Luiz Inácio Lula da Silva recebe nesta segunda-feira empresários e banqueiros para um jantar no Palácio da Alvorada.
Oficialmente, é diálogo. Politicamente, é preocupação.
E eleitoralmente, é a constatação de que alguma coisa se mexeu onde o governo talvez imaginasse que continuava tudo mais ou menos no mesmo lugar.
Lula quer diminuir a resistência de uma parcela importante do empresariado à sua reeleição. O encontro, organizado pelo presidente do PT, Edinho Silva, deve reunir cerca de 20 grandes empresários, além do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro da Fazenda, Dario Durigan. Entre os assuntos inevitáveis estará aquele que a campanha presidencial tenta contornar sempre que possível: a situação fiscal brasileira e o crescimento da dívida pública.
Mas o dado mais interessante não está no cardápio do jantar. Está no convidado que não estará à mesa.
Flávio Bolsonaro
Dias atrás, o candidato do PL reuniu-se em São Paulo com banqueiros e empresários, acompanhado de integrantes de sua equipe econômica. Apresentou propostas, falou de governo e iniciou um processo de convencimento de um setor que ainda guarda reservas em relação ao bolsonarismo de que pode oferecer previsibilidade econômica.
A movimentação acendeu uma luz no Palácio do Planalto.
E aqui começa a política de verdade.
Porque os empresários, o mercado não precisam necessariamente gostar de candidato. Eles precisam acreditar que conseguem prever minimamente o que o candidato fará com impostos, gastos públicos, juros, dívida, regulação e ambiente de negócios.
É menos romântico. E muito mais caro.
A distância de Lula
O problema de Lula é que, durante boa parte do governo, sua relação com o mercado foi marcada por uma espécie de casamento em regime de desconfiança universal.
O governo dizia que o mercado exagerava. O mercado dizia que o governo gastava demais.
O governo acusava parte do empresariado de enxergar o país apenas pelas lentes da Faria Lima.
E agora Lula convida justamente essa turma para jantar.
Não há nada de errado nisso. Ao contrário.
Um Presidente da República tem obrigação de conversar com empresários, banqueiros, trabalhadores, sindicatos, agricultores e quem mais movimentar a economia nacional.
A ironia está em outra parte. Aquilo que parecia uma discussão de economistas começou a virar problema eleitoral.
A dívida brasileira
A dívida bruta brasileira chegou a 81,9% do PIB em junho. Estabilizar essa trajetória nos próximos anos exigirá um ajuste fiscal importante, independentemente de quem vencer a eleição.
Portanto, não adianta transformar responsabilidade fiscal numa batalha ideológica.
A matemática não é petista. Também não é bolsonarista.
A matemática é uma senhora bastante antipática que jamais participou de convenção partidária.
A conta simplesmente fecha ou não fecha.
E este talvez seja o ponto mais importante dessa aproximação de Lula com empresários.
Recentemente, em entrevista, o presidente minimizou a preocupação com a dívida brasileira, argumentando que o crescimento econômico pode ajudar a reduzi-la proporcionalmente ao PIB. Ao mesmo tempo, reafirmou compromisso com responsabilidade fiscal.
É justamente essa equação que precisa ser explicada. Porque crescer ajuda muito.
Mas crescimento econômico não é autorização permanente para aumentar despesas acima da capacidade de financiamento do Estado.
Da mesma maneira, Flávio Bolsonaro também terá que ir além de palavras simpáticas ao mercado.
Sua campanha fala em disciplina fiscal e chegou a apresentar a ideia de um teto para a dívida pública, com gatilhos automáticos de contenção de despesas. Mas ainda faltam respostas fundamentais: qual será o limite? Que gastos serão efetivamente contidos? Como fazer isso num orçamento tomado por despesas obrigatórias? E qual será o custo político dessas escolhas?
Prometer austeridade diante de empresários é fácil. Difícil é explicar ao eleitor onde estará o corte.
É exatamente por isso que o jantar desta noite é politicamente mais interessante do que parece.
Não estamos assistindo apenas a uma aproximação entre Lula e empresários.
Estamos assistindo ao começo de uma disputa pelo selo de confiança econômica da eleição de 2026.
Flávio tenta convencer o mercado de que seu sobrenome não significa instabilidade.
Lula tenta convencer o mesmo mercado de que sua permanência não significa deterioração fiscal.
Um precisa provar previsibilidade política. O outro, previsibilidade econômica.
E os dois têm trabalho pela frente.
Dois nomes e suas histórias
Durante algum tempo, Lula pôde explorar eleitoralmente a memória econômica e social de seus governos anteriores. Flávio Bolsonaro, por sua vez, carregava naturalmente o peso político do sobrenome Bolsonaro.
Agora a eleição vai entrando numa fase em que memória começa a perder espaço para expectativa.
A pergunta deixa de ser apenas: “Quem vocês foram?”
E começa a ser: “O que vocês realmente farão a partir de janeiro?”
É aí que a conversa fica mais difícil.
Porque campanha eleitoral vive de frases.
Economia vive de números.
Campanha promete.
Dívida vence.
Campanha termina em outubro.
Juros continuam chegando todo mês.
Por isso, mais importante do que saber quem estará sentado hoje à mesa do Alvorada será descobrir o que Lula terá para lhes dizer.
E, principalmente, o que estará disposto a dizer também ao eleitor.
Se existe um plano concreto para controlar despesas, que seja apresentado.
Se Flávio Bolsonaro possui uma alternativa melhor, que coloque números sobre a mesa.
Porque talvez esteja chegando ao fim aquela fase maravilhosa da campanha em que todo candidato explica com entusiasmo onde pretende gastar dinheiro e muda rapidamente de assunto quando alguém pergunta de onde ele virá.
O empresariado já começou a fazer essa pergunta. O eleitor deveria fazer também.
E talvez seja exatamente por isso que, nesta segunda-feira, Lula esteja servindo jantar no Alvorada.
Na política, quando o adversário começa a ser recebido numa sala que você julgava reservada, é prudente conferir a lista de convidados.