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‘Marécio’: voto útil para o Senado existe? Cientista político explica riscos da estratégia

Por Igor Teixeira • Rede 98
28/09/2026 18:46 Atualizado há 2 horas
(Foto1: Luci Sallum/ Foto2: Bruno Spada / Câmara dos Deputados)

O chamado “Marécio”, combinação informal de votos em Marília Campos (PT) e Aécio Neves (PSDB) para o Senado, pode produzir um efeito contrário ao pretendido por eleitores que adotam a estratégia para tentar garantir a eleição da petista. A avaliação é do professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lucas Gelape. Segundo ele, o voto útil existe em disputas pelo Senado, mas a presença de duas vagas, vários candidatos competitivos e a definição tardia do eleitor tornam difícil calcular quem será beneficiado. Nesse cenário, votos destinados a Marília e Aécio também podem fortalecer o tucano sem assegurar uma vaga para a petista.

Gelape explica que um dos argumentos contrários ao “Marécio” é justamente a possibilidade de Aécio receber votos de eleitores da esquerda, além daqueles conquistados entre setores de centro.

“Um voto em Marília e Aécio pode, na verdade, tirar a Marília da eleição, da vitória, porque a direita conseguiria colocar um nome com bastante voto, enquanto a Marília perderia para o Aécio, porque o Aécio conseguiria os votos de esquerda, mas também vários votos ao centro”, explicou.

O professor ressalta que esse é um dos resultados possíveis, e não uma previsão sobre o desfecho da eleição. Segundo Gelape, também há argumentos no sentido contrário: a combinação entre Marília e Aécio poderia colocá-los à frente de candidaturas mais identificadas com a direita.

“Existem argumentos favoráveis aos dois lados, de falar qual é a melhor estratégia para eleger Marília ou não e barrar candidatos mais à direita ou não. Mas é um cálculo muito difícil para o eleitor fazer”, afirmou.

Afinal, existe voto útil para o Senado?

Gelape explica que o voto útil ocorre quando o eleitor deixa de escolher uma candidatura que inicialmente preferiria para apoiar outro nome na tentativa de aumentar as chances de determinado resultado eleitoral.

“Voto útil é um tipo de decisão do eleitor, que é quando o eleitor decide abandonar alguma candidatura que ele, em tese, preferiria, segundo os critérios que ele escolha para votar, em nome de tentar fazer com que algum candidato aumente as suas chances de vitória”, explicou.

Segundo o professor, é incorreto afirmar que o voto útil não existe em uma eleição para o Senado. A diferença está na dificuldade de calcular os efeitos da estratégia.

“Claro que existe voto útil para o Senado. Conceitualmente, é errado falar que não existe voto útil para o Senado. A questão é que é muito mais difícil calcular esse voto útil”, afirmou.

Esse cálculo tende a ser mais simples em uma eleição com uma única vaga e dois candidatos competitivos. Em Minas, são duas cadeiras em disputa e vários nomes concorrendo.

‘Marécio’ pode também beneficiar Marília?

Gelape aponta que existe outro argumento no debate. Eleitores que defendem a combinação podem considerar que votos em Marília e Aécio ajudariam os dois candidatos a superar nomes mais identificados com a direita.

Nesse cenário, o cálculo leva em consideração a divisão dos votos desse campo entre Marcelo Aro (PP), Domingos Sávio (PL), Marco Antônio Superman (Novo) e Carlos Viana (PSD).

É justamente a existência de cenários distintos que, segundo Gelape, impede uma conclusão simples sobre os efeitos do “Marécio”.

Decisão de última hora aumenta incerteza

Outro fator apontado pelo cientista político é o momento em que os eleitores escolhem os candidatos ao Senado. Segundo Gelape, essa definição costuma ocorrer mais perto da votação do que a escolha para cargos como presidente.

“Boa parte da decisão de voto para senador é tomada de última hora. Então, na verdade, o percentual de votos que a gente está vendo na pesquisa ainda é bastante volátil”, explicou.

Para o professor, esse comportamento acrescenta “uma camada de incerteza e de dificuldade no cálculo do voto útil”.

Assim, mesmo que o eleitor acompanhe pesquisas de intenção de voto para definir uma estratégia, os percentuais ainda podem mudar com as escolhas feitas nos últimos momentos da campanha.

Comparação com Dilma em 2018 tem limites

O debate sobre o voto útil também levou a comparações entre a situação de Marília e a candidatura da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ao Senado por Minas Gerais em 2018.

Gelape considera que há elementos que permitem aproximar as duas disputas, principalmente pela configuração ideológica, mas destaca diferenças importantes entre as candidaturas.

Dilma chegou à eleição com alto grau de conhecimento entre os eleitores por ter ocupado a Presidência da República. Marília, segundo o professor, apresenta outro perfil e faz uma campanha de circulação pelo interior e construção de apoios.

“Dilma era uma candidata que tinha uma intenção de votos muito mais alta do que Marília tem hoje, por exemplo. Então, são questões diferentes”, afirmou.

Para Gelape, portanto, o resultado de 2018 não pode ser simplesmente transportado para a eleição atual.

“Ainda que eu entenda a comparação de Dilma e Marília pela questão da estrutura ideológica da disputa, são dois perfis de candidaturas muito distintos e, por isso, acho que são dinâmicas que não são tão diretamente comparáveis. Elas são comparáveis em alguns aspectos, não são comparáveis em outros”, concluiu.

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Igor Teixeira
Igor Teixeira
Jornalista formado pelo Centro Universitário UNA, é repórter de política da 98FM. Tem passagens pela TV Alterosa e Itatiaia.