A infidelidade partidária em Minas já não precisa mais ser escondida. Agora ela pode ser praticada à luz do dia, com telefonema para a direção nacional e pedido de autorização.
O vereador de Belo Horizonte Vile Santos, do PL, quer apoiar Cleitinho Azevedo, candidato do Republicanos ao Governo de Minas, embora seu próprio partido tenha lançado Flávio Roscoe.
E a solução encontrada para esse pequeno inconveniente chamado coerência partidária foi ligar para Flávio Bolsonaro e pedir licença para abandonar o candidato da própria legenda. É uma espécie de adultério político com autorização prévia do cônjuge.
A cena é politicamente extraordinária.
Um vereador do PL pede licença ao candidato do PL à Presidência da República para não apoiar o candidato do PL ao Governo de Minas.
É infidelidade com pedido de bênção.
Vile Santos tem relação próxima com Cleitinho e já defendia dentro do bolsonarismo mineiro uma composição com o senador. Pode, evidentemente, considerar Cleitinho o melhor candidato. Pode ter razões políticas, eleitorais ou pessoais para isso.
Mas existe uma pergunta que antecede todas essas justificativas: para que serve o partido político?
Porque, se o partido escolhe um candidato, oficializa esse nome, monta chapa, organiza campanha e, ainda assim, seus próprios filiados podem simplesmente escolher outro candidato, então a filiação começa a parecer muito mais uma formalidade eleitoral do que uma identidade política.
E o caso de Vile Santos não está sozinho.
Em Frei Gaspar, no Vale do Rio Doce, a prefeita Jackelini Pereira do Nascimento, filiada ao PT, protagonizou situação semelhante ao aparecer numa composição eleitoral defendendo Lula para presidente e Cleitinho para governador.
PT em Brasília. Republicanos em Minas. Tudo na mesma fotografia política.
De um lado, um vereador do PL querendo Flávio Bolsonaro para presidente e Cleitinho para governador.
Do outro, uma prefeita do PT querendo Lula para presidente e Cleitinho para governador.
Cleitinho conseguiu uma façanha interessante: tornou-se ponto de encontro de políticos de partidos que, no plano nacional, passam boa parte do tempo dizendo que não conseguem sequer sentar à mesma mesa.
O problema, no entanto, é muito maior do que Cleitinho, Vile Santos ou Jackelini.
Eles são personagens de um sistema em que a identidade partidária foi sendo progressivamente substituída pela conveniência eleitoral.
O partido virou uma espécie de CNPJ da candidatura.
É necessário para registrar o político, acessar fundo partidário, fundo eleitoral, tempo de propaganda, estrutura jurídica e organização de campanha.
Mas, passada a convenção, a coerência programática parece opcional.
Vereadores, prefeitos, deputados e senadores precisam ter liberdade para discordar de suas direções.
A divergência faz parte da democracia.
Mas existe uma enorme distância entre divergência e completo desapego partidário.
Se um político escolhe uma legenda para disputar a eleição, beneficia-se daquela estrutura e depois trabalha abertamente pela derrota do candidato escolhido pelo próprio partido, alguma coisa está errada.
Ou está certa demais para os padrões da política brasileira.
Porque essas escolhas raramente são aleatórias.
Elas passam por relações pessoais, influência regional, conveniência eleitoral, alianças municipais, acesso a governos, perspectiva de emendas e expectativa de poder.
É aí que entramos no terreno do fisiologismo.
Não estou falando de crime.
É importante fazer essa distinção.
Falo do fisiologismo político clássico: a adesão orientada pela conveniência do momento, e não por programa, ideologia ou compromisso partidário.
Hoje o aliado está aqui. Amanhã ali.
Depende da eleição, da cidade. Do candidat9 que tem mais chance de ganhar.
E Cleitinho parece compreender muito bem essa fragilidade.
Sua campanha vem apostando numa estratégia de aproximação direta com prefeitos e lideranças municipais, sem necessariamente depender de acordos formais entre partidos.
É uma estratégia eleitoralmente inteligente.
Isso revela o estado de decomposição do sistema partidário.
O candidato deixa de buscar o partido.
Busca o prefeito.
O prefeito deixa de seguir a legenda.
Segue o candidato que considera mais conveniente.
O vereador deixa de apoiar o nome lançado pela própria sigla.
Segue a relação pessoal.
E o partido fica no meio, quase como uma placa pendurada na porta.
O resultado é uma política sem fronteiras programáticas claras.
O adversário nacional pode ser aliado estadual. O aliado estadual pode ser adversário municipal.
A esquerda pode apoiar candidato da direita no estado. A direita pode abandonar o próprio candidato para apoiar alguém de outra legenda.
O eleitor precisa acompanhar quase uma tabela de campeonato para entender quem está com quem.
Talvez por isso tanta gente diga que não consegue identificar diferenças reais entre muitos partidos brasileiros.
A explicação pode ser bastante simples.
Em alguns casos, nem os próprios políticos parecem preocupados em demonstrá-las.
Vile Santos pode apoiar Cleitinho.
Jackilini pode apoiar Cleitinho.
E Cleitinho pode, naturalmente, celebrar esses apoios.
Tudo isso faz parte do jogo eleitoral.
Mas é impossível observar esses movimentos sem reconhecer o que eles dizem sobre nosso sistema político.
Quando o partido lança um candidato e seus próprios filiados procuram autorização para apoiar outro, a legenda perdeu mais do que disciplina.
Perdeu sentido.
Se candidatos, prefeitos e vereadores querem tanta independência dos próprios partidos, por que o Brasil continua proibindo candidaturas verdadeiramente independentes?
A independência em relação ao partido já virou rotina política.
O político precisa do partido para entrar na eleição.
Depois que entra, frequentemente passa a agir como se ele não existisse.
No caso de Vile Santos, isso chega quase à caricatura.
O PL tem candidato.
O vereador prefere outro.
E pretende pedir autorização ao candidato presidencial do partido para apoiar o adversário.
Depois disso, talvez nem seja correto falar em infidelidade partidária.
Para haver infidelidade, primeiro seria preciso existir alguma fidelidade.
