Pesquisadores do Laboratório Cristália estão desenvolvendo uma candidata a vacina contra a dependência de nicotina. A proposta é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de se ligar à substância ainda na corrente sanguínea e dificultar sua chegada ao cérebro.
O projeto está em fase de Early Discovery, etapa inicial do desenvolvimento de medicamentos, na qual são selecionados protótipos e avaliados seus efeitos em modelos experimentais. Até o momento, a candidata foi testada apenas em animais.
A ideia é diferente da abordagem adotada pelos tratamentos convencionais para o tabagismo. Em vez de atuar principalmente sobre os sintomas da abstinência e a vontade de fumar, a tecnologia busca reduzir os efeitos da nicotina no cérebro.
A nicotina é uma das principais responsáveis pela dependência causada pelo cigarro. Após ser inalada, ela chega rapidamente ao cérebro e estimula receptores que favorecem a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e recompensa. Esse mecanismo contribui para a manutenção do consumo e para o risco de recaídas.
Na proposta desenvolvida pelos pesquisadores, a molécula da nicotina é associada a uma estrutura capaz de provocar uma resposta do sistema imunológico. Com isso, o organismo passa a produzir anticorpos específicos contra a substância.
Quando a pessoa vacinada entra em contato novamente com a nicotina, os anticorpos poderiam capturá-la no sangue, reduzindo a quantidade que chega ao cérebro. A expectativa é que, dessa forma, o efeito de recompensa associado ao consumo seja menor.
Segundo o laboratório, os primeiros testes indicaram que os antígenos desenvolvidos foram capazes de induzir a produção de anticorpos específicos nos animais. Em um modelo experimental, a candidata também apresentou capacidade de impedir a instalação da dependência.
Ainda está em andamento uma avaliação da resposta imunológica provocada pela candidata. O desenvolvimento, porém, está longe de significar que uma vacina contra o tabagismo esteja pronta para uso em pessoas.
Antes de qualquer eventual aplicação em humanos, ainda serão necessários estudos pré-clínicos adicionais para avaliar eficácia e segurança, além do desenvolvimento da formulação, análises laboratoriais, produção em maior escala e ensaios clínicos com voluntários. Somente depois dessas etapas poderá ser avaliada a possibilidade de solicitar o registro do produto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O projeto começou a ser estruturado internamente em 2024, a partir de uma iniciativa voltada à pesquisa de soluções contra a dependência química. A proposta foi concebida pelo fundador do Cristália, o médico Ogari Pacheco, e passou a ser desenvolvida por pesquisadores do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da empresa.
Tabagismo e recaídas
O desenvolvimento parte do desafio de manter a abstinência após a interrupção do consumo de cigarros. De acordo com dados citados pelo laboratório, aproximadamente 85% das pessoas que tentam abandonar o tabagismo apresentam alguma recaída durante o primeiro ano de tratamento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o tabaco esteja relacionado a cerca de 8 milhões de mortes por ano no mundo, considerando tanto o consumo direto quanto a exposição à fumaça.
A eventual vacina, segundo os pesquisadores, não teria como objetivo substituir as terapias existentes, mas funcionar como uma ferramenta complementar para reduzir o risco de recaída.
Por enquanto, entretanto, a tecnologia permanece em fase experimental. Não há previsão de quando, ou mesmo se, a candidata poderá chegar à etapa de testes em humanos e posteriormente ser disponibilizada à população.
