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Flávio acende uma vela para Roscoe e outra para Cleitinho, que pode romper com Aro

Por Paulo Leite Rede 98
18/08/2026 08:31 Atualizado há 2 horas
Flavio
Evento de campanha com Flávio Bolsonaro e Flávio Roscoe (Foto: Igor Teixeira)

A política mineira de 2026 conseguiu produzir uma situação curiosa logo na largada oficial da campanha.

Flávio Bolsonaro veio a Belo Horizonte nesta segunda-feira, 17 de agosto, para deixar claro que Flávio Roscoe é o seu candidato ao Governo de Minas.

Falou de maneira explícita. O PL esperou Cleitinho Azevedo até onde foi possível, Cleitinho tomou outro caminho e agora o partido tem candidato próprio.

Até aí, tudo resolvido, só que apenas formalmente.

Porque, ao mesmo tempo em que apresentou Roscoe como seu candidato, Flávio Bolsonaro fez questão de elogiar Cleitinho, classificá-lo como uma liderança bem-intencionada e preparada e, mais do que isso, comemorou o fato de o senador do Republicanos também apoiar sua candidatura à Presidência.

A tradução política é simples: Flávio escolheu Roscoe, mas não “desescolheu” Cleitinho

E há um risco evidente nessa estratégia.

Na política, como na fé popular, acender uma vela para cada santo pode parecer prudência. O problema começa quando se espera um milagre e ninguém sabe exatamente a qual santo agradecer.

Flávio Bolsonaro está acendendo uma vela para Roscoe e outra para Cleitinho.

O eleitor que espera orientação de seu candidato presidencial pode acabar sem saber qual dos dois deve realizar o milagre eleitoral em Minas.

Isso deixa de ser apenas uma vantagem tática e passa a ser uma aposta arriscada.

Porque liderança política também é capacidade de escolha. E escolha pressupõe preferência.

Se Flávio diz que Roscoe é seu candidato, mas simultaneamente preserva Cleitinho como aliado bem-vindo, o eleitor pode concluir que votar em qualquer um dos dois serve igualmente ao projeto presidencial.

Para Flávio Bolsonaro, no primeiro momento, parece excelente.

Roscoe pede voto para Flávio. Cleitinho pede voto para Flávio.

Eles disputam entre si o Governo de Minas e o candidato presidencial recolhe apoio dos dois lados.

Só que existe um detalhe. Roscoe está disputando o governo.

E precisa justamente convencer o eleitor de direita de que existe uma sequência política coerente na urna: Flávio Bolsonaro para presidente e Flávio Roscoe para governador. 

Para Roscoe, que no último debate fixou-se em propostas e na representatividade do seu campo político e ideológico, é uma dificuldade desnecessária. Dentro do PL ele já tem a infidelidade de alguns deputados aproveitadores que fazendo uso do fundo eleitoral fazem campanha sem identificá-lo como candidato ao governo. É a velha rapinagem política de baixo nível que deveria ser extirpada das eleições.

Cleitinho, em bom oportunismo, oferece outra combinação:

Flávio Bolsonaro para presidente e Cleitinho para governador.

E o próprio Flávio, pelo menos até agora, legitimou as duas.

É aí que a estratégia começa a ficar duvidosa.

Roscoe recebeu o apoio oficial. Cleitinho recebeu a tolerância política.

Um ganhou a fotografia. O outro manteve a senha de entrada.

Isso enfraquece qualquer tentativa da campanha de Roscoe de apresentar Cleitinho como alguém que se apropria indevidamente do bolsonarismo mineiro.

Como dizer que Cleitinho não representa esse campo se o próprio candidato presidencial continua elogiando o senador e comemorando seu apoio?

Temos, portanto, um palanque duplo assimétrico.

Um candidato oficial, e um concorrente autorizado. No curto prazo Flávio Bolsonaro soma apoios, no médio prazo, pode produzir confusão.

Porque chega um momento da campanha em que o eleitor pergunta não apenas quem apoia quem, mas pergunta também: quem é o seu candidato de verdade? E se a resposta vier acompanhada de muitos “mas”, a estratégia começa a perder nitidez.

O debate deixou um ruído para Cleitinho

Também há um sinal que merece observação no caminho de Cleitinho.

O monitoramento do Vox Radar sobre manifestações espontâneas nas redes sociais depois do debate encontrou 337 comentários declarando perda ou negativa de voto e apenas 34 afirmações de voto conquistado.

Cleitinho concentrou 138 das manifestações de perda, embora também tenha aparecido com o maior número individual de manifestações positivas.

É fundamental fazer a ressalva: isso não é pesquisa eleitoral.

A Rede social não representa matematicamente o eleitorado mineiro e não permite afirmar que Cleitinho perdeu intenção de voto.

Mas também não deve ser simplesmente ignorada. O levantamento mostra que houve ruído.

Cleitinho aparentemente saiu do debate sem grandes ferimentos, mas uma parcela da audiência digital não gostou do que viu. Agora será necessário confrontar esse comportamento com a próxima pesquisa de intenção de voto.

Esse será o teste verdadeiro. Porque eleição não é trending topic, e barulho digital só ganha importância política quando começa a aparecer também nos levantamentos eleitorais.

Marcelo Aro no caminho

Outro movimento importante aconteceu nas últimas horas. Uma fonte do Republicanos confirmou a esta coluna que Cleitinho decidiu se afastar politicamente de Marcelo Aro.

Procurei Aro para ouvir sua versão e confirmar a informação pelo outro lado. Até o fechamento desta coluna, não obtive dele confirmação do rompimento.

Portanto, a informação deve ser tratada pelo que ela é neste momento: um bastidor consistente, confirmado por fonte partidária ouvida por esta coluna, mas ainda sem manifestação pública dos dois protagonistas formalizando a separação.

Se o rompimento for confirmado publicamente, ele acrescentará mais um capítulo a uma campanha de Cleitinho que já começou marcada por mudanças bruscas de direção.

Houve dúvida sobre candidatura, anúncio de desistência, retorno à disputa, negociações diferentes e agora uma possível ruptura com um aliado importante.

Isso não significa necessariamente perda eleitoral. Mas oferece aos adversários material para questionar sua previsibilidade política.

A eleição mineira começa com alianças pouco claras

E assim chegamos a uma das características mais interessantes desta eleição.

Os candidatos estão definidos, porém as fronteiras políticas, nem tanto.

Roscoe é o candidato oficial de Flávio Bolsonaro.

Cleitinho é adversário de Roscoe, mas aliado de Flávio.

Cleitinho pode estar rompendo com Marcelo Aro depois de uma curta relação política construída para esta eleição.

E todos entram agora numa campanha em que terão de explicar não apenas quem os apoia. Terão também de explicar quem são seus adversários.

Flávio Bolsonaro resolveu sua primeira questão em Minas. Escolheu Roscoe.

Mas evitou resolver a segunda. Não rompeu politicamente com Cleitinho.

Pode parecer inteligência eleitoral. Pode ser apenas conveniência.

Mas existe uma linha fina entre ampliar o próprio campo e confundir o eleitor. Acender uma vela para dois santos pode funcionar enquanto ninguém exige o milagre.

Quando chegar a hora de pedir um voto específico para governador, Flávio Bolsonaro talvez descubra que precisa finalmente dizer qual santo espera ver atendendo sua prece, porque Roscoe e Cleitinho não podem ganhar a mesma eleição.

E, mais cedo ou mais tarde, o presidenciável terá de escolher de que lado estará quando um dos dois perder.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.