Ajuste fiscal não é tesoura, é bisturi

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A crise fiscal do Brasil não é só de receita ou despesa isolada, é estrutural (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

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Gostam de tratar “ajuste fiscal” como sinônimo de tesoura cega, passando no orçamento, cortando sem ver onde dói, sem saber o que é músculo, o que é gordura e o que é coração. Mas ajuste fiscal não é cortar gastos. Ajuste fiscal é rearranjar gastos. É adequar despesas. É ter a coragem de encarar o orçamento de frente e perguntar: estamos gastando com o que precisamos ou com o que nos acostumamos a gastar?

Gastar menos por gastar menos é fácil. Difícil é gastar melhor. Difícil é revisar privilégios, subsídios sem sentido, renúncias fiscais que não geram retorno. Difícil é analisar, linha por linha, e tirar o desperdício, não o essencial.

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Fala-se muito em “ajuste” como se fosse castigo. Mas, na verdade, ajuste é maturidade. É saber que o cobertor é curto, mas que dá para cobrir os pés e o peito se você parar de pagar caro pelo que não precisa e se ajustar à realidade de sua receita.

E é aqui que mora o ponto crucial. O governo precisa observar, com a atenção de quem conta cada gota de chuva antes da seca, como esses custos crescem sozinhos. Porque eles crescem. Salários crescem. Pendências judiciais crescem. Subsídios crescem. Gastos obrigatórios crescem num ritmo que parece ter vida própria, empurrando as contas públicas para um buraco cada vez mais fundo se não houver coragem para intervir.

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E sejamos claros. Ajuste fiscal não é só o quanto se gasta, mas o que o gasto gera de retorno mensurável. É sobre metrificar resultados, e não apenas brigar com números no papel. É sobre olhar para cada real gasto e perguntar: este gasto gera retorno? Incentiva a produtividade? Ajuda a manter as contas equilibradas sem sufocar a economia?

Afinal, despesas obrigatórias já são 90% do orçamento. Não adianta ser “cirúrgico” no resto e fechar os olhos para onde realmente precisa de bisturi. É ali, nas obrigatórias, que mora o pulo do gato: eficiência, qualidade e retorno para a sociedade. Em mais um texto recorro ao que diz o economista Gustavo Andrade: “Só voltar o piso da educação e da saúde a crescer com a inflação, como acontecia até 2022, já é um golaço”. Porque gastar mais sem retorno é só ilusão cara.

A crise fiscal do Brasil não é só de receita ou despesa isolada, é estrutural. Há estados pagando salários inchados de penduricalhos enquanto faltam verbas para professores e enfermeiros. Municípios com câmaras inchadas de cargos comissionados enquanto a creche espera tinta para o chão. Um governo federal que ainda insiste em políticas ineficazes enquanto empurra a conta para o Tesouro, para os juros e para o contribuinte.

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Ajuste fiscal não é ignorar os vulneráveis, é priorizá-los. Não é precarizar serviços, é melhorá-los com os recursos possíveis. Não é abandonar investimentos, é garantir que eles sejam feitos com responsabilidade. É trocar o populismo do agora pelo planejamento realista. É substituir o improviso por um orçamento crível. É trocar o discurso fácil pela gestão difícil.

Porque, no fundo, ajuste fiscal é gestão. É política pública com foco, coragem e compromisso com o Brasil que vai além do próximo ciclo eleitoral. É responsabilidade. E se tem algo que o Brasil precisa mais do que discurso, é responsabilidade.

Porque ajuste fiscal não é a tesoura que corta. É o bisturi que salva.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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