O Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado neste sábado (29/8), chega com um número que contraria a expectativa. Um em cada cinco brasileiros de 16 a 24 anos se declara fumante ativo, de cigarro comum ou eletrônico. É a maior taxa entre todas as faixas etárias do país.
Os dados são de pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus. A geração que cresceu vendo campanha antifumo é justamente a que mais fuma.
O que mostra a pesquisa
O levantamento ouviu mais de 2 mil pessoas nas 27 unidades da federação.
- 19% dos jovens de 16 a 24 anos são fumantes ativos, de cigarro comum ou eletrônico
- 17% é a média nacional
- 15% é o índice na faixa de 25 a 40 anos, o menor do país
- 19% é a taxa de fumantes no Sudeste, região de Minas, atrás apenas do Sul (22%)
- 37% dos jovens de 16 a 24 anos convivem com frequência com fumantes
- 8% dos jovens dessa faixa se declaram ex-fumantes, o menor percentual entre todas as idades
- 63% dos fumantes classificam a própria saúde como “ótima” ou “boa”, percepção parecida com a de quem nunca fumou
Por que o consumo cresce nessa idade
Para a médica pneumologista Michele Andreata, a explicação começa no comportamento social, não no produto.
“Essa é uma fase da vida em que a experimentação pesa muito. O jovem quer pertencer ao grupo, frequenta festas, começa a consumir bebida alcoólica e, muitas vezes, o primeiro contato com o cigarro acontece nesse contexto, sem a percepção de que aquilo possa virar um hábito”, afirma Michele.
O segundo fator é o formato do cigarro eletrônico. “Com o vape, temos ainda outro problema: sabores, aromas, dispositivos pequenos e uma aparência que ajudou a tirar do produto aquela imagem negativa que o cigarro tradicional adquiriu ao longo dos anos”, diz a pneumologista.
A virada do uso ocasional para o frequente costuma passar despercebida. “O jovem experimenta pensando que vai usar só de vez em quando, mas estamos falando de nicotina, uma substância que causa dependência”, afirma Michele.
O vape não é “só vapor de água”
O cigarro eletrônico tem venda, importação e propaganda proibidas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas circula no mercado informal.
Michele rejeita a ideia de que o dispositivo seja uma versão inofensiva do cigarro. “O fato de não haver a mesma combustão do cigarro convencional não significa que aquilo que chega aos pulmões seja apenas vapor de água.”
Segundo a pneumologista, o aerossol pode conter nicotina e substâncias químicas potencialmente tóxicas, com associação já observada a tosse, chiado, falta de ar, inflamação das vias aéreas e casos de lesão pulmonar grave.
Há ainda o risco de dependência acelerada. “Alguns dispositivos conseguem entregar concentrações elevadas de nicotina e, como são fáceis de usar repetidamente ao longo do dia, o jovem pode consumir muito mais do que imagina”, explica Michele.
O primeiro sinal aparece antes dos 30
Existe a crença de que o dano só aparece depois de décadas. Michele diz que o organismo reage bem antes disso, e que o aviso costuma vir no esforço físico.
“Aquele jovem que corria, jogava futebol ou treinava sem dificuldade pode começar a sentir que perdeu fôlego”, afirma a pneumologista.
O cigarro inflama as vias respiratórias, aumenta a produção de secreção e pode provocar tosse, catarro, chiado e falta de ar. Quem tem asma tende a apresentar mais crises. Em paralelo, já ocorrem alterações nos vasos sanguíneos que, mantidas ao longo dos anos, elevam o risco de doenças cardiovasculares.
“Só fumo quando bebo” também conta
É a frase mais comum no consultório e, segundo Michele, uma das mais enganosas.
“Esse cigarro não deixa de fazer mal porque acontece no fim de semana. Não existe uma quantidade de cigarro considerada segura, e cada episódio de consumo expõe o organismo às substâncias tóxicas do tabaco.”
O problema adicional é a associação com o álcool. A pessoa bebe, sente vontade de fumar e repete o comportamento. “Aos poucos, o que acontecia apenas em uma festa pode aparecer em um encontro com amigos, depois em casa, até o cigarro entrar na rotina”, diz a pneumologista.
Quem não fuma também é afetado
O risco não se limita a quem fuma. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 37% convivem com frequência com fumantes em casa ou no trabalho.
A exposição repetida pode irritar as vias respiratórias, favorecer infecções, piorar quadros de asma e rinite e trazer consequências cardiovasculares, segundo Michele.
Há também um efeito de normalização. “Quando fumar faz parte da rotina de casa, da família ou dos amigos, aquele comportamento pode começar a parecer normal. Isso facilita a experimentação e aumenta a chance de o jovem se tornar fumante”, afirma.
Como parar de fumar: por onde começar
O primeiro passo, segundo Michele, não é jogar o maço fora, e sim mapear os gatilhos.
- Identifique os momentos. Quando o cigarro ou o vape aparece? Ao beber? Em situações de ansiedade? No intervalo da faculdade? Com determinado grupo de amigos?
- Marque uma data para parar. Ter um dia definido organiza a decisão.
- Tire os produtos de perto. Dispositivo, carga, maço e isqueiro fora de alcance.
- Conte com apoio. Família e amigos fazem diferença no processo.
“Parar de fumar não envolve apenas retirar a nicotina. Existe toda uma rotina construída em torno dela”, explica a pneumologista.
Michele indica avaliação profissional quando aparecem vontade intensa e frequente de fumar, irritabilidade e ansiedade ao ficar sem nicotina, dificuldade de se manter sem o produto ou tentativas anteriores que terminaram em recaída.
“Dependência de nicotina tem tratamento, e algumas pessoas podem precisar também de medicamentos. Não é simplesmente uma questão de força de vontade”, afirma.
Onde tratar o tabagismo de graça em BH
A Prefeitura de Belo Horizonte mantém o Programa Municipal de Controle do Tabagismo, com tratamento gratuito pelo SUS.
- Onde: nos centros de saúde da capital, com equipe multiprofissional
- Como começar: procurar o centro de saúde de referência do endereço de moradia
- Como funciona: o fumante participa de uma palestra motivacional, em que são avaliados o histórico de consumo, o nível de dependência da nicotina e a necessidade de medicamento
- Tratamento: abordagem intensiva em sessões estruturadas, feitas preferencialmente em grupo, com possibilidade de uso de medicação
- Quanto custa: gratuito
- Outro canal: o Disque Saúde, do Ministério da Saúde, no número 136, orienta sobre serviços de apoio a quem quer parar de fumar
