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A volta às aulas em um país que ainda não aprendeu a aprender

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(Foto: Dirceu Aurélio / Imprensa MG)

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Hoje, boa parte das escolas da cidade volta a ouvir um som que deveria ser tratado como patrimônio público: o barulho do recreio, o arrastar das cadeiras, a voz do professor tentando transformar energia em atenção. Em Belo Horizonte, a rede municipal inicia o ano letivo em 4 de fevereiro de 2026, com calendário já divulgado.

Só que, junto com o uniforme e o caderno novo, volta também um dilema velho, e cruel: nós universalizamos a matrícula, mas ainda não universalizamos a aprendizagem. E sem aprendizagem, a escola vira uma espécie de teatro de presença, onde todo mundo comparece, e pouca coisa se transforma.

O PISA e a régua do mundo

Quando a gente olha para o último resultado do PISA, a avaliação escolar dos países que compõem a OCDE, o Brasil aparece com notas que escancaram uma realidade que dói: 379 em Matemática, 410 em Leitura e 403 em Ciências. Abaixo da média dos países da OCDE.

Não é só ranking. É a tradução de um país onde muitos estudantes chegam ao fim da escolaridade obrigatória sem dominar operações básicas, sem ler com fluência crítica, sem compreender ciência como ferramenta para a vida. E, no século XXI, isso não é “falha escolar”. É um risco civilizatório.

Quando a aprendizagem evapora ao longo do caminho

Agora, desçamos do comparativo internacional para o Brasil real medido em sala de aula. Um estudo da ONG Todos Pela Educação escancara uma curva que deveria envergonhar qualquer governo, de qualquer partido. Quanto mais o aluno avança, mais a aprendizagem despenca.

No Ensino Médio, a proporção de estudantes com aprendizagem adequada foi de 32,4% em Língua Portuguesa e apenas 5,2% em Matemática. No 9º ano, 35,9% em Português e 16,5% em Matemática. No 5º ano, 56,5% em Português e 43,5% em Matemática.

A imagem é cristalina: a escola brasileira funciona como um funil invertido. Ela começa melhor nos anos iniciais, mas ainda insuficiente, e vai perdendo potência, como se a cada série o motor fosse ficando mais fraco, até virar vela acesa em tempestade.

O Anuário Brasileiro da Educação Básica empurra a faca um pouco mais: apenas 4,5% dos jovens da 3ª série do Ensino Médio público tinham aprendizagem adequada ao mesmo tempo em Matemática e Língua Portuguesa. Ou seja, a etapa que deveria formar está, muitas vezes, apenas concluindo. Conclui-se um ciclo, não necessariamente um conhecimento.

Escolaridade em dúvida

E aqui entra o ponto mais sensível. A escolaridade colocada em dúvida pela má qualidade da formação, e o efeito dominó no mundo do trabalho.

Não é que a escola não tenha utilidade. Tem, e muito. O problema é que, quando a aprendizagem não acontece, o diploma vira um documento com pouco poder de transformação. O jovem sai com certificado, mas sem repertório; com histórico escolar, mas sem histórico de competência.

O resultado aparece onde mais dói. Os dados da baixa produtividade do trabalhador brasileiro, revelam que falta base para aprender tecnologias novas, e isso faz com que tenhamos um mercado de trabalho desconfiado, que passa a exigir experiência e “soft skills” como filtro, pois já não confia no básico certificado pela escola, criando um efeito colateral dramático, a sensação de fracasso do próprio aluno, que concluiu etapas carregando o sentimento de “sou eu que não dou conta”, quando, muitas vezes, foi o sistema que não deu.

É por isso que a crise educacional não é uma pauta setorial. Ela é a pauta-mãe. A mãe da renda, da segurança pública, da inovação, da democracia. Um país que não lê bem e não calcula bem fica mais vulnerável a charlatães, a populistas de frases curtas, a golpes de WhatsApp e a promessas milagrosas.

O que dá para fazer

A educação melhora não por mágica, mas por método. Não melhora com discurso. É urgente termos os pés no chão e olhos no futuro:

A alfabetização tem que ser uma “obsessão”. Sem leitura fluente e compreensão até o começo do ensino fundamental, o resto se transforma em remendo. Precisamos de rotina, material estruturado, acompanhamento e intervenção rápida. O aluno não pode passar de ano carregando um atraso que vira bola de neve.

A matemática é como musculação para o cérebro, ela exige prática, feedback, revisão do erro e progressão. A escola brasileira frequentemente troca treino por exposição: muita explicação, pouca prática orientada, pouca correção comentada.

O professor tem que ser colocado no centro da discussão, menos carga ideológica e uma formação prática com apoio real. Essa transformação passa por fortalecer a formação inicial e a mentoria de quem está começando, além de reduzir a burocracia que rouba o tempo do essencial: planejar, ensinar, corrigir e recuperar.

As avaliações devem servir para ensinar, não só para constar em números que atestam, de maneira torta, a eficiência do ensino.
Provas curtas e frequentes, devolutiva rápida, metas claras por turma e por aluno. Avaliar não é punir, é diagnosticar. 

O ensino médio, gargalo final, tem que ter sentido prático e uma base forte. O Itinerário formativo não pode ser uma loteria de disciplina improvisada. E educação profissional não pode virar atalho para um emprego qualquer. A base (Português e Matemática) tem que ser reforçada, junto com competências digitais e projetos aplicados.

Já passa da hora de combatermos o “faz de conta” do fluxo sem aprendizagem. O Brasil melhorou o acesso e permanência, mas muitas vezes empurrou o problema para frente. Aprovação automática disfarçada de inclusão é crueldade com etiqueta bonita. Inclusão de verdade é aprender.

A volta às aulas como recomeço

Voltar às aulas é recomeçar. E recomeçar é lindo, desde que a gente não use o recomeço para repetir o mesmo erro com uniforme novo.

Se o PISA e o Todos pela Educação nos mostram que estamos aquém do mundo em leitura, matemática e ciências, e que a aprendizagem desaba justamente onde deveria amadurecer, então o recado é direto. O Brasil precisa parar de celebrar matrícula e começar a cobrar pela aprendizagem.

Porque educação não é só estar na escola. Educação é sair de lá maior do que entrou, em vocabulário, em raciocínio, em autonomia, em futuro.

E o futuro não se improvisa. Se ensina. Se aprende. Se sustenta.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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