Ir ao mercado ficou mais caro no Brasil. Nos últimos dois anos, a inflação acumulada dos alimentos foi de 9,9%, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Encher o carrinho com itens básicos, que antes cabiam no orçamento, hoje exige cálculo, substituições e, muitas vezes, cortes. E essa não é uma queixa isolada.
Esse foi o cenário encontrado pela Rede 98 em 14 cidades de Minas Gerais, ao longo de três meses de viagens pela Grande BH, Centro-Oeste, Quadrilátero Ferrífero, Zona da Mata, Norte e Sul do estado.
Mudam cidade, região, sotaque… mas a reclamação se repete. O supermercado virou um retrato visível de um problema estrutural que há décadas encarece o país: o chamado Custo Brasil.
O custo invisível que encarece o cotidiano
A comida está mais cara não apenas pela inflação. O preço que chega à mesa carrega ineficiências acumuladas ao longo de toda a cadeia produtiva. Estradas precárias, transporte caro, burocracia excessiva, desperdícios na logística, insegurança jurídica, carga tributária complexa. O Brasil produz muito — mas perde parte do que produz no meio do caminho.
E essa perda tem preço. Da energia ao transporte, da saúde à educação, do aluguel ao turismo. É esse peso invisível – que começa no campo, passa pela indústria, atravessa rodovias e termina no carrinho do supermercado – que a Rede 98 revela a partir de hoje no especial “Custo Brasil — Por que vivemos em um país tão caro?”.
O termo surgiu oficialmente em 1995, em um estudo da Confederação Nacional da Indústria. O alerta já era claro: leis complexas, infraestrutura precária, energia cara, crédito difícil e insegurança jurídica comprometem a competitividade do país. Trinta anos depois, grande parte desses gargalos permanece e o brasileiro continua pagando a conta.
O economista-chefe da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), João Gabriel Pio, detalha o que é o Custo Brasil e faz um alerta: ele encarece a produção, trava investimentos e limita o crescimento do país.
Quando o conceito ganha rosto
Foi para entender como esse conceito técnico se traduz na vida das pessoas que percorremos 14 cidades mineiras: Belo Horizonte, Nova Serrana, Conceição do Pará, Moeda, Brumadinho, Itabirito, Mariana, Ouro Preto, Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco, Juiz de Fora, Varginha e Montes Claros.
O que colhemos foi um retrato amplo do Custo Brasil, unindo a voz da população à análise técnica de economistas, empresários e representantes do setor produtivo, que mostram como os gargalos estruturais do país impactam diretamente a vida das pessoas.
Em Conceição do Pará, no Centro-Oeste de Minas, a dona de casa Simone Conceição Moreira reduziu o consumo de café e substituiu a carne vermelha por frango com mais frequência. Não por escolha, mas por necessidade.
Em Juiz de Fora, na Zona da Mata, o autônomo Elson da Silva Carvalho não deixou de comprar o que gosta no mercado, mas perdeu a capacidade de poupança.
Quando o básico consome quase tudo
O que os mineiros relatam reflete uma realidade nacional. Os relatos confirmam o que os números mostram. Dados do Dieese indicam que, em várias capitais brasileiras, a cesta básica consome quase metade do salário mínimo, hoje em R$ 1.621. Em alguns casos, ultrapassa esse percentual.
Em Belo Horizonte, a cesta varia entre R$ 730 e R$ 740. Arroz, feijão, leite, carne bovina e pão francês – itens essenciais, muitas vezes impossíveis de cortar – consomem uma fatia cada vez maior da renda mensal.
Parte dessa pressão não vem apenas da inflação tradicional. Segundo o economista Paulo Casaca, do Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead/UFMG), o Brasil perde eficiência antes mesmo de o alimento chegar ao supermercado. Falta infraestrutura adequada, logística moderna, armazenamento eficiente. O desperdício ao longo da cadeia produtiva encarece o que chega à mesa do brasileiro.
Alívios pontuais, pressão persistente
Os preços dos alimentos até deram uma trégua entre meados e o fim de 2025. Arroz, óleo, leite, café e batata ficaram um pouco mais baratos, segundo Conab e IBGE. O alívio foi pequeno diante das altas acumuladas. Levantamento da Fundação Getúlio Vargas mostra que, entre 2020 e novembro de 2025, os alimentos subiram 57%, bem acima da inflação do período, de 38%. É por isso que, mesmo com quedas pontuais, o carrinho segue mais vazio e o orçamento, apertado.
Porque, no fim das contas, o Custo Brasil não é um conceito distante da realidade. Ele está no preço do arroz, da carne, na conta do supermercado. E no desafio diário de colocar comida na mesa.