A política brasileira tem dessas delicadezas institucionais.
Para ser candidato, é obrigatório ter partido. Para fazer política depois de entrar no partido, aparentemente o partido é facultativo.
É quase um sistema de candidatura independente com uma pequena exigência adicional. O candidato independente precisa primeiro arrumar uma legenda para chamar provisoriamente de sua.
A contribuição mineira
Em Minas Gerais temos uma fotografia especialmente didática desse fenômeno.
A prefeita Jackelini Pereira do Nascimento, de Frei Gaspar, é filiada ao PT. Apoia Lula para presidente. Até aí, nenhuma surpresa. Mas declara apoio a Cleitinho Azevedo para o Governo de Minas, embora o próprio PT tenha candidato ao Palácio Tiradentes.
Temos, portanto, uma interessante inovação da ciência política brasileira: fidelidade partidária pela metade, com o partido servindo para algumas eleições. Para outras, cada um escolhe seu próprio caminho.
E o Republicanos entendeu o jogo
A campanha do senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, percebeu perfeitamente como funciona o jogo e montou uma estratégia coerente com essa incoerência.
Em vez de concentrar esforços na construção de alianças entre partidos, sua campanha busca alianças diretamente com prefeitos.
Prefeito por prefeito. Cidade por cidade. Legenda por legenda, ou melhor, apesar das legendas.
Eleitoralmente, pode ser uma excelente estratégia. Prefeitos têm votos, estruturas locais, relações políticas, capacidade de mobilização e influência regional. Em eleição estadual, construir uma rede municipal pode valer muito mais que colecionar fotografias com presidentes de partidos.
Para Cleitinho, faz sentido. Para o sistema partidário brasileiro, é quase um atestado de óbito.
Para que servem os partidos?
O Brasil não permite candidatura avulsa. A filiação partidária é condição constitucional de elegibilidade e, em novembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal reafirmou por unanimidade que candidatos sem partido não são admitidos no sistema eleitoral brasileiro. A regra também está expressamente incorporada às normas do TSE para as eleições de 2026.
Portanto, juridicamente, não há dúvida. Politicamente é que começa a comédia.
O cidadão não pode ser independente. Já o político filiado pode.
O cidadão precisa entrar num partido para disputar a eleição. Depois que entra, pode apoiar candidato de outro partido.
Pode construir palanque contra a orientação da legenda. Pode apoiar um presidenciável e um candidato a governador que pertencem a campos políticos completamente diferentes. Pode negociar alianças municipais sem perguntar muita coisa ao diretório estadual.
E pode descobrir, convenientemente, que aquela ideologia estampada no estatuto partidário é apenas uma sugestão de leitura.
Uma incoerência institucional
O candidato é partidário na hora do registro e independente na hora do palanque, para acessar o fundo eleitoral, e independente para escolher aliados. É partidário para conseguir tempo de propaganda e independente para decidir quem apoiar.
É partidário quando precisa da legenda. E profundamente autônomo quando a legenda começa a atrapalhar seus planos.
O Brasil conseguiu criar, portanto, uma espécie de candidatura independente gourmet.
Não pode tirar o partido da embalagem, porque a Constituição não deixa. Mas pode tirar quase todo o conteúdo lá de dentro.
A hora das candidaturas independentes
Nesse ponto a discussão sobre candidaturas independentes deixa de parecer uma extravagância e passa a ser uma provocação bastante razoável.
Não estou dizendo que candidatura avulsa resolveria os problemas da democracia brasileira. Muito pelo contrário. Ela também traz questões importantes sobre financiamento, organização parlamentar, governabilidade, representação política e controle das campanhas.
Mas há uma contradição evidente.
Se exigimos partidos porque acreditamos que eles organizam ideias, programas e correntes políticas, então deveríamos cobrar alguma coerência daqueles que pertencem a eles.
Partidos deveriam significar alguma coisa.
Um eleitor deveria olhar para determinada legenda e conseguir identificar minimamente o que ela pensa sobre economia, segurança, educação, tamanho do Estado, impostos, meio ambiente e políticas sociais.
Naturalmente, política exige alianças. Democracia não é condomínio ideológico, e governar pressupõe negociar com quem pensa diferente.
Mas há uma distância gigantesca entre construir alianças e transformar partidos em balcões de registro eleitoral.
Uma coisa é conversar com adversários. Outra é ninguém mais saber quem é o adversário de quem.
Hoje encontramos conservadores abraçados com progressistas, liberais aliados a estatistas, lulistas apoiando candidatos adversários do PT, bolsonaristas compondo com políticos que apoiam Lula e integrantes da mesma legenda ocupando palanques concorrentes.
Tudo isso costuma ganhar um nome muito elegante
Pragmatismo.
Uma palavra que serve para quase tudo. Principalmente para disfarçar a palavra menos elegante: conveniência.
E o pragmatismo sem qualquer limite programático pode facilmente virar oportunismo eleitoral.
O resultado é previsível.
Quanto menos importância têm os partidos, mais personalista se torna a eleição.
Vota-se no nome, no influenciador, no candidato famoso, no prefeito que controla determinada região, na celebridade política. Naquele que possui a melhor máquina eleitoral ou a rede mais eficiente de interesses municipais.
O partido vira quase um detalhe tipográfico colocado ao lado do nome na urna.
E então chegamos à ironia final. O Brasil diz ao cidadão:
“Você não pode ser candidato independente porque nosso sistema político é organizado através dos partidos.”
Daí o cidadão olha para dentro dos partidos e encontra políticos independentes de seus programas, independentes das suas alianças, independentes das suas orientações e, algumas vezes, independentes até dos candidatos escolhidos pela própria legenda.
É difícil não rir.
Se continuarmos assim, talvez seja necessário atualizar a legislação. Não para permitir candidatura independente, mas apenas para reconhecer que ela já existe.
Com uma diferença.
Hoje, para ser independente no Brasil, primeiro é obrigatório se filiar a um partido.
Depois disso, fique à vontade.
Porque nosso sistema chegou a uma fórmula extraordinária: partidos obrigatórios, convicções facultativas.
Ou fortalecemos as legendas, cobrando alguma coerência programática e devolvemos significado à filiação partidária, ou teremos de discutir seriamente a candidatura independente.
O que não faz muito sentido é continuar preservando a ficção atual.
O candidato é obrigado a ter partido. Só não precisa, aparentemente, acreditar nele.