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A pesquisa Quaest desmonta a ideia de favoritismo confortável de Lula

Por Paulo Leite Rede 98
15/08/2026 09:58 Atualizado há 2 horas
(Foto: Ricardo Stuckert / PR)

A nova pesquisa Genial/Quaest traz uma notícia ruim para quem gosta de decretar eleição encerrada antes de o eleitor começar a prestar atenção nela, a disputa presidencial está aberta.

Lula continua liderando. Isso precisa ser dito antes de qualquer interpretação mais apressada. No primeiro turno, o presidente aparece com 38% das intenções de voto, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado e Renan Santos têm 4% cada. No eventual segundo turno entre Lula e Flávio, porém, a diferença cai para apenas três pontos: 43% a 40%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas presencialmente entre 10 e 13 de agosto.

Portanto, não há razão para inverter a realidade. Lula está numericamente na frente. Mas também não existe mais espaço para vender a ideia de uma eleição confortável.

E essa talvez seja a principal conclusão da pesquisa.

Na rodada anterior da Quaest, Lula tinha 39% e Flávio 30% no primeiro turno. Num eventual segundo turno, eram 44% contra 39%. Agora são 38% a 31% e 43% a 40%. As variações isoladamente são pequenas e estão dentro da margem de erro. Seria metodologicamente incorreto anunciar uma cavalgada eleitoral de Flávio com base nesses pontos.

Mas política não se lê apenas olhando uma casa decimal. Lê-se tendência.

E a tendência mostra que Flávio Bolsonaro conseguiu chegar vivo, competitivo e próximo de Lula ao início da campanha oficial. 

Isso é muito mais importante do que saber se ganhou um ponto aqui ou perdeu outro acolá.

Durante boa parte da pré-campanha havia uma dúvida legítima sobre a capacidade de Flávio de transportar para si o eleitorado de Jair Bolsonaro. Não bastava carregar o sobrenome. Era preciso transformar herança familiar em candidatura presidencial.

Os números mostram que essa transferência está acontecendo em grau suficiente para colocá-lo numa disputa real.

Flávio deixou de ser apenas “o filho de Bolsonaro que será candidato”.

Virou o candidato que pode disputar a Presidência com Lula.

É uma diferença enorme.

O maior problema de Lula está fora da urna

Talvez o número mais desconfortável para o presidente não seja sequer o 43 a 40.

A Quaest mostra um país profundamente desconfiado de seu rumo. Para 53% dos entrevistados, o Brasil está caminhando na direção errada. A administração Lula é considerada positiva por 36%, negativa por 37% e regular por 25%. Quando a pergunta é aprovação ou desaprovação, 48% desaprovam o governo e 46% aprovam.

Não significa que essas pessoas automaticamente votarão contra Lula.

Mas significa que o presidente disputará a eleição tendo que defender aquilo que entregou durante o mandato.

Esse é o paradoxo clássico da reeleição.

Quem está no governo possui máquina administrativa, exposição, capacidade de agenda e realizações para mostrar. Mas carrega também no colo inflação, problemas fiscais, insegurança, dificuldades da saúde, frustrações econômicas e qualquer outra insatisfação que o eleitor decidir atribuir ao governo.

O oposicionista promete.

O presidente precisa prestar contas.

E Lula já não terá o luxo de disputar apenas contra Flávio Bolsonaro. Disputará também contra a avaliação que cada brasileiro faz da própria vida.

No fim das contas, eleitor raramente vota olhando o PIB com lupa.

Ele abre a geladeira.

Mas Flávio também carrega uma parede pela frente

Se Lula tem motivos para preocupação, seria igualmente precipitado transformar a pesquisa numa marcha triunfal de Flávio Bolsonaro.

A rejeição do senador continua altíssima: 54% dizem que não votariam nele, contra 52% de rejeição a Lula. 

Aqui aparece o grande obstáculo dos dois.

Esta eleição começa com os dois principais candidatos rejeitados por aproximadamente metade do eleitorado.

Isso produz uma campanha muito diferente de uma disputa em que um candidato precisa simplesmente conquistar simpatia.

Lula e Flávio precisarão simultaneamente conquistar votos e administrar rejeições.

E isso costuma levar as eleições brasileiras para um terreno conhecido e pouco elegante: o voto negativo.

Muita gente não escolherá necessariamente quem considera melhor.

Escolherá aquele que considera menos ruim.

A pesquisa mostra isso de outra maneira bastante reveladora. Segundo a Quaest, 45% dizem sentir medo da volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 41% manifestam medo da continuidade de Lula. 

Observe a palavra. Não é entusiasmo. É medo.

E uma democracia em que os dois principais grupos políticos mobilizam o eleitor mais pelo receio do adversário do que pela confiança em seu próprio projeto tem alguma coisa a dizer sobre a qualidade de nossa política.

A terceira via vai desaparecendo diante da polarização

Há também uma notícia ruim para quem imaginava que a eleição de 2026 pudesse facilmente romper a polarização.

Na Quaest, Caiado e Renan Santos aparecem com 4%. Romeu Zema fica ainda abaixo. Enquanto Lula e Flávio concentram 69% das intenções de voto no cenário principal, os demais continuam disputando espaço muito pequeno.

A eleição está começando antes mesmo de começar com aparência de segundo turno antecipado.

Isso cria um problema para os candidatos alternativos.

Eles precisam convencer o eleitor não apenas de que possuem propostas melhores, mas de que têm viabilidade eleitoral.

E eleição presidencial é cruel com candidaturas percebidas como inviáveis. À medida que outubro se aproxima, parte do eleitorado tende a migrar para quem acredita ter chance de chegar ao segundo turno.

É o chamado voto útil.

Se a polarização se consolidar cedo, ela poderá alimentar a si própria.

Lula dirá: só eu posso impedir Bolsonaro.

Flávio dirá: só eu posso derrotar Lula.

E os demais ficarão tentando explicar que existe vida política fora dessa trincheira.

Agora começa a campanha de verdade

Há uma coincidência temporal importante.

A pesquisa chega praticamente na véspera do início oficial da propaganda eleitoral.

Até agora tivemos pré-candidaturas, convenções, articulações partidárias, intrigas, negociações e pesquisas.

A partir daqui entra algo diferente, campanha organizada, publicidade, ataques coordenados, debates, exposição diária e tentativa sistemática de conquistar o eleitor menos politizado.

E é justamente esse eleitor que pode decidir a eleição.

A Quaest não está dizendo quem ganhará em outubro.

Está dizendo algo mais simples e talvez mais importante: ninguém ganhou ainda.

Lula chega à largada numericamente na frente, mas sem gordura eleitoral suficiente para administrar a campanha olhando apenas o calendário.

Flávio Bolsonaro chega atrás, porém suficientemente perto para obrigar o presidente a correr.

E existe um detalhe que não pode ser ignorado: outros levantamentos recentes também mostram Flávio competitivo, embora as distâncias variem entre os institutos. A CNT/MDA apontou vantagem maior para Lula; BTG/Nexus e Quaest encontraram cenários mais apertados. 

Não se deve escolher pesquisa como quem escolhe time de futebol.

O correto é observar o conjunto.

E o conjunto está dizendo que teremos eleição.

Talvez uma eleição dura, negativa e excessivamente polarizada.

Mas eleição.

A boa notícia para Lula é que continua na frente.

A boa notícia para Flávio é que Lula já consegue vê-lo no retrovisor.

A má notícia para os dois é que aproximadamente metade do país rejeita cada um deles.

E a pior notícia para o Brasil seria se, durante os próximos cinquenta dias, a campanha se resumisse novamente a convencer o eleitor de que o adversário é assustador.

Porque o país precisa saber muito mais do que quem não quer governando.

Precisa descobrir o que cada candidato fará com a economia, a dívida pública, a segurança, a saúde, a educação, e, um Estado que já promete muito mais do que consegue financiar.

A Quaest mostra que a eleição apertou.

Agora seria bom que o debate também amadurecesse.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.