Quem é o principal adversário de Lula na eleição? Lula não disputa (apenas) contra Flávio Bolsonaro, nem contra a direita. Ele disputa contra o antipetismo e o antilulismo. Contra a desesperança diante da perda do poder de compra. Contra a frustração do eleitor mais pobre que não passa mais fome, mas se frustra por não ter melhorado de vida. Contra o jovem que conseguiu chegar à universidade, mas não tem espaço no mercado de trabalho. Contra o trabalhador sem carteira que rechaça o petismo porque o partido não entendeu que governar apenas com foco no chão de fábrica não abrange os anseios do eleitor de agora.
Lula disputa contra a dificuldade de dividir poder. Foi eleito em 2022 com a Frente Ampla em defesa da democracia. Mas governou sem essa grupo e pode não contar com ele agora. Dar um ministério para Simone Tebet não era suficiente. Não estou dizendo que seria uma acomodação fácil e ainda garantir governabilidade no Congresso. Mas o Lula 3 ficou longe de todo mundo. Lula tinha soberba ou preguiça da costura política e não tinha mais ao seu redor pessoas com a mesma compreensão do jogo político nem com a coragem de mostrar que ele precisava mudar.
Disputa contra a avaliação de que teria chegado tão longe que não precisaria mais participar da costura política. Que não precisa debater. O argumento, ou a desculpa, de que não debate com miliciano esconde uma preguiça ou inconformidade do presidente de ter que concorrer de igual para o igual com o filho de Bolsonaro.
E há ainda uma dificuldade de Lula e do PT de dividir poder. Mesmo com todos os sinais, o PT não se preparou para o pós-Lula. E se preocupou historicamente menos que o necessário com as eleições nos Estados. O foco era só Lula. Em Minas, não construiu um nome para representar o partido de agora para frente. Não deu espaço para Marília Campos, por exemplo. A ex-prefeita sempre teve simpatia de um eleitor que furava a bolha. Mas o PT só a deixou crescer até um certo ponto. Não a preparou para nada maior. A candidatura dela deveria ter sido construída não após Rodrigo Pacheco recusar a disputa ao governo de Minas. Não com a construção dela ao Senado já em andamento. Muito menos como uma opção para tampar um buraco.
O problema maior é que o PT e Lula minimizam o tamanho do antipetismo e antilulismo. Negam a necessidade de um político que tenta seu quarto mandato vencer o cansaço com sua imagem, sua voz, seu discurso. Não entende, por exemplo, que Flávio está empatado não por ser um candidato ideal. Mas apesar de ser um candidato com muitas explicações para dar e que começou com reservas até mesmo dentro de seu próprio grupo e de setores simpáticos ao bolsonarismo.