escondidos debaixo dessa confortável dianteira.
Atenção para os dados da pesquisa espontânea
Quando a Quaest não apresenta os nomes dos candidatos, Cleitinho cai para 11%. Patrus aparece com 3%, Kalil com 2%, Gabriel e Mateus Simões têm 1% cada. E impressionantes 80% dos mineiros ainda não sabem espontaneamente em quem votar para governador.
Isso muda bastante a leitura política da pesquisa.
Uma coisa é reconhecer o nome de Cleitinho numa lista e escolhê-lo. Outra é ter sua candidatura suficientemente consolidada para mencioná-lo sem qualquer estímulo.
O senador está muito à frente dos adversários, mas a eleição ainda ocupa pouco espaço na cabeça do eleitor.
E esse imenso território de eleitores ainda sem candidato espontâneo é exatamente onde começa agora a grande batalha.
O alerta do eleitorado feminino
Cleitinho chega a expressivos 36% entre os homens, mas registra 23% entre as mulheres. É uma diferença de 13 pontos percentuais.
Entre as eleitoras, há ainda 25% de indecisas, contra 13% entre os homens. Existe entre as mulheres um espaço eleitoral enorme que ainda será disputado durante setembro.
Isso não significa que Cleitinho esteja mal entre as mulheres. Aos 23%, ele continua muito à frente dos concorrentes. Significa outra coisa, ele é consideravelmente mais forte entre os homens e tem um desafio feminino evidente diante de si.
E uma campanha eleitoral existe exatamente para procurar fragilidades como essa.
A propaganda política no rádio e na TV
A partir de sexta-feira, dia 28 de agosto, começa o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Pela primeira vez nesta campanha, candidatos terão exposição diária organizada, inserções espalhadas pela programação e espaço para construir suas próprias imagens, mas também para desmontar a imagem do adversário.
E Cleitinho será o adversário a ser desmontado.
Segundo informações que apurei nos bastidores das campanhas mineiras, PT, PDT e PSD preparam estratégias com forte foco no líder da pesquisa.
É quase inevitável.
Patrus precisa tirar votos de Cleitinho. Kalil precisa tirar votos de Cleitinho. Mateus Simões precisa tirar votos de Cleitinho.
E Flávio Roscoe tem uma razão adicional para entrar nessa guerra.
O candidato do PL aparece hoje com apenas 3%. Mas sua candidatura tem uma missão política muito específica: convencer o eleitor conservador e bolsonarista de Minas de que, se Flávio Bolsonaro é o candidato presidencial deste campo, o candidato natural ao Governo de Minas deveria ser também o candidato oficialmente apresentado pelo PL.
E aí mora talvez o confronto mais interessante da campanha mineira.
Porque Cleitinho ocupou durante muito tempo um espaço político muito próximo do bolsonarismo sem ser o candidato do PL.
O Datafolha divulgado poucos dias antes da Quaest mostrou a dimensão desse problema para Roscoe: 56% dos eleitores identificados com o bolsonarismo declararam voto em Cleitinho. Roscoe, portanto, não precisa apenas conquistar novos eleitores. Precisa recuperar para o candidato oficial do PL uma parcela do eleitorado de direita que hoje está estacionada justamente na candidatura de Cleitinho.
Essa disputa pode produzir um fenômeno curioso.
Cleitinho pode receber fogo simultaneamente da esquerda, do centro e da direita.
O PT tentará confrontá-lo politicamente.
Kalil poderá explorar suas contradições e sua experiência administrativa.
Mateus Simões terá o desafio de comparar discurso com gestão.
E Roscoe terá de perguntar ao eleitor bolsonarista por que votar num candidato do Republicanos quando existe um candidato do próprio PL na disputa.
É uma espécie de cerco eleitoral.
Só que há um problema para os que querem sitiar Cleitinho. O homem que está dentro do castelo começa a batalha muito melhor posicionado do que todos eles.
Além disso, Cleitinho possui uma vantagem que nenhuma propaganda compra rapidamente. É conhecido.
Mesmo depois de todas as trapalhadas que cercaram a definição de sua candidatura, das idas e vindas e da confusão interna do Republicanos, ele permaneceu na liderança.
Um leve desgaste
Na Quaest de julho, Cleitinho aparecia com 35%. Agora está com 29%. Uma queda de seis pontos percentuais entre os dois levantamentos. No mesmo intervalo, Patrus foi de 10% para 11%, Kalil passou de 12% para 10%, Mateus Simões de 6% para 7%, Gabriel de 4% para 5% e Roscoe de 2% para 3%.
É cedo demais para transformar essa variação numa tendência consolidada. Mas é impossível ignorá-la.
Especialmente porque a campanha massiva ainda nem começou.
As duas notícias para Cleitinho
A primeira é excelente: ele continua sendo, com folga, o favorito ao Governo de Minas.
A segunda exige atenção: a partir de agora, haverá uma eleição inteira organizada para tentar diminuir essa vantagem.
E é aí que veremos se os 29% representam um piso ou o começo de um teto.
O número mais impressionante da pesquisa talvez nem seja o de Cleitinho. São aqueles 80% de indecisos na espontânea.
Eles mostram que Minas já tem um líder.
Mas ainda está longe de ter escolhido definitivamente seu governador.
A eleição começa de verdade quando o favorito deixa de correr sozinho e passa a correr com todos os outros tentando puxá-lo pela camisa.