Tem sobrenome que não é só o que acompanha o nome, é mapa. E Carneiro, no meu caso, é uma bússola dupla. Dois Carneiros iguais na grafia, diferentes no rebanho, na paisagem e na estrada. Famílias de lugares distintos, jeitos próprios, histórias que não se misturam no sangue, mas se encontram no destino. E, quando a vida resolveu colocar os dois no meu caminho, ela não estava sendo aleatória: estava sendo pedagógica.
Marco Aurélio Jarjour Carneiro e Emanuel Carneiro. Dois homens que, cada um a seu modo, foram responsáveis pela minha formação pessoal e profissional. E eu digo isso com a gratidão de quem sabe que ninguém se faz sozinho, muito menos na comunicação, esse ofício em que a gente se constrói no improviso disciplinado, no erro corrigido a tempo, no puxão de orelha que vira método e no incentivo que vira coragem.
Eu trabalhei com os dois. E trabalhei cedo, jovem o bastante para ainda confundir entusiasmo com pressa, talento com teimosia, e liberdade com imprudência. Eu dei trabalho. Dei muito trabalho. E não foi pouca coisa. Foi daquele tipo que testa a paciência, que exige repetição, que faz o outro respirar fundo antes de responder. Se eu tivesse de resumir meu começo em uma imagem, seria algo como um aprendiz inquieto, cheio de urgência, tentando acelerar o tempo, e o tempo, claro, me ensinando que ele não corre, ele educa.
O curioso é que, olhando hoje, eu entendo melhor a generosidade que existe em aguentar alguém em formação. Porque aguentar, aqui, não é tolerar por obrigação; é apostar. É enxergar uma possibilidade onde o próprio sujeito ainda é só rascunho. Marco Aurélio e Emanuel apostaram. Com estilos diferentes, com temperamentos diferentes, com rotinas diferentes, mas com algo em comum: a capacidade rara de formar sem humilhar, de orientar sem esmagar, de corrigir sem arrancar a alma do texto.
E a vida, com seu humor de roteirista experiente, desses que adoram coincidências bem amarradas, me deu, outro dia, uma cena simbólica. No lançamento do livro “No ar”, de Emanuel Carneiro, eu tive a oportunidade de estar ao mesmo tempo com os dois. Os dois Carneiros. Os dois pilares. E aquela presença simultânea, simples e forte, funcionou como um espelho em três dimensões: eu vi como comecei, eu vi onde cheguei, e eu vi, com uma clareza quase desconfortável, o tamanho da importância dos dois nesse caminho.
Porque há encontros que não são apenas encontros; são balanços. A gente conversa, cumprimenta, sorri, comenta o evento… mas por dentro, silenciosamente, abre uma gaveta antiga e encontra o menino que fomos, com suas falhas mal resolvidas e suas vontades imensas. E ali, naquela noite, eu entendi uma coisa bonita e difícil. Parte do que eu sou hoje é resultado do trabalho que eu dei ontem, e, sobretudo, do jeito como esse trabalho foi acolhido e transformado em aprendizado.
Hoje eu ainda trabalho com Marco Aurélio. E eu digo sem cerimônia, com a tranquilidade de quem não precisa enfeitar a verdade: mais do que meu empregador, ele é meu amigo. E amizade, aqui, não é palavra leve. É palavra de peso. Amizade é quando a gente pode errar e ainda assim ser chamado para a conversa; quando a crítica vem para levantar, não para diminuir; quando existe respeito sem medo e proximidade sem bajulação.
O mesmo sentimento que eu tenho por Emanuel. A mesma gratidão. A mesma sensação de que, em algum momento crucial da minha trajetória, ele esteve ali, não como figura decorativa, mas como presença que conta. Daquelas pessoas que deixam marcas sem precisar fazer barulho, que ensinam mais pelo que fazem do que pelo que dizem, e que, mesmo quando não estão no nosso dia a dia, continuam influenciando o nosso jeito de pensar e de trabalhar.
Os dois, cada qual em sua linha, me ajudaram a organizar o caos, esse caos que todo jovem carrega quando quer dar certo rápido demais. Eles me ensinaram a lapidar a pressa, a domar a ansiedade, a encontrar forma para a minha voz. Eles foram, em muitos momentos, tradução: pegaram o que em mim era impulso e transformaram em direção. E isso, convenhamos, é um tipo de milagre secular.
Não é pouca coisa reconhecer isso. Porque a vida adulta às vezes nos empurra para a pose que eu me fiz, construí minha carreira e minha história. E é mentira, ou, no mínimo, uma meia-verdade muito vaidosa. A verdade inteira é mais bonita: nós somos feitos também pelos que nos ensinaram, pelos que nos deram chance, pelos que não desistiram na primeira turbulência. E eu tive dois Carneiros assim.
Por isso, esta crônica é um agradecimento. Não um agradecimento protocolar, de cartão assinado às pressas. É um agradecimento de quem voltou ao ponto de partida para medir a distância percorrida e percebeu que, sem aquelas mãos, às vezes firmes, às vezes pacientes, às vezes exigentes, a caminhada teria sido mais curta, mais torta, ou talvez nem tivesse acontecido.
Se hoje eu consigo olhar para o meu trabalho com senso crítico, se eu consigo reconhecer o valor do detalhe, se eu entendo que disciplina é uma forma de liberdade, eu devo muito a esses dois sobrenomes iguais. Dois Carneiros. Dois rebanhos. E uma mesma generosidade: a de formar alguém quando ele ainda não sabe direito o que está fazendo, mas quer muito aprender.
E o mais bonito é que, apesar de toda a diferença de origem, de família, de localidade, os dois se encontram dentro de mim como se fossem capítulos do mesmo livro. Um livro que, a cada página, me lembra que existem pessoas que não passam pela nossa vida; elas ficam. Elas viram parte do que a gente é.
Marco Aurélio. Emanuel. Obrigado.
Porque, no fim, eu aprendi isso: há sobrenomes que a gente carrega no crachá do coração. E Carneiro, para mim, é sinônimo de começo, caminho e permanência.
