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O eleitor que não conhece em quem vota

Por Paulo Leite Rede 98
02/07/2026 09:15 Atualizado há 3 horas
Urna eletrônica

Ao ler, tardiamente, a pesquisa Datafolha publicada pela Folha, na semana passada, cheguei à conclusão de que educação cívica e democrática no Brasil ainda é artigo de luxo.O eleitor, o cidadão comum, muitas vezes não conhece e não confia em quem vota. Vota, esquece, reclama, desconfia, terceiriza a culpa e, quatro anos depois, repete o ritual quase no escuro. É duro dizer isso, mas é necessário. Essa reflexão apareceu na noite de ontem quando pesquisava informações, e hoje pela manhã ela é tema do editorial do “Estadão”. Isso mostra que se muitos pensam sobre um mesmo assunto, ele é relevante.

A pesquisa mostra um retrato incômodo de um país, onde 68% dos brasileiros não conseguiram citar nenhum deputado federal em exercício e 75% não souberam mencionar qualquer senador. O dado fica ainda mais grave quando se olha para a memória do próprio voto. Segundo o levantamento, 67% não lembram em quem votaram para deputado federal em 2022; 66% não recordam o voto para senador; e outros 66% também esqueceram o voto para deputado estadual. Ou seja: dois em cada três eleitores não lembram quem escolheram para representá-los no Legislativo.

Isso é sintoma

O Brasil discute democracia todos os dias, mas conhece pouco o funcionamento da democracia. Fala-se muito em presidente, em salvador da pátria, em inimigo nacional, em ameaça, em mito, em pai dos pobres, em herói ou vilão. Mas se fala pouco sobre Câmara, Senado, Assembleia Legislativa, orçamento, emenda parlamentar, fiscalização, comissão, projeto de lei, pacto federativo e responsabilidade do mandato.

O eleitor brasileiro lembra do voto para presidente. A pesquisa mostra que 85% dizem recordar em quem votaram para o Planalto. Mas a memória desaparece quando a pergunta chega ao Legislativo. Aí entra uma espécie de neblina cívica. O cidadão sabe quem ocupa o palco principal, mas desconhece quem escreve boa parte do roteiro. E, sejamos francos, muita gente no Congresso agradece esse apagão.

Porque um deputado desconhecido é um deputado confortável. Senador invisível é senador livre. Parlamentar que ninguém acompanha vota como quer, negocia como quer, muda de lado como quer, usa o mandato como quer e depois volta à eleição enrolado numa bandeira qualquer, com discurso novo, santinho novo e memória velha do eleitor.

Não se trata de culpar apenas o cidadão. Seria fácil demais e injusto demais. O eleitor brasileiro trabalha muito, pega ônibus cheio, paga imposto alto, enfrenta serviço público ruim, salário apertado, violência, fila, boleto e cansaço. A vida real não entrega tempo sobrando para estudar regimento interno da Câmara. Ninguém chega em casa depois de dez horas de luta dizendo. “Hoje vou relaxar acompanhando a Comissão de Constituição e Justiça”. Nem santo faz isso sem uma xícara de café forte.

Mas uma democracia madura não pode depender apenas do esforço individual do eleitor. Ela precisa de escola, imprensa, partidos responsáveis, instituições claras e políticos que prestem contas. E nisso o Brasil falha de maneira escandalosa.

A educação cívica foi tratada como coisa menor. Como se ensinar Constituição, voto proporcional, função dos poderes, papel dos vereadores, deputados, senadores e governadores fosse luxo acadêmico. Não é. É uma vacina democrática. Um país que não ensina cidadania abre espaço para manipulação. Quem não sabe como o sistema funciona vira presa fácil de slogan, corrente de WhatsApp, culto a personalidade e indignação fabricada.

O resultado está aí: o eleitor vota em deputado sem saber direito o que faz um deputado. Vota em senador sem acompanhar o Senado. Cobra do presidente aquilo que depende do Congresso. Cobra do prefeito aquilo que depende do governador. Cobra do governador aquilo que depende da União. E, no fim, todo mundo grita contra “os políticos”, como se eles tivessem caído de Marte dentro de uma cápsula financiada pelo fundão eleitoral.

Um sistema deformado

A pesquisa revela também uma deformação do nosso sistema político: a personalização extrema da política. O Brasil virou um país que acompanha personagens, não instituições. O eleitor reconhece quem viraliza, quem lacra, quem briga, quem aparece no corte de vídeo, quem fala grosso, quem bate na mesa. Mas a representação política não pode ser confundida com performance digital. Mandato não é stand-up de plenário. Congresso não é reality show com verba pública.

Claro que comunicação importa. Quem não se comunica, desaparece. Mas quando a política vira apenas espetáculo, o eleitor passa a lembrar mais da frase de efeito do que do voto dado em seu nome. A democracia vira plateia. E cidadão não pode ser plateia. Cidadão tem que ser fiscal.

Não há democracia forte com eleitor fraco de informação. Não há mandato responsável quando a sociedade não acompanha o mandatário. Não há reforma política séria enquanto o voto for tratado como evento de domingo e não como compromisso de quatro anos.

O voto não termina na urna. A urna é só a porta de entrada. Depois dela vem o acompanhamento, a cobrança, a comparação entre promessa e prática, a análise do voto parlamentar, a vigilância sobre emendas, a cobrança por transparência e a punição eleitoral de quem traiu o mandato. Sem isso, a eleição vira absolvição antecipada.

O dado do Datafolha deveria constranger os partidos. Mas provavelmente não vai. Muitos partidos vivem justamente dessa confusão. São máquinas eleitorais sem identidade, sem programa compreensível e sem compromisso pedagógico com o eleitor. Servem para eleger, negociar e sobreviver. Ideologia, coerência e prestação de contas, muitas vezes, ficam para a próxima encarnação.

Também deveria constranger o sistema educacional. Democracia não se aprende apenas no discurso de 7 de Setembro. Aprende-se na escola, no debate, no grêmio, na leitura da Constituição, no entendimento básico de como uma lei nasce, de como o orçamento é votado, de como se fiscaliza o poder. Um aluno que sai da escola sem entender minimamente o funcionamento do Estado sai vulnerável para a cidadania.

E deveria constranger a própria imprensa. Nós também precisamos fazer autocrítica. A cobertura política muitas vezes fica presa à corrida de cavalos. Quem sobe, quem desce, quem traiu quem, quem será candidato, quem jantou com quem. Isso importa, mas não basta. É preciso explicar mais. Traduzir mais. Mostrar como a decisão em Brasília, em Belo Horizonte ou na Câmara Municipal entra na vida concreta do cidadão. Política sem tradução vira ruído. E ruído é o habitat natural da desinformação.

A conclusão é amarga, mas necessária: o Brasil vota muito e conhece pouco o próprio voto. Reclama muito e acompanha pouco. Desconfia de todos, mas fiscaliza poucos. E essa combinação é perigosa, porque a democracia não morre apenas quando alguém a ataca de frente. Ela também adoece quando o cidadão se afasta, quando o eleitor esquece, quando o representante se esconde e quando a política vira uma disputa entre torcidas intoxicadas.

Educação cívica não é perfumaria. É a infraestrutura da democracia. Tão necessária quanto a estrada, o hospital e a escola. Sem ela, o país continuará elegendo no escuro e reclamando no escuro. E, no escuro, como se sabe, todo oportunista se apresenta como o guia, da escuridão.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.