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Lula e a doença do poder

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Presidente Lula (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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O problema de Lula hoje já não é apenas político. É psicológico, simbólico e institucional. O presidente dá sinais cada vez mais claros de que não consegue mais distinguir o exercício legítimo da autoridade democrática do apego pessoal ao poder. E quando um governante perde essa fronteira, o país inteiro começa a pagar a conta.

Há muito tempo Lula deixou de ser apenas um líder político. Tornou-se um personagem convencido de que sua permanência no centro do palco é uma necessidade nacional. Esse é o ponto mais grave. Não se trata apenas de vaidade, embora ela exista em doses generosas. Trata-se de uma deformação típica de líderes que passam tempo demais cercados por aplauso, reverência e medo. Aos poucos, deixam de aceitar o contraditório, passam a tratar crítica como afronta e começam a se enxergar não como mandatários temporários, mas como peças indispensáveis da história.

A democracia adoece

Democracias não adoecem apenas com golpes. Elas também adoecem com lideranças que se tornam excessivamente enamoradas de si mesmas.

Lula parece ter chegado a esse estágio. Governa como alguém que já não admite a hipótese da própria fadiga. Age como se sua biografia ainda bastasse para justificar seus erros, suas insistências e sua incapacidade de compreender a exaustão crescente de parte do país. 

Há uma diferença entre experiência e obsolescência. Lula, hoje, parece confundir as duas coisas. E o que talvez seja ainda pior, parece achar que o Brasil é obrigado a continuar orbitando ao redor de sua figura, de seu discurso e de seu projeto pessoal de permanência.

Lula não sofre apenas desgaste de governo. Sofre desgaste de figura. Há um cansaço acumulado diante de um líder que continua falando como se ainda fosse novidade, como se ainda encarnasse ruptura, como se ainda tivesse o direito automático de monopolizar a representação dos pobres, do povo, da democracia e da sensibilidade social. Não tem. Esse monopólio moral já não convence como antes. E o presidente parece não perceber isso, ou percebe e se recusa a aceitar.

Um estilo velho de governar

Seu governo tem dado repetidas demonstrações de envelhecimento político. Não apenas pela idade do presidente, o que seria argumento raso e até injusto, mas pela dificuldade de formular respostas novas para um país novo. O Brasil mudou. O humor social mudou. O eleitor mudou. A velocidade da insatisfação mudou. A paciência do cidadão diminuiu. Mas Lula continua recorrendo ao mesmo manual. Polarização, discurso de palanque, memória afetiva, culpados externos e um permanente esforço para transformar qualquer cobrança em perseguição.

Quando a economia não responde como prometido, a culpa é de fatores externos. Quando a popularidade balança, a culpa é da comunicação. Quando o governo erra, a culpa é da herança recebida, do Banco Central, do Congresso, da imprensa, do mercado ou da extrema direita. O que chama atenção é a impressionante dificuldade de Lula e de seu entorno em admitir o óbvio: o governo também falha porque governa mal em áreas decisivas, comunica mal, escolhe prioridades ruins e se agarra a uma concepção ultrapassada de liderança.

O presidente parece acreditar que sua presença ainda basta como fator de estabilidade. Não basta. O país já não quer apenas um narrador de si mesmo. Quer resultado, quer serenidade, quer capacidade de coordenação, quer senso de urgência. E é justamente aí que Lula tropeça. Em muitos momentos, governa menos como chefe de Estado e mais como veterano em campanha permanente. Há sempre um inimigo a ser apontado, uma culpa a ser deslocada, uma frase de efeito a ser lançada, um palanque a ser montado. O problema é que a vida real não cabe no comício.

O Lulismo transformado em doença

Mais grave ainda é o efeito institucional dessa concentração em torno de Lula. O lulismo, depois de tantos anos, não conseguiu produzir renovação de verdade. Não construiu sucessão sólida. Não formou uma alternativa nacional com densidade própria. Não preparou um campo político capaz de caminhar sem a tutela do chefe. Tudo continua voltando para Lula. Tudo depende de Lula. Tudo precisa de Lula. Isso pode até render controle interno, mas revela uma pobreza estrutural, a incapacidade de um grupo político de se imaginar sem o seu fundador.

Em uma democracia madura, isso seria sinal de fraqueza. No Brasil, ainda se vende como prova de força. Não é. É dependência. E a dependência política em torno de uma figura messiânica nunca termina bem. Porque substitui projeto por culto, instituição por devoção, debate por lealdade pessoal.

Lula parece gostar desse lugar. Parece confortável na posição de último fiador da civilização, último intérprete do povo, último nome capaz de impedir o caos. Essa encenação talvez ainda funcione para uma parcela fiel de sua base, mas não resolve o problema central: um país não pode continuar prisioneiro da necessidade emocional de um líder de se manter imprescindível.

Esse é o lado mais tóxico do apego ao poder. O governante deixa de servir ao país e passa a usar o país como justificativa para a própria permanência. Já não é a nação que orienta o projeto; é o projeto pessoal que tenta se impor como destino da nação. A diferença parece sutil, mas é devastadora. A partir daí, qualquer alternância passa a ser tratada como ameaça, qualquer crítica vira sabotagem e qualquer sinal de desgaste é lido como injustiça histórica.

Não se pode negar a história

Lula já foi símbolo de renovação. Já foi ruptura social, mobilidade política e esperança popular. Negar isso seria desonesto. Mas a honestidade exige dizer também que líderes históricos podem se transformar em obstáculos históricos. E talvez seja exatamente esse o risco atual. Não porque Lula tenha perdido relevância, mas porque passou a se comportar como alguém incapaz de admitir que sua relevância não lhe confere direito perpétuo ao centro do poder.

O vício pelo poder

O Brasil não precisa de líderes apaixonados pelo próprio reflexo. Precisa de dirigentes capazes de compreender o limite, aceitar a erosão natural do tempo e respeitar a lógica básica da República: ninguém é dono do cargo, ninguém é dono da democracia, ninguém é dono do futuro. O poder é transitório. Quem não entende isso deixa de ser estadista e começa a agir como viciado.

E é justamente essa a impressão que Lula hoje transmite a uma parte cada vez maior do país: a de um homem que não quer apenas governar, mas continuar sendo o eixo de tudo. A de um político que não sabe sair do centro. A de um líder que trocou a responsabilidade de governar pela compulsão de permanecer.

Quando isso acontece, a decadência deixa de ser apenas eleitoral. Ela se torna moral e institucional.

Porque um governante que já não reconhece o próprio limite deixa de ser solução. Passa a ser problema.

E quando o poder vira vício, a democracia vira refém.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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