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Menos exércitos e tropas, mais propostas

Por Paulo Leite • Rede 98
13/10/2026 10:15 Atualizado há 2 horas
A polarização divide o Brasil entre apoiadores do presidente Lula e de Flávio Bolsonaro, que fazem o segundo turno presidencial no próximo dia 25. (Foto: Ricardo Stuckert (Lula) e Reprodução/Instagram (Flávio)
A polarização divide o Brasil entre apoiadores do presidente Lula e de Flávio Bolsonaro, que fazem o segundo turno presidencial no próximo dia 25. (Foto: Ricardo Stuckert (Lula) e Reprodução/Instagram (Flávio)

Em vez de discutir o projeto de Flávio Bolsonaro ou o projeto de Lula, estamos falando em “tropa” de um e “exército” do outro. O vocabulário parece ter saído de uma guerra. O problema é que uma eleição deveria escolher caminhos para melhorar o país, não organizar batalhões para humilhar a metade adversária.

E a responsabilidade também é nossa. Nossa, na primeira pessoa do plural. Nós, eleitores, ajudamos a tornar vulgar o processo de escolha quando premiamos a provocação, compartilhamos a ofensa e dispensamos a proposta. Cobramos menos respostas e mais munição. Depois nos espantamos com a qualidade do espetáculo que ajudamos a financiar.

Precisamos conversar seriamente com a própria consciência. Queremos um governo melhor ou apenas a satisfação de ver o outro lado derrotado? A diferença entre essas duas expectativas pode determinar a qualidade da democracia muito depois da apuração.

Flávio tem vantagem; Lula, urgência

A nova pesquisa BTG/Nexus mostra Flávio com 52% dos votos válidos e Lula com 48%. Nos votos totais, são 48% para o senador e 45% para o presidente; 5% declaram nenhum, branco ou nulo, e 2% não sabem ou não responderam. O levantamento ouviu 2.002 eleitores por telefone entre 10 e 12 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e confiança de 95%.

O cenário é tratado como empate técnico. A expressão recomenda cautela, mas não elimina a vantagem numérica de Flávio. Quem está à frente precisa preservar sua posição. Quem está atrás precisa alterar a dinâmica da disputa.

Na rodada de 28 de setembro, a simulação de segundo turno da mesma pesquisa dava 46% dos votos totais a Lula e 44% a Flávio. Agora, a dianteira mudou de lado. Não podemos concluir, a partir de amostras diferentes, quais eleitores trocaram de candidato ou quando se decidiram. Podemos reconhecer que a fotografia atual favorece o senador.

Minha avaliação é que Flávio tem sido mais eficiente na comunicação: transmite mensagens diretas e procura associá-las às preocupações cotidianas. Isso não comprova que cumprirá suas promessas nem que essa comunicação explique, sozinha, o resultado. Significa que, nesta etapa, parece apresentar melhor sua oferta eleitoral.

Biografia não substitui futuro

Lula precisa conquistar votos fora do seu território político. Para isso, terá de responder aos eleitores que não perceberam melhora suficiente em suas vidas e explicar por que outro mandato produziria um resultado diferente. Cobrar essa resposta é mais útil do que transformar toda crítica ao governo em ofensa pessoal ao presidente.

A biografia pode ter valor, mas não substitui uma proposta de futuro. O cidadão pode reconhecer serviços prestados e querer trocar o prestador. Serviço prestado está no passado. A eleição decide quem receberá a responsabilidade pelo que ainda precisa ser feito.

Transformar Lula em personagem de vídeos e publicações tampouco resolve, por si, esse problema. A comunicação digital ajuda a entregar uma mensagem. Não pode ocupar o lugar dela. Visualização mede audiência; a urna mede uma escolha.

A rejeição exige humildade

Lula é rejeitado por 51% dos entrevistados, enquanto Flávio registra 47%. Nenhum dos dois encontrou uma avenida de amor. Rejeição não é sentença definitiva, mas indica a resistência que cada campanha precisa enfrentar.

Para Lula, o desafio é conversar com quem pretende manter a porta fechada. Para Flávio, estar numericamente à frente não representa certificado de competência. Ele precisa demonstrar capacidade de governar e compromisso com as instituições democráticas. Elas precisam ser aprimoradas, e esse aprimoramento exige respeito às regras.

A vantagem de Flávio no primeiro turno foi de aproximadamente 2,225 milhões de votos. Os demais candidatos reuniram cerca de 9,317 milhões, considerando o total de votos válidos e as votações dos dois finalistas. Há votos a disputar, mas apoio de liderança não transfere eleitor automaticamente. Cidadão não é patrimônio de candidato.

Além de persuadir, as campanhas precisam mobilizar. A abstenção pode pesar numa disputa apertada. Nos estados que já resolveram a eleição para governador, sustentar o interesse pela votação presidencial merece atenção. Isso é uma preocupação estratégica, não uma certeza sobre quem deixará de comparecer.

O eleitor precisa sair do quartel

O maior risco é fazer campanha apenas para convertidos. A frase que provoca aplausos na própria torcida pode não convencer ninguém fora dela. E aplauso, para tristeza dos palanqueiros, não vem com título eleitoral anexado.

A pesquisa oferece uma fotografia, não uma escritura do Planalto. Flávio tem vantagem numérica; Lula tem urgência política. A decisão virá em 25 de outubro.

Até lá, nós também temos uma tarefa: trocar a fidelidade de soldado pela responsabilidade de cidadão. Menos tropas, menos exércitos e mais propostas. Porque derrotar o adversário pode dar uma noite de festa. Governar bem precisa entregar quatro anos de resultado.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.