A Savassi não é um pedaço qualquer de Belo Horizonte. Ela é vitrine, símbolo, ponto de encontro, eixo de circulação, consumo, moradia, gastronomia e trabalho. É um dos lugares em que a cidade se mostra para si mesma e para quem chega. Por isso mesmo, quando a Savassi se deteriora, não é só um bairro que perde charme. É a própria ideia de cidade viva que começa a se romper.
O relato de moradores, comerciantes, lojistas e frequentadores é duro: sujeira, falta de varrição, deficiência na coleta de lixo, sensação crescente de insegurança, furtos, arrombamentos de lojas, intimidação e agressividade no espaço público. O ambiente vai se tornando menos acolhedor, menos convidativo, menos civilizado. E cidade hostil tem uma péssima mania, ela não apenas incomoda; ela afasta.
Uma cidade que vive da economia terciária
Isso fica ainda mais grave quando se olha para a estrutura econômica de Belo Horizonte. A capital mineira tem perfil claramente terciário. Em publicações da Prefeitura e da CDL/BH, o setor de comércio e serviços aparece com 84,35% da formação do PIB municipal; em outro levantamento oficial do município, serviços financeiros e imobiliários, administração pública e comércio aparecem entre as atividades que mais empregam trabalhadores formais; e, no dado mais recente do IBGE, Belo Horizonte aparece entre os municípios que mais ganharam participação no PIB nacional, chegando a 1,2% do total do país.Belo Horizonte vive de serviços, e o comércio é uma peça central dessa engrenagem.
Por isso, a deterioração da Savassi não é um detalhe urbano, nem uma queixa de condomínio gourmetizada. É um problema econômico de primeira grandeza. Quando um polo importante de comércio e serviços começa a perder qualidade urbana, ele começa também a expulsar fluxo, consumo, permanência e investimento. As pessoas deixam de passear, o cliente encurta a visita, o morador evita circular, o lojista perde a atratividade, o ambiente de rua se enfraquece e, pouco a pouco, a vida vai sendo drenada do lugar. O abandono urbano, quando se instala, funciona como um imposto invisível sobre a atividade econômica.
O peso das responsabilidades
E aí é preciso falar de responsabilidade sem cair no teatro cômodo do empurra-empurra. O município tem obrigação direta sobre o que é interesse local e sobre a organização dos serviços públicos urbanos; e a Política Nacional de Resíduos Sólidos também estabelece responsabilidade compartilhada no manejo do lixo, envolvendo poder público, comerciantes e consumidores. Ou seja: limpeza urbana, varrição, coleta, ordenamento e zelo com o espaço não são favores administrativos. São deveres objetivos.
Na segurança, o dever central é do Estado. A Constituição coloca a segurança pública como dever estatal voltado à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Quando furtos, arrombamentos e medo passam a fazer parte da rotina, não há sofisticação urbanística que salve a experiência da rua. O comércio não floresce onde o medo vira hábito.
Já a questão das pessoas em situação de rua exige um mínimo de honestidade intelectual. É covarde fingir que não há conflito, intimidação e degradação do ambiente urbano em vários pontos. Mas também é raso tratar somente como caso de polícia. A assistência social, pela própria lógica legal brasileira, é direito do cidadão e dever do Estado, realizada por um conjunto integrado de ações públicas e da sociedade. Isso exige articulação entre prefeitura, governo estadual e União. Sem isso, sobra o pior dos mundos, nem acolhimento eficaz, nem proteção suficiente, nem recuperação do espaço público.
O que a Savassi expõe é uma falha em cadeia. A prefeitura não entrega o básico da zeladoria com a consistência necessária. O Estado não assegura a presença de segurança capaz de devolver confiança. A rede social não consegue enfrentar com firmeza e humanidade os casos mais graves de vulnerabilidade e desorganização urbana. E a sociedade, muitas vezes, oscila entre a indiferença cínica e a indignação de ocasião.
O custo é caro
Uma capital cuja riqueza depende majoritariamente de comércio e serviços não pode tratar com indiferença a degradação de um de seus pólos mais emblemáticos. Porque ali não está em jogo apenas a estética da esquina ou o desconforto de quem passa. Está em jogo a capacidade de Belo Horizonte preservar ambientes que sustentam emprego, circulação de renda, arrecadação e convivência.
Savassi degradada não é apenas Savassi feia. É Savassi menos produtiva, menos segura, menos habitável e menos desejada. É a economia sendo empurrada para dentro do carro, para trás das grades, para longe da calçada. E quando a rua perde vitalidade, a cidade perde a alma, e perde dinheiro.
No fim das contas, a pergunta é simples: Belo Horizonte quer proteger seus polos de comércio e serviços ou quer assistir, de braços cruzados, à erosão lenta da própria vida urbana?
Porque o abandono, quando chega ao coração da cidade, nunca fica só na paisagem. Ele entra na economia, corrói a convivência e expulsa o futuro.
