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A indústria mineira mostra força, mas cobra ar para respirar

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 23/05/2026
  • 10:45

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(Foto: Rede 98).

(Foto: Rede 98).

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O Dia da Indústria, celebrado pela Fiemg na última quinta-feira, 21 de maio, no Minascentro, em Belo Horizonte, não foi apenas uma solenidade de medalhas, discursos e fotografias oficiais. Foi, acima de tudo, uma fotografia do Brasil real. De um lado, a indústria que investe, forma mão de obra, exporta, inova e sustenta boa parte da economia; de outro, um país que insiste em tratar quem produz como se fosse culpado por produzir. A Fiemg reuniu empresários, lideranças do setor produtivo, trabalhadores e representantes da indústria mineira para homenagens e para apresentar o balanço da gestão Pró-Indústria, conduzida entre 2018 e 2026.

Uma noite simbólica

O simbolismo é importante. Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, recebeu o título de Industrial do Ano. Ogari de Castro Pacheco, fundador da Cristália, foi homenageado com o Mérito Industrial da CNI. Reynaldo Passanezi Filho, que presidiu a Cemig, recebeu o reconhecimento Construtor de Progresso. Também foram destacadas empresas ligadas à inovação, como Brastorno e Nanum Nanotecnologia. A noite olhou para a indústria tradicional, para a tecnologia, para a energia, para a siderurgia, para a química fina, para a inovação e para a formação profissional. Não foi pouca coisa.

Mas a homenagem, sozinha, não paga a conta. E a indústria sabe disso melhor do que ninguém. Medalha no peito é bonito; juro alto no caixa é veneno. O presidente em exercício da Fiemg, Bruno Melo Lima, foi direto ao ponto ao alertar para um cenário extremamente complexo, marcado por juros elevados, custo de energia, insegurança no ambiente de negócios e discussões trabalhistas que mexem com a rotina das empresas. Segundo ele, os juros “sufocam a indústria” e tornam os investimentos praticamente impossíveis.

O que a indústria mineira quer está longe de ser um privilégio. Está pedindo normalidade. Quer crédito em condições minimamente racionais. Quer segurança jurídica. Quer previsibilidade. Quer infraestrutura. Quer menos burocracia. Quer um Estado que regule sem estrangular, cobre impostos sem confiscar energia vital e fiscalize sem transformar o empreendedor em suspeito permanente. No Brasil, muitas vezes, o empresário acorda cedo para produzir e passa o resto do dia tentando escapar do labirinto criado por quem nunca produziu um parafuso.

Um balanço repleto de realizações

Os números do balanço da Fiemg ajudam a mostrar o tamanho desse esforço. Entre 2018 e 2025, foram mais de R$1,3 bilhão investidos em infraestrutura, tecnologia, educação e inovação industrial em Minas Gerais. A entidade destacou ainda mais de 250 mil alunos matriculados no Senai Minas em 2025 e a criação do Instituto de Terras Raras, em Lagoa Santa, apresentado como o primeiro laboratório-fábrica de ímãs e ligas de terras raras do hemisfério sul.

O ponto forte do balanço foi a aposta na formação. Uma economia não se sustenta apenas com discurso, decreto e programa de governo batizado com nome bonito. Sustenta-se com gente qualificada. Com técnico bem formado. Com trabalhador preparado. Com escola profissional de verdade. Com laboratório. Com máquina. Com instrutor. Com método. Com produtividade. País que despreza educação técnica acaba exportando minério e importando tecnologia. Minas sabe bem o peso dessa contradição.

Também chama atenção a recuperação da participação da indústria no PIB mineiro. Em conversa, ao fim do evento, Flávio Roscoe, presidente licenciado da Fiemg, afirmou que a indústria saiu de pouco mais de 25% do PIB estadual no início da gestão e se aproxima de 32%. É um dado relevante, porque mostra que Minas não vive apenas da memória industrial, mas ainda tem musculatura produtiva. O desafio é transformar essa musculatura em salto de competitividade.

O monstro que apavora quem produz

O Custo Brasil, segundo a CNI, chega a R$1,7 trilhão por ano, algo em torno de 20% do PIB brasileiro. É dinheiro perdido em burocracia, infraestrutura ruim, insegurança jurídica, complexidade tributária, custo financeiro, energia cara e ineficiências acumuladas. É como se o país colocasse uma mochila de pedra nas costas de quem quer correr e depois perguntasse, com cara de espanto, por que o corredor ficou para trás.

O Brasil gosta de falar em neo industrialização, mas ainda trata a indústria como personagem secundário. Faz seminário, lança programa, promete crédito, cria slogans. Mas, no cotidiano, o produtor enfrenta juros altos, crédito caro, excesso de exigências, insegurança regulatória e uma carga tributária que exige quase um departamento de arqueologia para ser decifrada. A Selic, mesmo após corte em abril, seguia em 14,50% ao ano, patamar ainda duríssimo para investimento produtivo.

O alerta de Werneck

A fala de Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, merece atenção especial. A siderurgia é um setor que sente na pele a competição global, especialmente a entrada de aço importado em condições consideradas desleais pela indústria nacional. A Gerdau quer priorizar o mercado interno e retomar produção para atender clientes brasileiros que hoje acabam abastecidos por aço importado. Esse debate não é protecionismo barato. É defesa da isonomia. Concorrência é saudável quando todos correm na mesma pista. Quando um corre de tênis e outro com bola de ferro no pé, o nome disso não é mercado; é faz de conta.

O verdadeiro valor da Indústria

A indústria não é uma abstração de gabinete. Indústria é emprego, salário, arrecadação, tecnologia, exportação, carreira técnica, bairro movimentado, comércio aquecido e cidade viva.

O mérito da Fiemg, nesse fim de ciclo, está em apresentar uma narrativa concreta: educação profissional, inovação, terras raras, competitividade, atuação social e defesa do ambiente de negócios. O ponto que precisa ser cobrado, da própria indústria, dos governos e do país, é o próximo passo. Não basta formar jovens se o ambiente econômico não permite que as empresas cresçam. Não basta criar laboratório de ponta se o país não tiver estratégia para transformar pesquisa em cadeia produtiva. Não basta homenagear empresários se, no dia seguinte, a máquina pública voltar a tratá-los como caixa eletrônico.

Minas tem vocação industrial, mineral, energética, tecnológica e exportadora. Mas vocação sem ambiente de negócios vira poesia bonita em parede de repartição. O mundo está em disputa feroz por cadeias produtivas, energia, semicondutores, minerais críticos, aço, alimentos processados e tecnologia limpa. Quem dormir agora acordará comprando caro aquilo que poderia produzir.

O Dia da Indústria, portanto, não deve ser visto apenas como cerimônia. Deve ser lido como aviso. A indústria mineira está dizendo que tem capacidade, história, quadros técnicos, liderança empresarial e base produtiva. Mas também está dizendo que não há competitividade possível com juro proibitivo, crédito escasso, energia cara, burocracia labiríntica e insegurança jurídica.

Já passou da hora do Brasil decidir se quer mesmo produzir ou se prefere continuar fazendo discurso sobre produção. Porque a indústria não vive de aplauso. Vive de investimento, previsibilidade, produtividade e coragem. Medalha reconhece o passado. O que garante o futuro é o ambiente para se desenvolver.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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