A Bolsa de Valores brasileira acionou, nesta segunda-feira (26/10), o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em momentos de fortes quedas. A medida foi adotada após a reação negativa do mercado financeiro à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Foi a primeira vez que o sistema entrou em funcionamento desde março de 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Criado em 1997, o mecanismo já foi utilizado em diferentes crises econômicas e políticas, como a crise asiática, a desvalorização do real em 1999, a crise financeira de 2008 e as turbulências provocadas pela pandemia.
Nesta segunda-feira, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) anunciou a suspensão antes mesmo da abertura do mercado à vista. A decisão ocorreu após uma análise dos preços indicativos das ações apontar a possibilidade de queda superior a 20% no Ibovespa.
Como funciona o circuit breaker?
O circuit breaker é um mecanismo de proteção utilizado pela B3 para interromper negociações quando o Ibovespa registra quedas acentuadas.
As regras estabelecem diferentes níveis de suspensão:
- Queda de 10%: negociações interrompidas por 30 minutos.
- Queda de 15%: nova suspensão, desta vez por uma hora.
- Queda de 20%: a Bolsa pode determinar outra paralisação, com duração definida pela própria B3.
Durante a interrupção, ficam suspensas as operações abrangidas pelo mecanismo, incluindo negociações de ações, derivativos e títulos de renda fixa privada.
O objetivo é reduzir os efeitos de movimentos bruscos e permitir que os investidores reavaliem suas decisões.
No episódio desta segunda-feira, a B3 informou que uma nova queda de 20% poderia provocar outra interrupção de 15 minutos, seguida de um leilão de reabertura de cinco minutos.
Quantas vezes o mecanismo já foi acionado?
Desde sua criação, em 1997, o circuit breaker foi acionado em diferentes episódios de instabilidade financeira.
Considerando as ocorrências históricas relacionadas abaixo, o mecanismo soma 24 acionamentos até 2026, incluindo as interrupções repetidas em um mesmo pregão.
1997: crise asiática
A crise financeira que atingiu países asiáticos provocou fuga de investimentos de mercados emergentes e perdas nas Bolsas internacionais.
No Brasil, o mecanismo foi acionado três vezes, em 28 de outubro, 7 de novembro e 12 de novembro.
1998: crise russa
A crise econômica da Rússia provocou uma nova onda de instabilidade nos mercados internacionais.
Naquele ano, a Bolsa brasileira registrou cinco acionamentos, distribuídos entre os dias 21 de agosto, 4, 10 e 17 de setembro. Em 10 de setembro, houve duas interrupções no mesmo pregão.
1999: desvalorização do real
O abandono do regime de bandas cambiais e a adoção do câmbio flutuante, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, provocaram forte oscilação da moeda brasileira.
A Bolsa acionou o mecanismo duas vezes, em 13 e 14 de janeiro.
2008: crise financeira internacional
A crise do mercado imobiliário norte-americano e a falência do banco Lehman Brothers desencadearam perdas nos mercados financeiros de diferentes países.
No Brasil, ocorreram seis acionamentos do circuit breaker entre setembro e outubro daquele ano.
2017: crise política no governo Temer
A divulgação de uma gravação envolvendo o empresário Joesley Batista e o então presidente Michel Temer (MDB) provocou forte reação do mercado financeiro.
O episódio, conhecido como “Joesley Day”, levou à interrupção das negociações na Bolsa em maio de 2017.
2020: pandemia de Covid-19
O avanço do coronavírus e as incertezas sobre a economia mundial provocaram uma sequência de quedas na Bolsa.
Em março de 2020, o mecanismo foi acionado seis vezes, distribuídas em cinco pregões: 9, 11, 12, 16 e 18 de março.
2026: reeleição de Lula
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno das eleições presidenciais provocou uma forte reação negativa dos investidores.
Nesta segunda-feira, a Bolsa interrompeu as negociações após uma queda acentuada do Ibovespa. Depois da retomada, o índice chegou a recuar 16,98%, aos 170.461 pontos, por volta das 10h46.
O dólar e os juros futuros também registraram forte alta, em meio às preocupações de parte do mercado com a condução da política fiscal no próximo mandato.
O acionamento do circuit breaker não significa o encerramento definitivo das operações. Trata-se de uma suspensão temporária, prevista nas regras da Bolsa, para momentos de instabilidade excepcional.