Essa é a pergunta que sucede todo debate. E certo é que quem perdeu o debate da Band foi o eleitor. Um debate com pouco protagonismo de propostas, cheio de provocações e recheado de deboche, com uma plateia sem nenhuma noção da importância do evento que estava testemunhando de perto.
Mas Flávio foi quem chegou mais preparado para o embate. Seguro, posicionou-se melhor no palco, cuidou da imagem o tempo todo, olhou diretamente para Lula e soube direcionar o olhar para a câmera quando o objetivo era atingir as dores do eleitor. Nesses momentos, foi direto ao ponto, com frases curtas e objetivas, prontas para cortes nas redes sociais. Perguntou diretamente ao eleitor se sua vida tinha melhorado. Disse: “Vou tirar você do sufoco”, “Você vai prosperar e, se precisar, o governo vai te ajudar”. Falou diretamente para a classe C, para os empreendedores de baixa renda. Abusou das frases de efeito contra Lula, fáceis de replicar nas redes e com impacto no antilulismo, que caracteriza grande parte do eleitorado atual de Flávio. Colou em Lula a pecha de mentiroso e corrupto. Mais do que responder ao adversário, construiu mensagens para circular depois do debate.
E o senador se manteve mais calmo durante todo o tempo. Pautou o debate como quis. Conseguiu reverter investidas de Lula, como a que associou os Bolsonaro ao escândalo do INSS. Abusou do deboche, que pode causar repulsa e parecer arrogância e falta de seriedade para alguns, mas que satisfaz parte de seu eleitorado mais fiel. Foi além: dificultou o trabalho da equipe de marketing de Lula, que terá problemas para encontrar imagens favoráveis do presidente sem Flávio ao fundo, fazendo caretas ou gesticulando enquanto o adversário fala.
Na saúde, Flávio também soube fazer um mea-culpa. Admitir falhas pode ser uma demonstração de segurança política, sobretudo quando o adversário tem dificuldade para reconhecer os próprios erros. Lula, mais uma vez, não conseguiu fazer esse movimento diante de problemas que atingem seu governo ou o PT. Mais um ponto para o senador.
E o senador enfrentou um Lula que, mais uma vez, não se deixou treinar para o debate. Que não entendeu a dinâmica do encontro. Que perdeu parte do tempo andando de costas para a câmera, olhando para os mediadores, em vez de mirar o oponente ou falar diretamente com o eleitor. Que deixou o nervosismo e o descontrole vencerem a experiência. Lula teve que ouvir um pedido do adversário para que mantivesse a calma. Perdeu quando caiu nas armadilhas de Flávio, que conseguiu fazê-lo defender a saidinha de presos diante de um país cansado da violência. Não explorou a ligação de Flávio com as milícias. E ainda ficou prejudicado por uma fala arrastada e uma dicção muito ruim.
Lula, porém, não saiu do debate sem trunfos. Conseguiu mostrar ao eleitor mais aberto a dificuldade de Flávio para responder às denúncias que pairam sobre ele. E vai ter a chance de explorar, na semana que antecede a eleição, o que seria uma fuga de Flávio para abrir as contas. Apesar de tê-lo desestabilizado, Lula também conseguiu minimizar o efeito Roberta Luchsinger, repassando à Polícia Federal o trabalho de lidar com a lobista.
Mas, de modo geral, ganha Flávio, que, com a vitória no primeiro turno e como herdeiro da maior parte dos votos dos candidatos que ficaram pelo caminho, pode se dar ao luxo de jogar mais parado. E que conseguiu criar um espetáculo tão ruidoso que mascarou o fato de não ter respondido a nenhuma pergunta.