Pesquisas eleitorais são como o espelho das manhãs frias: mostram o que está ali, mesmo quando preferimos não ver. O Brasil acordou com um desses reflexos incômodos: metade da população desaprova o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e quase metade defende que ele não deveria seguir no Planalto. Em termos aritméticos, é o empate técnico entre a aprovação (47%) e a desaprovação (50%). Em termos políticos, é o retrato de um país dividido entre crença e cansaço.
Ao longo de 2025, Lula fez o que sempre soube fazer: ocupou espaços, administrou narrativas, buscou protagonismo internacional, tensionou com o Congresso sem rompimento e manteve certo equilíbrio macroeconômico, ainda que à custa de uma política fiscal que gera mais dúvidas do que confiança. O problema é que a política não se sustenta apenas no discurso e na diplomacia. Ela precisa se sustentar no cotidiano das pessoas. E o cotidiano anda curto, caro e desconfiado.
O preço da cesta básica da política
Quando um presidente vê cair sobre si índices negativos em áreas como segurança, economia e serviços essenciais, não é a pesquisa que fala, e sim o carrinho do supermercado, o botijão de gás, o preço do transporte e a sensação de insegurança na calçada. O Brasil não é um país de abstrações, é um país de cálculo doméstico, de contas pagas com suor e de expectativas muito concretas sobre o papel do Estado.
Metade do país dizendo que Lula não merece continuar é mais do que desaprovação, é frustração. E frustração é a emoção mais perigosa da política, porque ela não se converte automaticamente em apoio à oposição, ela se converte, antes, em desalento. E o desalento, quando encontra um discurso minimamente articulado, vira voto.
A economia explica, mas não salva
A equipe econômica de Lula tem tentado vender a ideia de que o pior já passou, que a inflação está controlada, emprego resiliente, crescimento moderado e um projeto de arcabouço fiscal que prometia, mas não entregou modernidade. O problema é que a expectativa econômica não coincide com a realidade emocional: o índice se estabiliza, mas a sensação não melhora. Os salários perdem poder de compra, apesar do discurso oficial tentar lhe atribuir densidade.
Esse paradoxo brasileiro, números sorridentes e humor carrancudo, cria um problema de governabilidade que não se resolve com malabarismos retóricos. É preciso surtir efeito real na vida das pessoas. O governo fala de investimentos, mas a população fala de poder de compra. O governo cita o PIB, o eleitor cita o açougue, o supermercado, a padaria e a farmácia.
O centro da mesa virou campo minado
Outro dado incômodo para o Planalto é que a desaprovação não vem apenas do eleitor bolsonarista. Ela permeia parte do centro pragmático, que não necessariamente enxerga vantagem na volta ao radicalismo, mas começa a perder a paciência com a lentidão das reformas, com a falta de agenda liberal e com a ausência de sinalização de futuro. Lula vive um paradoxo raro: é questionado pela esquerda, pela direita e pela tecnocracia, ainda que por razões distintas.
A metade que aprova o governo enxerga em Lula o estadista anti-barbárie, defensor das instituições, moderador de crises e garantidor de um certo retorno ao “normal”. Mas mesmo entre esses há quem espere mais. A mitologia do “Lula habilidoso” tem prazo de validade eleitoral, e não eterna imunidade.
Pesquisa não é afirmação, é fotografia. Mas, se essa fotografia diz algo, é que o país está em disputa, política, narrativa e psicológica. Lula não está derrotado, mas tampouco está confortável. A oposição não ganhou nada, mas recebeu um sopro de oportunidade. E o eleitor, como sempre, segue na única posição que realmente importa, preparando-se para o dia do voto.
Se o Palácio não ouvir esses números agora, ouvirá mais alto em 2026. Eleitor pode não ter boa memória, mas tem senso de humor volátil e errático.
