Nesta sexta-feira (19/6), o Brasil entra em campo para encarar o Haiti pela 2ª rodada da Copa do Mundo de 2026, buscando a primeira vitória após o empate em 1 a 1 com o Marrocos na estreia. Mais do que um simples jogo, esse reencontro desperta imediatamente a memória de um dos episódios mais surreais, emocionantes e emblemáticos da história do futebol mundial: o “Jogo da Paz”. Realizado há mais de 20 anos, em 18 de agosto de 2004, o amistoso levou a Seleção Brasileira, então atual campeã do mundo, a uma missão diplomática inédita em um país em frangalhos.
Contexto
Em 2004, o Haiti enfrentava uma profunda crise política, social e humanitária após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide. Para tentar pacificar a nação, a ONU criou a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), cuja liderança militar foi entregue ao Brasil.
Em busca de aproximar as tropas brasileiras da população local, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro haitiano, Gérard Latortue, idealizaram um amistoso. Afinal, o futebol era visto como a única linguagem universal capaz de pausar a violência no país caribenho.
A chegada da Seleção a Porto Príncipe foi épica. Comandado por Carlos Alberto Parreira, o elenco contava com estrelas globais como Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos. Em vez de ônibus de luxo, os craques desembarcaram e desfilaram pelas ruas em cima de blindados Urutu do Exército Brasileiro.
As ruas de terra e escombros foram tomadas por uma multidão apaixonada. Pessoas subiam em telhados, árvores e muros só para acenar aos ídolos. O impacto foi tão grande que, por 24 horas, gangues rivais que dominavam as favelas da capital, como Cité Soleil, decretaram um cessar-fogo absoluto. A guerra, de fato, parou para ver o Brasil passar.
O jogo
Apesar do abismo técnico e estrutural entre as equipes, o estádio Sylvio Cator, com seu gramado sintético improvisado e arquibancadas superlotadas, tornou-se o palco perfeito para a festa. Em uma tentativa de desarmamento local, ingressos chegaram a ser trocados por armas em algumas zonas da cidade.
Dentro de campo, o Brasil venceu com tranquilidade por 6 a 0, com gols de Ronaldinho Gaúcho (3), Roger Flores (2) e Nilmar. Curiosamente, a cada gol brasileiro, a torcida haitiana comemorava como se fosse do seu próprio país, tamanho era o fanatismo pela camisa canarinho.
Infelizmente, o impacto da visita não foi suficiente para transformar a estrutura política do Haiti, que continuou sofrendo com instabilidade, violência e catástrofes naturais nos anos seguintes. No entanto, o peso cultural daquele 18 de agosto ficou eternizado. O episódio inspirou o aclamado documentário “O Dia em que o Brasil Esteve Aqui”, que mostra como a simples presença de uma bola e de camisas amarelas foi capaz de silenciar o ódio e a miséria, nem que fosse por um único dia.
*Estagiário sob supervisão do coordenador Leandro Cabido
