A política mineira está prestes a descobrir que decisões tomadas têm seu preço. E, no governo de Minas, a conta pode começar a ser cobrada já nesta terça-feira.
Segundo informação obtida por esta coluna, o governador Mateus Simões decidiu demitir o secretário de Governo, Castellar Guimarães Neto, e promover, entre amanhã e quarta-feira, uma ampla exoneração de aproximadamente 500 servidores comissionados identificados politicamente com Marcelo Aro.
Não é uma reforma administrativa. É uma ruptura política. E das grandes.
Aro fora do governo
Na avaliação do Palácio Tiradentes, o grupo de Marcelo Aro rompeu politicamente com Mateus Simões no momento em que passou a trabalhar por uma construção eleitoral diferente daquela que sustentaria a candidatura do governador.
A resposta de Mateus será retirar do governo a estrutura política ligada a Aro. Castellar é a peça mais visível desse tabuleiro.
Aliado histórico de Marcelo Aro, ele permaneceu no governo depois da saída do ex-secretário da Casa Civil, que deixou o cargo para disputar as eleições deste ano. Sua permanência representava justamente a continuidade da influência política do grupo dentro da administração estadual.
Isso está prestes a acabar.
Mas a exoneração de Castellar, isoladamente, seria apenas uma troca de secretário. O que dá dimensão política ao movimento é a decisão de alcançar centenas de cargos comissionados espalhados pela estrutura estadual. São aproximadamente 500 nomes, segundo as informações que chegaram à coluna.
É uma poda feita com motosserra.
Não se governa com adversários dentro de casa
A decisão de Mateus Simões tem uma lógica política bastante simples.
Não existe composição pela metade. Um grupo político não pode usufruir da estrutura de um governo, ocupar secretarias, cargos e posições estratégicas e, simultaneamente, trabalhar por um projeto eleitoral concorrente ao governador que lhe oferece essa estrutura.
Pode escolher outro caminho? Evidentemente. Política é feita de movimentos, alianças e rompimentos.
Marcelo Aro tem todo o direito de construir a composição eleitoral que considerar mais conveniente. Pode buscar Republicanos, União Progressista, Podemos, PL ou qualquer outra legenda disposta a conversar.
Mas existe uma consequência óbvia.
Ao mudar de lado eleitoralmente, perde-se o direito político de continuar sentado à mesa do governo adversário. Seria estranho exatamente o contrário.
Mateus permitir que centenas de pessoas vinculadas a um grupo que trabalha contra sua candidatura permanecessem dentro da própria máquina estadual seria menos um gesto de tolerância e mais uma espécie de ingenuidade política.
A conta da movimentação de Aro
O episódio também ajuda a compreender o tamanho da aposta feita por Marcelo Aro.
Durante muito tempo, Aro construiu sua candidatura utilizando justamente sua enorme capacidade de articulação política no interior de Minas. Fez relações com prefeitos, deputados e lideranças municipais. Transformou passagem pelo governo em musculatura política e conseguiu montar uma estrutura importante para a eleição de 2026.
Essa estrutura tinha, porém, um componente fundamental: a proximidade com o governo.
Agora, os caminhos se separam. A eventual retirada de aproximadamente 500 comissionados significa muito mais do que a perda de empregos públicos para aliados.
Significa desmontar uma rede política.
Em ano eleitoral, cargos são também instrumentos de relacionamento, interlocução e influência. Retirar centenas deles de um grupo representa reduzir sua presença dentro da administração justamente no momento em que começa a campanha.
Mateus não está simplesmente demitindo pessoas. Está retirando de Marcelo Aro uma das ferramentas políticas acumuladas durante sua participação no governo.
O rompimento chegou antes da campanha
Há ainda uma ironia nesse episódio.
A campanha oficialmente mal começou, mas os antigos aliados já estão fazendo as malas. Mateus Simões e Marcelo Aro caminharam juntos durante boa parte da construção política dos últimos anos. Aro ocupou posição central no governo e participou diretamente da articulação com prefeitos, deputados e partidos.
Parecia natural imaginar que essa estrutura desembocaria numa grande composição eleitoral em torno de Mateus. Não desembocou.
A fragmentação do campo político de centro e direita em Minas transformou antigos aliados em concorrentes e colocou projetos pessoais na frente das alianças construídas dentro do governo.
E aqui aparece um velho ensinamento da política: amizade pode sobreviver a muita coisa. Projeto eleitoral concorrente costuma ser mais difícil.
Uma mensagem para dentro e para fora
A decisão de Mateus tem ainda uma segunda finalidade. Ela não fala apenas com Marcelo Aro. Fala com todos os partidos que negociam com o governador.
Ao promover uma limpeza dessa dimensão, Mateus manda um recado bastante claro: chegou a hora das definições.
Não será possível permanecer no governo esperando para descobrir qual candidatura cresce mais.
Ou se está com o governador ou se constrói outra candidatura.
É uma posição politicamente arriscada porque pode ampliar o isolamento de Mateus exatamente quando ele precisa aumentar sua coligação.
Mas existe também o lado contrário.
Um governador que aceita a presença de adversários dentro de sua própria estrutura transmite fraqueza. Mateus decidiu correr o primeiro risco para evitar o segundo.
A guerra começou
Marcelo Aro deixará de ser apenas um antigo aliado procurando outro caminho.
Passa a ser tratado pelo governo como adversário.
E adversário político não conserva gabinete no andar de cima, secretário no primeiro escalão e centenas de indicações espalhadas pela administração.
Na política, toda ruptura tem uma fotografia. A desta será publicada no Diário Oficial, com cerca de 500 nomes.
