A Seleção Brasileira deixou a Copa do Mundo antes do que esperava e, com isso, encurtou também o recreio da política. Os partidos planejavam atravessar julho fazendo suas costuras em silêncio, protegidos pelo barulho dos estádios e pela atenção do eleitor concentrada na bola. O Brasil saiu de campo, a arquibancada esvaziou e os políticos mineiros descobriram que o calendário eleitoral não concede prorrogação.
No PT o cenário começou a mudar
Na esquerda, o PT parece finalmente ter encontrado um nome para chamar de seu. Depois de insistir com seus quadros mais conhecidos, o partido conseguiu abrir uma porta com o deputado federal Patrus Ananias. Patrus aceita considerar a candidatura ao governo de Minas, mas condiciona a decisão final a uma conversa direta com o presidente Lula. Ele pretende ouvir do presidente não apenas um convite, mas as garantias políticas necessárias para enfrentar uma campanha estadual difícil e tardia.
Patrus está certo.
Ninguém com sua trajetória deveria entrar numa campanha apenas para montar um palanque destinado a receber Lula em Minas. Uma candidatura ao governo não pode ser tratada como peça auxiliar da disputa presidencial. Precisa de estrutura partidária, recursos financeiros, alianças, nominatas competitivas para deputado estadual e federal, presença nos municípios e, sobretudo, compromisso real da direção nacional.
O problema é que a candidatura de Patrus, embora respeitável, nasce com aparência de convocação de emergência.
Ele tem história administrativa, identidade política e reconhecimento. Foi prefeito de Belo Horizonte, ministro e construiu uma longa trajetória parlamentar. O que lhe falta não é currículo. Falta tempo. O PT chega às vésperas das convenções procurando um candidato depois de não conseguir convencer Marília Campos, Rodrigo Pacheco ou outro nome capaz de liderar uma aliança mais ampla.
Patrus pode oferecer dignidade política à chapa. Mas dignidade, sozinha, não organiza campanha em 853 municípios.
Na direita, a situação é ainda mais embaralhada
Cleitinho Azevedo continua adiando a decisão sobre disputar ou não o governo. Primeiro seria depois da Copa. Agora, a conversa já avança para agosto. O senador afirma que não precisa antecipar o anúncio porque lidera pesquisas. É uma confiança compreensível, mas perigosa.
Pesquisa é fotografia. Campanha é filme, e filme precisa de elenco, roteiro, financiamento, produção e distribuição.
Não basta aparecer bem nas sondagens. Para transformar popularidade em voto, Cleitinho precisa de partidos, tempo de propaganda, recursos, chapas proporcionais, prefeitos, vereadores, lideranças regionais e organização nos municípios. Ao tentar preservar todas as alternativas, corre o risco de descobrir que algumas delas já encontraram outro caminho.
A situação ficou ainda mais delicada com o movimento nacional do Republicanos. O partido negou ter fechado apoio à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e informou que as primeiras consultas internas identificaram frustração com o nome do senador do PL e preferência pela neutralidade. O apoio a Lula está descartado, mas a aliança com Flávio também deixou de ser automática, e isso repercute diretamente em Minas.
Uma composição entre Cleitinho, Republicanos e PL parecia natural porque ofereceria ao candidato mineiro o palanque presidencial de Flávio Bolsonaro e garantiria ao PL uma candidatura competitiva no segundo maior colégio eleitoral do país. Agora, porém, as direções nacionais e estaduais podem caminhar em ritmos diferentes.
Os movimentos do PL
Enquanto Cleitinho observa o tabuleiro, o PL começou a movimentar suas próprias peças.
O partido marcou convenção estadual para 23 de julho e avançou na construção de uma candidatura própria ao governo. Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim, aparece como favorito. O PL também já tem Domingos Sávio como pré-candidato ao Senado e autorizou Medioli a ampliar suas agendas pelo interior. A demora de Cleitinho prejudicou o planejamento da legenda e fortaleceu o grupo que defende uma chapa própria.
Em política, deixar todas as portas abertas pode parecer esperteza. O problema é que, enquanto o candidato admira o corredor, os outros começam a trancar as portas.
As dificuldades de Mateus
Mateus Simões enfrenta outro tipo de dificuldade. Sua candidatura é a mais organizada, mas a chapa continua incompleta. O PSD precisa resolver a disputa pelas vagas ao Senado, acomodar Marcelo Aro e administrar a pretensão de Carlos Viana de tentar a reeleição. Nos bastidores, dirigentes procuram alternativas para liberar espaço e ampliar as possibilidades de aliança.
Caso o PL rompa definitivamente com Cleitinho, uma aproximação com Mateus poderia voltar à mesa, incluindo uma composição que reservasse espaço para Domingos Sávio. Mas esse é um casamento complicado, há muitos pretendentes, poucas vagas na fotografia e quase ninguém disposto a carregar o buquê sem garantia de subir ao altar.
Os movimentos do centro
Jarbas Soares tenta ganhar musculatura. O pré-candidato do PSB se reuniu com o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, e pediu apoio da Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. A federação trabalha, neste momento, com a possibilidade de lançar candidatura própria ou apoiar Jarbas.
O movimento é importante porque a federação oferece recursos, tempo de televisão e presença municipal. Para Jarbas, ainda pouco conhecido fora dos círculos institucionais, essa estrutura seria indispensável. Para Álvaro Damião, a negociação aumenta seu peso no tabuleiro estadual e preserva a possibilidade de influenciar uma candidatura competitiva.
Há ainda Gabriel Azevedo, pré-candidato do MDB, que pretende apresentar seu programa de governo. É uma iniciativa que deveria ser banal numa eleição, mas que começa a parecer revolucionária diante do silêncio programático dos demais.
Para onde querem levar Minas?
Minas tem candidatos discutindo vice, Senado, palanque presidencial, fundo eleitoral, tempo de televisão e alianças. O que praticamente não apareceu até agora foi uma resposta clara para os problemas do estado.
Como enfrentar a dívida mineira? Como equilibrar responsabilidade fiscal e qualidade dos serviços públicos? O que fazer com a segurança, a infraestrutura, a educação, a saúde, o saneamento, o desenvolvimento regional e a atração de investimentos? Qual será a relação com o funcionalismo? Como reduzir as desigualdades entre a Região Metropolitana, o Norte de Minas, os vales e o interior?
Essas perguntas continuam no banco de reservas.
A política mineira está cheia de costureiros e pobre de estilistas. Todo mundo mede o tecido, escolhe os parceiros e calcula quem vai pagar a conta. Mas ninguém mostrou ainda a roupa que pretende entregar ao eleitor.
O resumo é simples: Patrus espera Lula; Cleitinho espera o momento perfeito; o PL prepara um caminho próprio; Mateus tenta completar a chapa; Jarbas procura aliados; e Gabriel promete apresentar um programa.
Minas Gerais tem muitos pré-candidatos. O que ainda faltam são candidaturas completas, e, principalmente, projetos de governo.
Porque o suspense pode render audiência, mas não governa o estado. E quem demora demais para entrar em campo pode descobrir que, quando finalmente decidiu jogar, o campeonato já começou
