A eleição de 2026 começa a ganhar nomes, palanques e fotografias oficiais. O que ainda não ganhou foi coerência. As convenções avançam, candidatos aparecem, mas a política brasileira chega à reta final dos prazos cercada por improviso, alianças contraditórias e vices que ninguém consegue encontrar
No cenário nacional, os principais partidos já apresentaram seus candidatos à Presidência da República, mas quase todos continuam procurando peças para completar o tabuleiro. Há cabeças de chapa, discursos ensaiados e jingles provavelmente saindo do forno. O problema é que ainda faltam vices, alianças consistentes e, em muitos casos, uma explicação minimamente convincente sobre o projeto que cada coligação pretende oferecer ao país.
O cenário nacional
O PT chega com Lula candidato à reeleição e Geraldo Alckmin novamente como vice. É a chapa mais previsível entre as principais forças nacionais. Ao mesmo tempo, o partido repete sua conhecida elasticidade regional, em cada estado, uma composição diferente. Em alguns lugares, aproxima-se do centro; em outros, preserva alianças com a esquerda; onde for necessário, tenta acomodar adversários locais em nome do projeto nacional.
Não se trata exatamente de novidade. O PT há muito aprendeu que uma eleição presidencial não se vence apenas com identidade ideológica. Vence-se também com palanques estaduais, tempo de propaganda, estrutura partidária e alianças que, vistas de longe, frequentemente parecem contraditórias. A coerência fica para os seminários. A urna exige pragmatismo.
O PL confirmou Flávio Bolsonaro para a Presidência, mas ainda não encontrou um vice. Tereza Cristina chegou a ser tratada como uma das principais possibilidades. A decisão do PP de caminhar para a neutralidade, porém, esfriou a composição. Ciro Nogueira não apenas defendeu que o partido permaneça fora da disputa presidencial como aconselhou Tereza a não aceitar a vaga.
É um sinal importante. Flávio Bolsonaro pode carregar o sobrenome mais forte da direita brasileira, mas precisa demonstrar capacidade de ampliar seu campo político. Uma chapa formada apenas para conversar com quem já é bolsonarista corre o risco de se transformar num círculo fechado: barulhento, mobilizado e eleitoralmente insuficiente.
A confirmação de Michelle Bolsonaro como candidata ao Senado pelo Distrito Federal reforça a estratégia de preservação do capital eleitoral da família. Mesmo sem estar na chapa presidencial, Michelle deverá ocupar espaço nacional durante a campanha e funcionar como uma das principais vozes de mobilização do eleitorado conservador.
O PDT aparece com Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab numa chapa já definida. O Novo confirmou Romeu Zema, mas ainda procura um vice capaz de nacionalizar uma candidatura que nasce fortemente identificada com Minas Gerais e com o discurso liberal. A escolha não será um detalhe: poderá determinar se Zema conseguirá ampliar sua presença para além do eleitorado que já conhece sua trajetória.
O Partido Missão, por sua vez, apresentou Renan Santos, que fez da segurança pública e do combate ao crime organizado o centro de seu lançamento. A inspiração no modelo de Nayib Bukele aparece menos como uma citação formal e mais como uma atmosfera política: discurso duro, promessa de autoridade e a ideia de que o Estado precisa recuperar territórios dominados pelo crime.
O problema começa quando soluções construídas num país pequeno, centralizado e institucionalmente muito diferente são vendidas como receita instantânea para o Brasil. Segurança pública não se resolve com fantasia tropical importada, mas também não pode continuar prisioneira do discurso burocrático de que trata o crime organizado como um problema administrativo. Renan Santos explora uma angústia real da população. Resta saber se apresentará um projeto ou apenas um personagem.
Em Minas, a sopa de letrinhas ferve
Se o cenário nacional tem chapas incompletas, Minas Gerais transformou a montagem eleitoral numa espécie de quebra-cabeça em que as próprias peças mudam de formato.
O Partido Missão confirmou Bem Mendes para o governo. É uma candidatura que, ao menos neste momento, parece destinada a marcar posição e ocupar espaço no debate. Bem Mendes é uma figura polêmica e deverá produzir barulho, confronto e cenas próprias de quem entra numa disputa sem medo de tocar fogo no parquinho.
O PT homologou Patrus Ananias para o governo e Marília Campos para o Senado. Ainda procura uma composição para a vice, conversando com PV, Rede, PCdoB, PSOL e mantendo uma relação indefinida com o PSB.
Áurea Carolina aparece em diferentes possibilidades: vice, candidata ao Senado ou suplente de Marília Campos. Essa multiplicação de cenários revela que a esquerda mineira ainda tenta conciliar representação partidária, identidade política e viabilidade eleitoral.
Patrus é um nome de história, respeitabilidade e identidade clara. O desafio será transformar essa biografia em energia eleitoral numa campanha que começou tarde e ainda não possui uma arquitetura completa.
O PDT confirmou Alexandre Kalil. O ex-prefeito de Belo Horizonte entra oficialmente na disputa, mas também continua procurando alianças e um nome para a vice. Kalil tem reconhecimento, estilo próprio e capacidade de ocupar o noticiário. Precisa agora mostrar organização política para não depender exclusivamente da força de sua personalidade.
O MDB oficializou Gabriel Azevedo, que sinalizou desejar uma mulher na vice. A intenção é politicamente compreensível, mas a escolha precisará ir além do simbolismo. Vice não pode ser acessório de campanha nem peça decorativa para cumprir uma fotografia de diversidade. Precisa agregar votos, estrutura, discurso ou representação regional.
O PSD confirmou Mateus Simões, com a presença de Romeu Zema, e apresentou Carlos Viana para o Senado. Simões ainda não tem vice definido, embora tudo indique que o nome virá do Novo.
O candidato governista possui a máquina administrativa, a associação direta com Zema e uma estrutura partidária relevante. Mas máquina não é sinônimo automático de voto. Ela ajuda na capilaridade, na visibilidade e na montagem de palanques; não substitui carisma, narrativa e capacidade de convencer o eleitor de que a continuidade é melhor do que a mudança.
A convenção também confirmou a composição entre PSD, Avante e DC. Ao redor desse grupo, continuam as conversas com o PSDB, que simultaneamente dialoga com o PDT de Kalil. É a política mineira em sua forma mais líquida: todos conversam com todos até o minuto em que alguém assina uma ata.
O PSB indicou Jarbas Soares como nome majoritário, mas ainda não explicou para qual cargo. Patrus gostaria de tê-lo como vice. Outra possibilidade seria Jarbas disputar o Senado numa composição com Alexandre Kalil.
O PSB tornou-se, assim, uma das peças mais valorizadas e mais indecisas dessa montagem. Pode fortalecer a esquerda petista, pode caminhar com o PDT ou pode construir uma solução própria. Quanto mais demora, porém, maior o risco de deixar de ser protagonista para virar apenas complemento da chapa de alguém.
A definição da direita
Na direita bolsonarista em Minas, a construção está mais avançada, embora a composição final ainda dependa das decisões tomadas em Brasília.
O PL confirmou Domingos Sávio para o Senado. União Progressista e Podemos trabalham com Marcelo Aro, também para o Senado. Aro chegou a ter o nome cogitado para o governo, mas voltou a ser tratado como peça da disputa senatorial.
A movimentação mais importante é a possível confirmação de Cleitinho Azevedo para o governo pelo Republicanos, com apoio do PL, da federação União Progressista e do Podemos.
Uma fotografia de Cleitinho com Zé Vitor e Domingos Sávio, publicada nas redes sociais do senador, reforçou a percepção de que a aliança está próxima. Na política, fotografia doméstica nunca é apenas fotografia doméstica. Mesa, café e legenda costumam dizer mais do que muitas notas oficiais.
A chapa pode ter Cleitinho ao governo, Luiz Eduardo Falcão na vice e Domingos Sávio e Marcelo Aro para o Senado. O vice, porém, ainda pode mudar, especialmente diante da necessidade de acomodar os partidos envolvidos.
A eventual candidatura de Cleitinho encerraria meses de hesitação. Mas a demora terá custo. Durante semanas, o senador submeteu aliados, partidos e eleitores a um espetáculo de indefinição. Agora, caso seja confirmado, precisará demonstrar que possui mais do que popularidade e comunicação espontânea. Governar Minas exige articulação, previsibilidade, equipe e capacidade de assumir compromissos.
O prazo termina, a confusão não
O dia 5 de agosto encerra o período das convenções partidárias. Até 15 de agosto, as candidaturas deverão ser registradas na Justiça Eleitoral.
Os prazos obrigarão os partidos a tomar decisões que passaram meses adiando. Ainda assim, o fechamento das atas não significará necessariamente o fim da confusão. Significará apenas que a improvisação passará a ter valor jurídico.
No Brasil, estão colocadas as candidaturas de Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos. Em Minas, aparecem Patrus Ananias, Alexandre Kalil, Gabriel Azevedo, Mateus Simões e Bem Mendes, além da provável entrada de Cleitinho Azevedo.
O eleitor finalmente começará a enxergar as opções disponíveis. Os partidos, por sua vez, terão de explicar o que até agora tentaram esconder atrás da sopa de letrinhas.
Porque uma campanha não é apenas a soma de partidos, minutos de televisão e nomes distribuídos numa chapa. É preciso apresentar um rumo.
E, até aqui, há muitos candidatos na fotografia, e poucos projetos inteiros dentro dela.
