O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE) com 249.077 votos afirmou, nesta quarta-feira (7/10), que há um consenso dentro da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a necessidade de mudar a atuação nas redes sociais para o segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL). Após participar de uma reunião com parlamentares eleitos em Brasília, o historiador e influenciador disse que uma discussão específica sobre a estratégia digital será feita com nomes como André Janones (Rede), Guilherme Boulos (PSOL) e Ana Elisa (PT), além dele próprio.
“Acho que há um consenso na campanha do presidente Lula que a comunicação digital precisa melhorar bastante, precisa ser muito mais efetiva para a gente conseguir impactar, particularmente, trazer a juventude e as mulheres e reverter a queda de votos que o presidente teve em algumas regiões do Brasil, como no caso do Sudeste brasileiro”, afirmou.
Jones foi eleito deputado federal por Pernambuco no domingo (4/10), com 249.077 votos, a segunda maior votação para o cargo no estado. No Recife, recebeu mais de 81 mil votos e ficou em primeiro lugar. O historiador, que reúne mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, colocou-se à disposição para viajar pelo país e participar da campanha de Lula no segundo turno.
Campanha prepara estratégia específica para as redes
Durante a manhã desta quarta, parlamentares e senadores eleitos participaram de uma reunião para discutir os rumos gerais da campanha. Segundo Jones, uma das estratégias será aumentar os ataques políticos a Flávio e associar o candidato do PL a medidas que, na avaliação da campanha de Lula, prejudicariam os trabalhadores.
“Hoje, agora de manhã, a gente teve uma reunião geral com todos os parlamentares eleitos, os senadores, e a gente fez uma conversa muito mais geral sobre as estratégias da campanha no segundo turno”, disse.
A comunicação digital também entrou na discussão, mas deverá receber uma reunião própria.
“A ideia é que agora à tarde a gente tenha um espaço específico para falar com a coordenação da campanha sobre redes sociais com algumas figuras, como o Guilherme Boulos, o André Janones, a Alice e eu, para pensar específico a estratégia digital”, afirmou.
A reunião ocorre em meio às primeiras mudanças perceptíveis nas redes de Lula. Nesta quarta-feira, o presidente publicou vídeos curtos, gravados em formato de selfie e com linguagem mais direta. A estratégia contrasta com conteúdos mais institucionais utilizados anteriormente.
Ações serão descentralizadas
Jones afirmou que a estratégia digital não ficará concentrada em uma única iniciativa. Questionado sobre o grupo criado por André Janones, o deputado eleito disse que diferentes mobilizações estão sendo organizadas pelo país.
“O grupo que o André Janones criou é uma das estratégias de comunicação digital. A gente tem várias e várias. Há um conjunto de mobilizações sendo articuladas tanto a nível dos estados quanto a nível nacional, a nível federal”, afirmou.
Segundo Jones, essas ações serão descentralizadas, mas terão ligação com a coordenação nacional da campanha.
Em Pernambuco, por exemplo, grupos ligados à campanha e a outras candidaturas trabalham em uma estratégia específica para cidades onde Lula tem potencial para aumentar a votação e a abstenção foi considerada elevada no primeiro turno.
Abstenção entra no radar
A campanha também pretende trabalhar para levar às urnas eleitores que não votaram no primeiro turno. Jones afirmou que uma das ações será explicar que, com menos cargos em disputa, o processo de votação no segundo turno será mais rápido.
Segundo o deputado eleito, a estratégia não será igual em todo o país.
“Nos estados em que a abstenção foi muito alta e o Flávio Bolsonaro tem um potencial de votos muito maior, a preocupação com a abstenção é deles, não nossa”, disse.
Jones explicou que a mobilização será segmentada conforme o cenário de cada estado e região.
‘Foco central’ não está nos eleitores de Renan Santos
Questionado sobre movimentos para conquistar os votos recebidos por Renan Santos no primeiro turno, Jones afirmou que esse eleitorado será disputado, mas não estará no centro da estratégia.
O deputado citou os 2,2 milhões de votos recebidos por Renan e comparou o número com os cerca de 33 milhões de eleitores que, conforme os dados apresentados por ele, não compareceram às urnas ou votaram em branco ou nulo.
“Tem um contingente muito maior de eleitores a serem disputados com pessoas que não foram votar ou que votaram branco e nulo do que eleitores do Renan Santos”, afirmou.
Para Jones, a tendência é de que uma parcela maior dos votos de Renan migre para Flávio, em razão do posicionamento político do Missão. Ele também lembrou que Renan tem defendido voto nulo.
“Alguns votos vêm para o presidente Lula, só que eu acho que o foco central é dialogar com os 33 milhões de brasileiros que não foram votar, anularam ou votaram em branco”, disse.
‘Lula precisa falar muito mais de futuro’
Jones também fez uma avaliação sobre o conteúdo da campanha petista. Para ele, o primeiro turno ficou excessivamente concentrado no legado dos governos de Lula, enquanto o segundo precisa apresentar propostas para os próximos anos.
“Eu acho que a campanha do presidente Lula precisa falar muito mais de futuro”, afirmou.
O deputado eleito defendeu que temas econômicos e relacionados diretamente ao cotidiano ganhem protagonismo. Entre as propostas citadas estão tarifa zero no transporte público, expansão da malha metroferroviária, fim da escala 6×1, combate à pejotização e à precarização das relações de trabalho, aumento da renda e reindustrialização.
“Acho que o primeiro turno foi muito focado num debate sobre o legado do presidente Lula, que é importante, evidentemente, considerando que o presidente Lula tem uma base de votação que vai de 35% a 40% da população brasileira de maneira relativamente sólida”, avaliou.
Jones também elogiou a defesa da proibição das bets e o reajuste do Bolsa Família, mas argumentou que a campanha precisa aprofundar o debate econômico.
“Há uma insatisfação muito grande com as condições de vida de maneira geral nas grandes cidades do nosso país, com o aumento do custo de vida, aumento do preço dos aluguéis, com salários baixos, com transporte, a mobilidade urbana que não funciona, com os serviços públicos que estão aquém do necessário”, disse.
Para o deputado eleito, além de apresentar propostas próprias, Lula deverá confrontar o programa econômico defendido por Flávio e seus aliados.
“Acho que colocar esse debate econômico no centro e mostrar o caráter antipopular e o caráter de ataque mesmo, de fome, de desemprego, de miséria, que está colocado no programa do Flávio Bolsonaro é fundamental”, concluiu.
Quem é Jones Manoel?
Jones Manoel (PSOL) é historiador, influenciador, autodeclarado comunista e deputado federal eleito por Pernambuco. Aos 36 anos, ele conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados no domingo (4/10), com 249.077 votos, a segunda maior votação para o cargo no estado. No Recife, foi o candidato mais votado, com mais de 81 mil votos.
Formado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Jones nasceu e cresceu na Favela da Borborema, no bairro de Boa Viagem, no Recife. Filho de uma trabalhadora que atuou no corte de cana-de-açúcar e como empregada doméstica e de um pedreiro que também era líder comunitário, começou a militância política na própria comunidade, onde participou da criação de um curso popular para ajudar jovens a ingressarem na universidade.
Antes de chegar à Câmara, Jones ganhou projeção nacional principalmente pela atuação na internet. Com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, tornou-se conhecido por vídeos sobre política, história e marxismo e pela participação em debates e podcasts. Parte da estratégia digital que ampliou seu alcance envolveu confrontos com nomes da direita, como Kim Kataguiri (Missão), Wilker Leão (Novo) e Fernando Holiday (PL).
A candidatura de Jones também foi marcada por um discurso abertamente comunista, radical e revolucionário. Durante a campanha, ele apresentou um “programa de mandato” e defendeu propostas como descriminalização do aborto, legalização regulada de substâncias, medidas de desencarceramento e fim do ensino religioso nas escolas públicas.
O deputado eleito defende a construção do que chama de uma “esquerda radical e revolucionária” e aponta uma revolução brasileira como objetivo político. A postura também esteve presente durante a campanha eleitoral, na qual não abandonou a identificação como comunista para buscar uma aproximação com setores mais conservadores.
A eleição de 2026 não foi a primeira disputa de Jones. Em 2022, ele concorreu ao Governo de Pernambuco pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e recebeu 33.931 votos, ou 0,69%. Em 2023, foi expulso da legenda e, posteriormente, aproximou-se do PSOL.
A candidatura à Câmara neste ano foi construída pelo PSOL com o compromisso de apoio à reeleição de Lula ainda no primeiro turno. Apesar dessa aliança eleitoral, Jones mantém histórico de críticas ao presidente, principalmente às políticas econômicas que classifica como “neoliberais”.
Agora, depois de eleito, Jones passou a integrar as discussões sobre a comunicação de Lula no segundo turno. A experiência nas redes sociais é justamente uma das razões pelas quais ele participa, nesta quarta-feira (7/10), das conversas em Brasília sobre a reformulação da estratégia digital da campanha.