No Mangueirão, 52 mil pessoas buscavam paz. Na vida, tantas famílias também procuram a mesma coisa, mas nem sempre conseguem encontrá-la sem transformar seus conflitos em batalhas.
Mais de 1.600 quilômetros de distância. Uma viagem de avião até o Pará. Um estádio lotado. 52 mil pessoas reunidas no Mangueirão para a Vigília da Quaresma do Arcanjo Miguel.
E, no meio daquela multidão, uma experiência de fé acabou trazendo uma reflexão que vai muito além da religião.
Durante a missa, a comunhão foi levada até as arquibancadas. Na pista, os fiéis formaram filas. Voluntários, diáconos e padres caminhavam entre as pessoas. Havia também filas para a confissão.
Aquela cena dizia muito.
Havia milhares de pessoas procurando um lugar de paz.
E talvez seja justamente isso que tantas famílias estejam procurando quando chegam a um escritório de advocacia: paz.
Na advocacia familiarista, muitas vezes chegam histórias marcadas por mágoas, ressentimentos, decepções e palavras que foram ditas no calor de uma discussão. Casais que já não conseguem permanecer juntos. Pais e mães que transformaram a separação em uma disputa. Filhos que, sem terem escolhido o conflito, acabam no meio dele.
Mas uma separação não precisa transformar antigos companheiros em inimigos.
Um divórcio pode terminar um casamento sem terminar o respeito.
Uma disputa pela guarda pode ser resolvida sem transformar os filhos em mensageiros, testemunhas ou armas.
Uma questão de alimentos pode ser tratada sem humilhação.
E uma família que deixou de existir como casal ainda pode continuar existindo como família.
Talvez seja essa uma das maiores responsabilidades de quem atua com Direito de Família: lembrar que, por trás de cada processo, existem pessoas que continuarão ligadas umas às outras de alguma maneira.
Naquela noite no Mangueirão, uma frase do Frei Gilson ficou ecoando: “Vem me saciar, da sua presença, Jesus.”
Para quem tem fé, a frase fala diretamente à alma. Para quem não tem, talvez possa ser compreendida de outra maneira: todos nós buscamos algo que nos ajude a atravessar os momentos difíceis sem perder aquilo que existe de melhor em nós.
E talvez seja isso que uma família em conflito mais precise.
Não de alguém que diga quem ganhou.
Mas de alguém que ajude a encontrar um caminho.
A advocacia familiarista não deveria ser apenas sobre vencer processos. É também sobre evitar que pessoas que um dia se amaram destruam, durante uma separação, tudo aquilo que ainda precisarão preservar: respeito, história, vínculos e, principalmente, a segurança emocional dos filhos.
Naquela noite, 52 mil pessoas estavam juntas em busca de Deus.
Talvez as famílias também precisem aprender a buscar juntas,mesmo quando já não conseguem permanecer juntas.
Porque, às vezes, a verdadeira vitória não é derrotar o outro.
É conseguir seguir em frente sem destruir quem um dia fez parte da nossa história.
E quando existe fé em Deus, esse caminho pode se tornar mais leve. Não porque os problemas desapareçam, nem porque as diferenças deixem de existir, mas porque a fé nos lembra que é possível escolher o perdão em vez da mágoa, o diálogo em vez da guerra e o amor em vez do ressentimento.
Talvez seja essa uma das maiores lições daquela noite no Mangueirão: quando colocamos Deus no caminho, até os recomeços mais difíceis podem encontrar um pouco mais de esperança, coragem e paz.
