O presidente Lula telefonou nesta sexta-feira (21/8) para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A conversa durou uma hora e 20 minutos e teve como principais temas as tarifas impostas pelos americanos a produtos brasileiros, o combate ao crime organizado e os conflitos internacionais.
Segundo o governo brasileiro, Lula contestou as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para a aplicação das novas tarifas. Entre os argumentos citados por Washington estão questões relacionadas ao desmatamento, acordos preferenciais de comércio, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos associados a trabalho forçado.
Lula afirmou que as alegações são infundadas e defendeu a continuidade das negociações. Trump, segundo o Planalto, concordou sobre a importância de preservar as relações comerciais e propôs que as equipes dos dois países voltem a se reunir o mais rapidamente possível.
A conversa, no entanto, não resultou em anúncio de redução ou suspensão das tarifas. As medidas americanas continuam em vigor.
Crime organizado entra na pauta
Lula também defendeu uma maior cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado, mas fez uma ressalva em relação à decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O presidente afirmou que as facções provocam violência e medo, especialmente entre populações mais vulneráveis, mas não devem ser confundidas com organizações terroristas. Segundo Lula, o Brasil possui instrumentos próprios para enfrentar esses grupos.
Na conversa, o presidente citou a estratégia de asfixia financeira das organizações criminosas, que, segundo o governo, já resultou na apreensão de cerca de R$ 17 bilhões. Também mencionou a transformação de **138 presídios em unidades de segurança máxima, a Lei Antifacção e uma proposta de emenda constitucional que amplia a participação da União na segurança pública.
Trump teria demonstrado disposição para ampliar a cooperação e indicado que representantes de alto escalão dos Estados Unidos serão mobilizados para dar continuidade às tratativas.
PCC e Comando Vermelho: por que a classificação importa?
Os Estados Unidos passaram a classificar oficialmente o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras em junho deste ano.
A medida permite que autoridades americanas adotem sanções financeiras e restrições específicas contra as organizações e pessoas que prestem apoio material aos grupos. Washington sustenta que as facções brasileiras possuem atuação internacional e representam uma ameaça também fora do Brasil.
O governo brasileiro não contesta a dimensão internacional das organizações criminosas, mas rejeita a classificação como terrorismo. A diferença não é apenas semântica: o enquadramento americano coloca PCC e CV dentro de um regime jurídico utilizado pelos Estados Unidos para combater grupos terroristas e amplia os instrumentos disponíveis para atingir suas redes financeiras.
Na conversa com Trump, Lula defendeu que a cooperação entre os dois países seja ampliada sem que o Brasil adote necessariamente o mesmo enquadramento jurídico utilizado pelos americanos.
Guerras também foram discutidas
Lula e Trump ainda conversaram sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia e sobre os conflitos no Oriente Médio.
Os dois presidentes defenderam uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. Lula também criticou a atuação do Conselho de Segurança da ONU e voltou a propor uma reunião extraordinária do órgão para discutir saídas diplomáticas para os conflitos atuais.
Histórico da crise entre Brasil e Eua
A atual crise comercial entre Brasil e Estados Unidos começou em 2025, quando o governo Trump abriu uma investigação pela chamada Seção 301 da legislação comercial americana.
- Abril de 2025: os EUA estabeleceram uma tarifa adicional geral de 10% sobre produtos brasileiros.
- Julho de 2025: Trump anunciou uma sobretaxa adicional de 40% para determinados produtos, levando a tarifa adicional sobre parte das exportações a 50%.
- Novembro de 2025: alguns produtos brasileiros, principalmente agrícolas e carnes, foram retirados da sobretaxa adicional.
- Junho de 2026: o Escritório do Representante Comercial dos EUA concluiu investigação e apontou uma série de práticas brasileiras que considerou prejudiciais ao comércio americano.
- Julho de 2026: Washington anunciou uma nova tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros.
- Agosto de 2026: Lula e Trump retomaram diretamente a negociação. As tarifas, porém, continuam em vigor e não houve anúncio de suspensão ou redução.