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A rota do PR-SBS: o avião, o deputado, o piloto e as perguntas que Cleitinho precisa responder

Por Paulo Leite • Rede 98
28/09/2026 20:26 Atualizado há 1 hora
(Foto: Ton Molina/Agência Senado)

Há histórias políticas que começam com discursos. Esta começa com um avião.

Um Cessna 210L, prefixo PR-SBS, de propriedade do empresário Roberto Altino Machado, tornou-se o centro de uma sequência de relações que passa pelo deputado federal Euclydes Pettersen, presidente do Republicanos em Minas Gerais, e desemboca numa pergunta diretamente relacionada ao senador e candidato ao governo de Minas Cleitinho Azevedo.

Quem utilizava o PR-SBS nas frequentes viagens entre Divinópolis e Brasília?

A resposta ainda precisa ser documentalmente fechada. Mas as informações disponíveis já justificam uma investigação aprofundada.

Roberto Altino Machado relata que emprestou o PR-SBS a Euclydes Pettersen porque uma aeronave utilizada pelo deputado estava na oficina.

Segundo o empresário, seria um empréstimo por curto período.

Curto, nesse caso, tornou-se um conceito bastante elástico.

Roberto Altino, empresário de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, afirma a essa coluna que Pettersen permaneceu com a aeronave por aproximadamente 18 meses, período em que o proprietário da aeronave foi informado que a aeronave fazia frequentes voos de Divinópolis para Brasília e no sentido inverso, e que um dos ocupantes era o senador Cleitinho Azevedo. Roberto Altino ressalta que nunca viu o senador embarcar na aeronave. Ainda de acordo com o relato de Altino, a demora na devolução acabou provocando um desentendimento entre ele e o deputado.

Esta informação é, até aqui, o relato do proprietário e precisa ser confrontada com Pettersen. O deputado foi procurado para explicar as circunstâncias da cessão, quem pagava as despesas do avião e quem efetivamente utilizava a aeronave.

A ponte aérea Divinópolis-Brasília

Há, entretanto, um segundo elemento que não depende de memória ou desentendimento entre antigos amigos.

O avião voou.

Registros públicos consultados pela reportagem mostram operações do PR-SBS entre Divinópolis e Brasília, justamente o percurso que interessa à apuração.

Em 25 de junho de 2026, por exemplo, há registro de saída de Brasília, passagem pela Pampulha e chegada a Divinópolis.

No dia seguinte aparece o caminho inverso, com partida de Divinópolis.

Em 2 de julho, novamente Brasília-Divinópolis.

Em 7 de julho, Divinópolis-Brasília.

E é aqui que o Cessna deixa de ser apenas objeto de uma disputa particular sobre um empréstimo e entra definitivamente na política mineira.

Em 3 de setembro, reportagem do Metrópoles publicou a informação de que Cleitinho teria utilizado aeronaves particulares para fazer seus deslocamentos entre Minas Gerais e Brasília. Entre os aviões mencionados estava exatamente o PR-SBS, de Roberto Altino.

A denúncia ganhou relevância porque confrontava uma das imagens públicas exploradas pelo senador: a do político austero que percorreria de automóvel a estrada entre Minas e a capital federal.

O histórico do FlightAware, é preciso deixar claro, não informa quem estava sentado dentro do avião.

Portanto, o registro dos voos não permite afirmar sozinho que Cleitinho estivesse no PR-SBS.

Mas permite fazer uma pergunta bastante simples: Cleitinho viajou ou não viajou naquele avião?

O deputado e o piloto

A história ganha outra camada quando se observa quem trabalha no gabinete de Euclydes Pettersen.

Carlos Renato Artioli Passos Bertozzo consta atualmente no Portal da Câmara dos Deputados como secretário parlamentar do gabinete de Euclydes Pettersen, nível SP23. Sua nomeação para o gabinete ocorreu em maio de 2023.

Bertozzo não apareceu agora no noticiário.

Em abril de 2025, o Intercept Brasil publicou extensa reportagem sobre sua contratação por Pettersen.

Segundo a reportagem, Bertozzo havia sido investigado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público Federal sob acusação de integrar organização envolvida no transporte de cocaína da Bolívia para o Brasil. Foi preso preventivamente em fevereiro de 2020 e posteriormente obteve o direito de responder ao processo em liberdade.

Decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirma que Bertozzo apareceu nas investigações entre pessoas que, segundo a autoridade policial, integrariam um grupo dedicado ao transporte de grandes quantidades de cocaína utilizando aeronaves de pequeno porte e caminhões.

É indispensável registrar a ressalva: investigação e denúncia não equivalem a condenação definitiva.

O próprio Pettersen, disse à época que sua contratação ocorreu em razão da experiência e competência profissional do piloto e ressaltou que o processo ainda não havia terminado. A defesa de Bertozzo argumentou que teria ocorrido um “reconhecimento parcial” de absolvição em primeira instância e que a discussão prosseguiria em grau de recurso.

Até aí, cada um responderá juridicamente pelos próprios atos.

O que interessa a esta reportagem é outra coisa.

Bertozzo não é simplesmente assessor de Pettersen. Ele também atua como piloto.

Bertozzo, de acordo com a apuração, apareceu pilotando aeronave pertencente a uma empresa de Pettersen. A reportagem do Intercept informa que a própria assessoria do deputado sustentou que as atividades de piloto estavam abrangidas pelas funções de secretário parlamentar porque ele cuidaria da logística dos deslocamentos e do planejamento das agendas aéreas do parlamentar.

A reportagem informou ainda que recursos da Câmara custearam salários do assessor e despesas de combustível relacionadas às aeronaves de Pettersen. O deputado argumentou que a utilização de avião próprio poderia representar economia em comparação com determinadas viagens comerciais.

Isso torna necessária outra pergunta na investigação do PR-SBS:

Porque Bertozzo também pilotava o avião de Roberto Altino enquanto a aeronave estava à disposição de Pettersen?

Quem eram os passageiros?

Uma aeronave e outras investigações

Há outro contexto que não pode ser confundido com o caso PR-SBS, mas ajuda a explicar por que qualquer movimentação de aeronaves relacionada a Pettersen exige apuração documental rigorosa.

Reportagem da CartaCapital publicada em julho deste ano descreveu investigações envolvendo o deputado e a Conafer no caso dos descontos não autorizados em benefícios previdenciários.

Segundo a publicação, documentos da investigação atribuem a Pettersen o codinome “Herói E” e registram suspeitas de pagamentos milionários. O deputado nega as acusações e afirma ser alvo de perseguição eleitoral.

O relatório da CPMI do INSS chegou a pedir seu indiciamento por diferentes crimes, mas o relatório foi rejeitado pela comissão por 19 votos a 12. Portanto, o pedido de indiciamento não foi aprovado pela CPMI.

E nesse outro caso aparece novamente um avião.

O relatório da CPMI mencionava a negociação de um Cessna monomotor que teria pertencido parcialmente a Pettersen e posteriormente passado por pessoas relacionadas às entidades investigadas. Pettersen apresentou versão diferente sobre o negócio e negou irregularidades.

Ignorar que aeronaves, pilotos e deslocamentos aéreos já aparecem em outras investigações relacionadas ao entorno político e profissional de Pettersen também seria jornalisticamente ingênuo.

O que Cleitinho precisa responder

E então chegamos ao personagem politicamente mais relevante dessa história.

Cleitinho não pode ser responsabilizado pelas investigações envolvendo Pettersen.

Não responde pelo passado judicial de Bertozzo. E evidentemente não existe culpa por associação.

Mas Cleitinho pode, e deve, responder por Cleitinho.

A pergunta é objetiva: o senador utilizou o PR-SBS?

Se utilizou, quantas vezes? Quem disponibilizou o avião? Quem pagou combustível? Quem pagou o piloto? Quem bancou taxas aeroportuárias e demais despesas? Houve alguma contrapartida?

Esses benefícios foram registrados onde a legislação eventualmente exigisse? E quem estava no comando da aeronave?

São perguntas particularmente importantes porque Cleitinho construiu parte de sua imagem pública sobre símbolos de austeridade e simplicidade.

Um senador da República utilizar um avião particular não constitui, por si só, irregularidade alguma.

A questão é outra.

Quem paga? Quem oferece? Por quê? E qual é a relação política entre quem recebe o benefício e quem o proporciona?

O avião deixa rastros

A aviação tem uma característica desagradável para quem prefere histórias nebulosas: avião deixa registro.

Tem prefixo, proprietário, plano de voo, aeroporto de origem, destino, horário de pouso, combustível, piloto, e, em algum lugar, tem passageiro.

No caso do PR-SBS, várias dessas peças já estão sobre a mesa.

Sabemos quem é o proprietário.

O proprietário afirma que entregou o avião a Euclydes Pettersen.

Sabemos que a aeronave fez viagens entre Divinópolis e Brasília.

Sabemos que reportagem anterior apontou que Cleitinho utilizaria justamente esse avião nessa rota.

Sabemos também que o gabinete de Pettersen mantém como secretário parlamentar um piloto cujo trabalho com aeronaves do deputado já foi reconhecido publicamente pelo próprio parlamentar.

O que ainda não sabemos é justamente a informação mais importante:

quem estava dentro do PR-SBS nesses voos?

A diferença entre uma denúncia barulhenta e uma investigação jornalística está exatamente aí.

Não é preciso imaginar.

É preciso documentar.

E, numa história em que tanta gente voa, talvez tenha chegado a hora de cada personagem explicar quem pagou a passagem, mesmo quando não havia passagem para comprar.

Cleitinho Azevedo e Euclydes Pettersen foram procurados pela reportagem e receberam questionamentos específicos sobre os fatos descritos nesta matéria. Suas manifestações serão incorporadas ao texto tão logo sejam recebidas.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.