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Candidatos sem campanha

Por Paulo Leite Rede 98
16/09/2026 16:59 Atualizado há 37 minutos
CLEITINHO PATRUS
(Divulgação)

Há uma pergunta incômoda começando a rondar a eleição para o Governo de Minas: como alguém pretende governar um Estado de 21 milhões de habitantes demonstra tão pouca disposição para fazer aquilo que antecede o governo, a campanha?

A pergunta cabe especialmente a Cleitinho Azevedo e Patrus Ananias. Não porque estejam literalmente parados. Não estão. Patrus cumpriu agendas recentes no interior e em Belo Horizonte, incluindo Varginha, Poço Fundo, Uberlândia e uma feira na Serraria Souza Pinto. Cleitinho também tem compromissos de campanha e, nesta quarta-feira, por exemplo, tem agenda anunciada em Conselheiro Lafaiete. Portanto, seria incorreto dizer que os dois simplesmente desapareceram.

O problema é outro, e talvez mais importante.

Quando chega a hora do confronto público, da sabatina, da pergunta incômoda e da comparação direta de propostas, os candidatos começam a mandar representantes.

No encontro promovido pelo Codese-BH, Minas Tênis Clube e Diário do Comércio, a programação divulgada reserva a Cleitinho uma participação por procuração: quem comparece é seu candidato a vice, Luís Eduardo Falcão. A programação publicada pelos organizadores confirma Falcão representando a candidatura.

E não é um episódio isolado.

A Federação das CDLs de Minas iniciou uma série de encontros com os candidatos para discutir propostas do comércio e dos serviços. Na primeira reunião da agenda de Cleitinho, quem apareceu novamente foi Falcão. Reforma tributária, escala 6×1, ambiente de negócios, estradas e outros assuntos foram discutidos com o vice.

No encontro do setor de turismo desta terça-feira, o cartaz divulgado pela organização anunciou Cleitinho entre os confirmados. Na prática, porém, a tendência de substituição do cabeça de chapa por Falcão em compromissos setoriais já se tornou suficientemente recorrente para chamar atenção.

E vai continuar: no encontro promovido por Sicepot-MG e Sinduscon-MG, marcado para 21 de setembro, a programação oficial informa expressamente: “Luís Eduardo Falcão, candidato a vice-governador, representando o candidato Cleitinho”.

Com Patrus ocorre movimento semelhante.

Jarbas Soares, seu candidato a vice, vem assumindo compromissos nos quais apresenta propostas da chapa. Foi ele, por exemplo, quem se reuniu com auditores fiscais para expor as propostas da candidatura e também participou de encontro com entidades sindicais em Divinópolis.

Vice existe para isso também. Uma chapa não é candidatura individual. Falcão e Jarbas são candidatos a vice-governador, têm legitimidade para defender seus programas e devem participar da campanha.

Mas uma coisa é dividir a campanha. Outra é terceirizar justamente os momentos em que o candidato principal precisa ser confrontado.

A cadeira vazia começa a virar método

O episódio mais emblemático ocorreu com o debate que a Rede 98 pretendia realizar em 8 de setembro.

Cleitinho informou previamente que não participaria. Patrus estava entre os convidados. Ao final, apenas três dos seis candidatos convidados haviam confirmado presença: Mateus Simões, Gabriel Azevedo e Flávio Roscoe. Sem número suficiente de participantes, o encontro foi cancelado.

E agora chegamos às sabatinas. Nas promovidas pela Rede 98 participaram Gabriel Azevedo, Alexandre Kalil e Flávio Roscoe, com Mateus Simões sendo sabatinado no próximo dia 21 de setembro.

Cleitinho e Patrus recusaram o convite.

Se a ausência se repete também nesse formato, já não estamos discutindo simplesmente incompatibilidade de agenda. Estamos diante de uma decisão de campanha que merece ser explicada ao eleitor.

Porque debate é uma coisa. Sabatina é outra.

No debate existe risco de confronto, interrupção, ataque do adversário e uma dinâmica muitas vezes pouco favorável ao aprofundamento das propostas.

A sabatina elimina boa parte disso. É candidato, jornalista e pergunta.

E, justamente por isso, a ausência talvez seja ainda mais difícil de justificar politicamente.

A campanha eleitoral não deveria ser apenas escolher os ambientes nos quais o candidato se sente confortável. Um governador não poderá escolher a crise que vai enfrentar, a enchente que vai acontecer, o rombo que encontrará, a categoria que entrará em greve nem a pergunta que a imprensa fará.

Quem pede a chave do Palácio Tiradentes precisa aceitar também o desconforto do contraditório.

O paradoxo de Cleitinho

No caso de Cleitinho existe ainda uma circunstância particular.

Sua campanha aparentemente entendeu que a liderança nas pesquisas permite uma estratégia de menor exposição aos formatos tradicionais. Há lógica eleitoral nisso. Quem está na frente pode considerar que tem mais a perder do que a ganhar num debate.

Ao mesmo tempo, a chapa não está parada. Falcão intensificou articulações municipais e participou, ao lado de Cleitinho, de um encontro com mais de cem prefeitos. A estratégia municipalista da campanha está documentada.

Cleitinho faz uma campanha seletiva. Escolhe onde aparecer. Escolhe o formato. Escolhe o terreno. E utiliza intensamente seu vice para ocupar espaços institucionais.

É uma estratégia eleitoral legítima. Mas também é legítimo que o eleitor faça outra pergunta: até que ponto alguém que pretende governar Minas pode passar uma campanha inteira evitando parte dos ambientes nos quais será questionado sobre como pretende governar Minas?

Há ainda o horário eleitoral. Se a propaganda permanece praticamente congelada, como aponta a observação diária da programação, surge uma segunda questão: a campanha está apresentando um projeto de governo ou simplesmente administrando uma vantagem eleitoral?

São coisas diferentes.

Patrus também precisa explicar

Patrus vive situação eleitoral distinta e, exatamente por isso, sua presença nos espaços de exposição pública poderia ter importância ainda maior.

Ele tem participado de agendas e sua campanha produziu inclusive novas peças de propaganda nas últimas semanas. Em 9 de setembro, por exemplo, foi divulgada uma nova peça atacando aspectos do governo Zema.

Portanto, também seria impreciso falar em ausência completa de campanha.

O ponto é outro: por que um candidato ao governo abre mão justamente dos espaços nos quais pode apresentar suas ideias para públicos que talvez ainda não o conheçam suficientemente?

Jarbas Soares pode explicar o programa.

Luís Eduardo Falcão pode explicar o programa.

Mas nenhum dos dois substitui completamente aquele que estará sentado na cadeira de governador caso a chapa seja eleita.

E aqui está o centro desta discussão.

Uma eleição não deveria ser apenas uma operação para conquistar votos. É também o período em que a sociedade submete candidatos a uma espécie de vestibular público.

Quer governar? Então responda.

Quer administrar quase 600 bilhões de reais de PIB, 853 municípios, uma dívida gigantesca, estradas, hospitais, escolas e uma máquina pública enorme? Então explique como.

Quer comandar Minas durante quatro anos? Compareça.

Porque democracia tem uma regra simples que talvez as campanhas estejam esquecendo: o candidato pode mandar o vice para o evento. Mas não pode mandar o vice governar em seu lugar depois da posse.

E é por isso que Cleitinho e Patrus deveriam explicar suas ausências.

Não se trata de exigir que candidatos participem de todo evento para o qual sejam convidados. Isso seria impossível e até absurdo.

Trata-se da repetição.

Quando o debate vira ausência, a sabatina vira ausência e os encontros importantes passam a ser ocupados sistematicamente pelos vices, deixa de existir apenas um problema de agenda e nasce uma questão política.

A campanha é o momento mais fácil do mandato que ainda não começou. É quando o candidato escolhe a agenda, organiza o horário, prepara a resposta e chega acompanhado de assessores.

Depois da eleição, Minas Gerais e os mineiros é que escolherão a agenda, e, convenhamos, não costumam mandar convite com antecedência.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.