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Catraca livre, cidade presa

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Transporte público em pauta (Fernando Frazão/Agência Brasil)

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Há decisões públicas que revelam mais sobre o governante do que sobre a política em si. A recente medida da prefeitura de Belo Horizonte ao liberar as catracas dos ônibus aos domingos e feriados, garantindo o pagamento às empresas via subsídio, é uma dessas decisões que, quando analisadas com calma, expõem uma equivocada escolha de prioridades. E essas prioridades não são as da cidade.

Porque não se trata apenas de liberar o transporte. Trata-se de um gesto político que chega com cheiro de conveniência, gosto de populismo e assinatura de incoerência.

A incoerência revelada

O mais irônico, e irritante, é que a própria prefeitura, por meio de sua base na Câmara Municipal, fez todo o esforço para que o projeto de lei do passe livre na cidade não fosse aprovado. Disse, e com razão, que não era viável economicamente e que faltava estudo técnico. Até então muito austero, muito republicano, muito equilibrado.

De repente, como num passe de mágica, o dinheiro aparece. Os estudos estão prontos. A viabilidade despenca do céu. 

É difícil não ver nisso uma infantilidade política: uma espécie de “se a ideia não é minha, não serve”. E quando a administração municipal se comporta como criança birrenta, quem paga a conta é o contribuinte.

Subsidiar passagem exatamente nos dias de menor demanda é o tipo de política feita para gerar manchete, não para melhorar o transporte. É o triunfo da estética sobre a essência.

A catraca pode até ficar livre, mas a racionalidade necessária à política pública fica presa.

O gesto é populista, é comprado com recursos que deveriam estar destinados a outras prioridades. Isso tem nome: é esperteza. Porém, esperteza nunca sustenta boa gestão.

A cidade abandonada no básico

Enquanto a prefeitura distribui bondades, Belo Horizonte segue derrotada naquilo que é mais elementar: as ruas esburacadas, praças tomadas por mato, o lixo espalhado nas calçadas, e o transporte público, o mesmo que agora tem catraca livre, mal administrado e cheio de vícios de contrato. Não há zelo, não há cuidado, não há presença do poder público onde ela mais importa: no cotidiano das pessoas.

É difícil defender “gratuidade” quando o básico está implorando por investimento. É como pintar a fachada enquanto a casa desaba por dentro.

Subvenção não é pecado, mas subsídio exige critério, prioridade, direção. 

Só que o que a prefeitura apresenta não é política pública, é o mais descarado marketing público.

Uma cidade que não consegue varrer suas ruas decide pagar passagem para dar uma sensação de modernidade. Uma administração que não consegue entregar zeladoria decide posar de vanguarda social. É o velho truque: quando não se pode oferecer estrutura, oferece-se espetáculo. BH não precisa de espetáculo

E o que mais impressiona não é a gratuidade em si, mas a forma como é concedida.

Não há planejamento integrado, não há plano de melhoria do transporte, não há contrapartida das empresas, não há transparência no cálculo dos subsídios. Há apenas o anúncio.

A administração da cidade se distrai com as luzes do palco enquanto os bastidores da cidade apodrecem.

A decisão do prefeito pode até render aplausos momentâneos, mas a cidade não vive de aplauso. Vive de gestão.

Catraca livre é simpático. Populismo também costuma ser.

Mas simpatia custa caro quando se paga com o dinheiro do contribuinte, que deve ser aplicado com critério e na melhor gestão da cidade.

Menos domingos e feriados grátis e mais semana funcionando. Porque catraca livre pode parecer bom, mas cidade livre do abandono é muito melhor.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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