A eleição para o Governo de Minas começa nesta sexta-feira (28/08) em uma fase diferente. Até aqui, Cleitinho Azevedo foi o grande vencedor da etapa da exposição espontânea, das redes sociais, das viagens pelo interior e da política feita fora dos formatos tradicionais. Liderou pesquisas, ocupou o debate público e, mesmo cercado por uma candidatura marcada por idas e vindas, conseguiu preservar uma vantagem confortável.
Agora começa outra eleição.
O horário eleitoral no rádio e na TV
A campanha política entra agora em uma nova fase que pode mudar a natureza da disputa.
Mateus Simões passa a ter quase três minutos por programa para fazer aquilo que ainda não conseguiu fazer de maneira suficiente: transformar governo em candidatura.
Patrus Ananias terá Lula como principal ativo.
Flávio Roscoe poderá finalmente tentar converter o peso do PL, de Flávio Bolsonaro e de Nikolas Ferreira em conhecimento próprio. Gabriel Azevedo tentará vender conteúdo e preparo.
Kalil, mesmo com tempo menor, continuará apostando em conhecimento prévio e confronto.
E Cleitinho?
Cleitinho continuará sendo Cleitinho.
Esse é, simultaneamente, seu maior ativo e seu maior risco.
A ausência nos debates
Cleitinho, o líder das pesquisas, decidiu reduzir sua presença em debates e concentrar energia onde se sente mais confortável. Ele continuará marcando presença no interior, com o contato direto, usando as mídias sociais e os eventos em que controla melhor a própria mensagem.
É uma decisão eleitoralmente racional.
Quem está muito na frente tem mais a perder do que a ganhar num debate. O problema é que eleição não é apenas cálculo de risco.
Quem pede para governar Minas precisa aceitar ser confrontado. Debate existe justamente para retirar do candidato o direito de escolher a pergunta, o tempo, o enquadramento e o corte do vídeo.
Na rede social, o político monta o palco. No debate, o palco monta o político.
E os adversários já perceberam isso.
A tendência é que a ausência de Cleitinho seja explorada cada vez mais como argumento sobre preparação, capacidade de enfrentamento e domínio dos temas de governo.
Até aqui, ele conseguiu transformar vários ataques em reforço da própria imagem de outsider. O desafio agora será provar que liderança eleitoral também vem acompanhada de consistência administrativa.
A volta de Aécio
A disputa pelo Senado será completamente reorganizada pela volta de Aécio Neves.
A operação está montada. Marcelo Heringer e Gustavo Galassi já deixaram as vagas do senado na campanha do PDT/PSDB. Aécio, pressionado por dirigentes, prefeitos e aliados, encomendou pesquisas e, hoje às 14 horas, em entrevista coletiva, assume a candidatura com uma linha relativamente clara. Apresentar-se como defensor de Minas fora da polarização entre Lula e bolsonarismo.
Essa estratégia é politicamente interessante.
Aécio entra pela chapa de Alexandre Kalil, mas pode tentar construir uma candidatura muito maior do que a própria chapa. A ideia de “defender Minas” contra Brasília é antiga, poderosa e profundamente mineira.
Minas sempre gostou de se imaginar como uma espécie de consciência moderadora da República. Às vezes com razão, mas às vezes com uma dose generosa de vaidade histórica.
Aécio conhece essa linguagem melhor do que quase ninguém.
Ao tentar se posicionar entre Marília Campos, identificada com Lula, e Domingos Sávio, ligado ao bolsonarismo, pode abrir um corredor para um eleitor que não deseja transformar o voto para o Senado numa extensão automática da disputa presidencial.
E isso pode atingir especialmente Marcelo Aro.
Aro também tenta construir uma candidatura com forte capilaridade municipal e alguma independência em relação aos polos nacionais. A entrada de Aécio ocupa precisamente esse espaço.
Mas há uma questão ainda mais interessante. Aécio será candidato de Kalil ou candidato de Aécio?
Essa resposta pode fazer enorme diferença.
Se construir uma campanha autônoma, poderá receber segundo voto de eleitores de Simões, Cleitinho, Roscoe e até Patrus. Em outras palavras: pode entrar numa chapa e tentar circular por várias.
É a política mineira exercendo uma de suas especialidades históricas: estar dentro sem necessariamente ficar preso.
E tudo isso acontece num momento em que a própria estrutura partidária de Minas está cada vez mais frouxa.
Prefeitos de partidos apoiam candidatos adversários.
Integrantes do PL fazem campanha por Cleitinho enquanto o partido possui Roscoe. Cidadania apoia Simões embora esteja federado ao PSDB, que caminha com Kalil.
O Republicanos oficializa uma candidatura e seus aliados fazem pontes com vários candidatos ao Senado.
As atas organizam uma eleição. Os políticos fazem outra.
É por isso que esta sexta-feira representa uma mudança real.
A televisão começa a colocar ordem, ou pelo menos aparência de ordem, nesse caos.
Cada candidato terá alguns segundos ou minutos para dizer ao eleitor quem é, o que pretende fazer e por que merece governar Minas.
Para Simões, o desafio é transformar estrutura em voto.
Para Patrus, converter Lula em Patrus.
Para Roscoe, fazer o eleitor descobrir que existe um candidato entre Bolsonaro e a urna estadual.
Para Kalil, recuperar protagonismo.
Para Gabriel, transformar conteúdo em musculatura eleitoral.
E para Cleitinho, talvez o desafio mais complexo: continuar sendo favorito quando a eleição deixar de ser apenas sobre quem é mais conhecido e começar a ser sobre quem parece mais preparado.
O teste de realidade
A campanha mineira viveu até agora uma fase em que bastidor, alianças e improvisos dominaram as manchetes.
A partir desta sexta-feira, começa o teste de realidade, com menos reunião em sala fechada e mais eleitores diante da televisão.
Menos articulação sobre quem apoia quem. Mais cobrança sobre quem pretende fazer o quê.
E isso tende a tornar a eleição muito mais interessante.
Porque a primeira fase mostrou quem conseguiu largar na frente.
A segunda começará a mostrar quem realmente sabe correr.